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As “Não-Partidas” de Magic
Uma reflexão sobre Concessões, IDs e Splits.
22/05/2017 10:00 - 15.659 visualizações - 30 comentários
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Olá! Hoje pretendo mostrar a minha visão e maneira de encarar um assunto “polêmico” no meio das competições de Magic, e que está presente em maior ou menor escala em todos os níveis de competitividade em torneios, desde ID e Split de meia dúzia de boosters na primeira mesa dos FNMs, até concessões nas rodadas finais de GPs/PTs – à assinatura de uma slip de resultados sem que tenha acontecido uma partida de Magic.
 

Para os que não estão por dentro da terminologia, contextualizarei as situações mais comuns em que essas “não-partidas” de Magic acontecem. Em todos os casos, um ou ambos os jogadores envolvidos são beneficiados. Porém, as “não-partidas” acarretam consequências implícitas aos demais, à esportividade do Magic e aos espectadores das partidas (seja presencialmente ou em stream). 

 

Pela recorrência dessas situações em torneios de alto cacife, por exemplo, a WOTC realizou a mudança na fórmula do chaveamento do Top 8 do Pro Tour (onde o 1° e o 2° começam nas semifinais, o 3° e 4° nas quartas-de-finais, e do 5° ao 8° nas oitavas-de-finais), adotada mais recentemente aqui  no Circuito Ligamagic para os Torneios Top 8 das lojas participantes. Curiosamente, a Wizards voltou a usar o sistema antigo depois de testes feitos em Pro Tour.


Antes de tudo, gostaria de dizer que apenas estou apontando a forma como eu, Matheus Akio Yanagiura / sandoiche_13, encaro a questão. Não pretendo apontar dedos e condenar o que é uma convenção social da maioria dos participantes assíduos de torneios. Afinal, eu mesmo já fiz/faço ou incentivei múltiplas vezes tais práticas. Por fim, gostaria de salientar também que em nenhuma das situações mencionadas abordarei aspectos de violações nas regras do jogo (como suborno ou métodos aleatórios de definição de resultado), sempre partindo da premissa que as concessões estão ocorrendo dentro das regras.

 

O ID+Split de Premiação

 

Essa é provavelmente o tipo de “não-partida” mais corriqueira e que qualquer frequentador de torneios em lojas locais já presenciou, ou até mesmo praticou. Quatro ou cinco rodadas de suíço, e na última rodada apenas os dois jogadores da mesa 1 estão X-0. Com isso, ambos empatam de forma intencional e dividem a premiação do 1° e 2° somada de forma igualitária (desde que utilizem a sequência de palavras corretas, aprovadas pelos juízes. para que não caracterize suborno).


Apesar de certa forma “inocente” e envolvendo valores baixos, esse tipo de ID silenciosamente incomoda muitos jogadores. Mesmo entre os diretamente envolvidos com a partida, alguns só querem ir para jogar e se divertir jogando o máximo de rodadas de Magic, correr atrás de Planeswalker Points para conseguir BYEs, ou até mesmo sentem que estão em um dia bom ou com um matchup favorável, e querem jogar para tentar a vitória. Mas, compelidos pela “pressão social” de estar X-0 na última mesa podendo dar ID, acabam pendendo para o empate para não “desagradar” o adversário, ou ficar conhecido como o “vacilão” da loja.

 


Afora os jogadores envolvidos, caso na última rodada os demais já saibam que na primeira mesa os jogadores vão empatar todos que abriram X-1 e têm chances de premiação acabam participando da última rodada “desestimulados”, sabendo que dificilmente alcançarão premiações boas. Afinal, caso essa mesa jogasse, alguém das mesas de trás poderia subir com uma combinação favorável nos tiebreakers.


Esse é provavelmente o maior tipo de “não-partida” que já cometi em números absolutos. Sempre gostei de participar em torneios regulares de lojas locais, chegando muitas vezes nessa situação – inclusive já oferecendo o empate antes mesmo de cumprimentar oponentes que algumas vezes nem entendiam muito bem esse conceito de “ID+split”. Enxergo que para alguns, pode até ser um pouco deselegante se formos pareados com alguém que não conhecemos tão proximamente. Por vários motivos, tanto pessoais na forma de refletir o assunto, quanto por parte de patrocínio, não pratico mais o “ID+split” nos torneios que disputo.
 

Em lojas onde o “ID+split” gerava grande incômodo para a comunidade, o sistema de premiação foi alterado – ao invés de premiar pela colocação final, foi inserida quantidade fixa de rodadas e premiação de acordo com o número de vitórias. Em casos mais extremos, a premiação dos jogadores X-1 e X-0-1 é a mesma, desincentivando o empate intencional. O “bônus” por parte dessa fórmula é que fica mais fácil de controlar o número de rodadas e consequentemente o horário em que o torneio começa e acaba.


A Concessão (por qualquer que seja o motivo)

 

Nesse cenário, algo interessa muito a um jogador e não ao outro, ou um dos jogadores com chances matemáticas de alcançar algo é paired down contra um oponente com pouca ou nenhuma ambição no torneio. É comum quando um jogador que está X-1 é paired down contra um X-2, quando os jogadores estão em um torneio que dá BYEs/Vaga (como um GPT para uma cidade que somente um jogador vai viajar ou PPTQ em cidades longínquas), um dos jogadores pode premiar e o outro não, e em níveis mais altos quando ambos estão X-5 em um Grand Prix, e os Pro Points não fazem diferença para um jogador fora do circuito enquanto que são preciosos para alguém correndo atrás de níveis Pro.


Novamente: desde que não haja nenhum tipo de suborno envolvido e seja uma concessão de boa vontade, não há nada de errado em termos de regras. A “etiqueta” nesse aspecto seria de que as concessões partam por iniciativa do oponente que entenda o que está em jogo ou que o jogador interessado em conseguir a vitória peça somente uma vez e não insista em caso de negativa.

 


 

Porém, assim como no cenário do “ID+split”, a refuta da concessão nos cenários em que ela é “esperada” pode gerar consequências implícitas para o jogador que quis jogar a partida, quando esse jogador simplesmente optou pelo “esporte” e pelo Magic na forma como ele deveria ser – jogado. Um exemplo dessa situação foi a não-concessão de Mark Jacobson quando este era o único X-0 e foi paired down contra o Hall of Fame, Eric Froehlic,h no Grand Prix Houston 2016 No caso, EFro estaria garantido no Top 8 com uma concessão, podendo dar ID na rodada seguinte, enquanto que o Jacobson já estava “lockado” mesmo se perdesse as duas rodadas seguintes. 
 

Jacobson quis jogar a partida e venceu, fazendo com que EFro tivesse que jogar a última rodada, onde ele ocasionalmente perdeu, ficando de fora do Top 8 e comentando o ocorrido em seu Report na CFB. No report, ele apontou que em não conceder seu oponente estaria perdendo “equidade”, e que por isso não poderia exigir o mesmo “favor” futuramente – o que de certa forma chega a ser uma “covardia” com Jacobson, que teve sua atitude reprovada e foi “queimado” em artigo escrito por um Pro Hall of Fame num dos sites de maior influência, em termos de conteúdo de Magic no mundo, quando o mesmo só estava exercendo seu direito de jogar a partida de forma justa e limpa, de maneira alguma sequer importando seus motivos para tal.
 

Outro “problema” da concessão, é que um jogador agraciado com uma, invariavelmente acaba ficando com a vaga de outro jogador que efetivamente jogou sua partida e venceu, mas dependia de um resultado específico do jogo onde houve a concessão. Um argumento citado pela comunidade na discussão Jacobson/EFro em Houston é o de que, caso Jacobson tivesse concedido, algum jogador das mesas posteriores que jogou e ganhou seu jogo não teria passado para o Top 8, enquanto que o EFro sem ter jogado, mas por ter dado a conveniência de enfrentar alguém que concedeu, passaria.
 

A ressalva para as concessões reside na “armadilha” de expectativa de recompensa por parte de quem concede. Existem vários “bons samaritanos” que mesmo sem ter nada conversado na hora, pelo óbvio motivo de ser contra as regras, concedem quando a vitória importa muito para o oponente já que esperam que o mesmo venha conversar “em off” depois para acertar valores, ou mesmo aqueles “boosters simbólicos” depois do torneio, quando em eventos menores.
 

Em ambos os lados do espectro, se eu concedo para alguém interessado em vaga/pontos/premiação, em nenhum momento vou atrás da pessoa cobrar algo, e recuso caso ela venha oferecer. Se for meu oponente que concede para mim por qualquer que seja o motivo, em nenhum momento vou atrás dele para oferecer valores ou premiação, já que vou sempre presumir que a concessão dele foi “de boa fé” e dentro das regras do jogo.


Empate não-intencional valendo Top 8

 

De tempos em tempos, esse cenário se repete em torneios por aí. Uma das mesas em que os envolvidos têm chances altas de Top 8, porém, um, ou ambos, não podem dar ID para se garantir, o que faz com que a partida seja jogada para decidir. Entretando, o tempo acaba, e o jogo está empatado. Nesses casos, quase sempre fica aquela resenha de “concede-pra-lá-concede-pra-cá”. Como proceder nesses casos?


Geralmente os jogadores envolvidos ficam tentando chegar a um consenso de qual deles “merece” passar para o Top 8. A resposta, na imensa maioria dos casos, é “nenhum deles”. É claro que se eles tivessem tempo infinito para jogar a partida e definir o vencedor, chegaríamos ao resultado “justo”. Mas o tempo da rodada também é um fator a ser considerado na hora de definir a estratégia para o torneio, tanto na escolha do deck, durante as partidas jogadas, ou mesmo na sua possibilidade de chamar o juiz caso ache que o oponente está jogando demasiadamente devagar. Portanto, um dos “merecimentos” para chegar até a vitória envolve ser capaz de consegui-la dentro dos 50 minutos+5 turnos estipulados para a rodada – afinal, todos os outros participantes do torneio também tiveram esse exato mesmo tempo.
 

 

E, se nenhum dos jogadores conseguiu alcançar tal feito dentro do tempo, o mais justo mesmo é que alguém que efetivamente venceu seu jogo (e dependia de um empate dessa mesa) acabe passando para o Top 8 – afinal, nenhum dos envolvidos no jogo “merece mais” do que qualquer outro competidor no torneio apenas porque estão em uma partida em que caso esgotado o tempo da rodada com um vencedor, matematicamente um deles passaria.


Empate Intencional (ID) para passar para o Top 8

 

Última ou penúltima rodada de suíço. Ambos os jogadores se enfrentam em uma situação em que o empate os classifica, enquanto que a derrota possivelmente, ou com certeza, elimina um. Esse é o único cenário das “não-partidas” em que nenhum dos jogadores está perdendo a tal da “equidade” citada pelo EFro – já que ao empatar, ambos estão atuando em benefício próprio sem um resultado “estranho” que prejudica a si próprio ou beneficia apenas ao oponente.


Mesmo nesses casos, alguns jogadores optam por jogar pelo Seed para obter a vantagem de começar as partidas, ou no caso dos Torneios Top 8 da Ligamagic, de poder jogar menos partidas até a final. Outros consideram que um ID para passar em 6°, 7° ou 8° dificilmente os dará chances de vitória, ou enxergam que a possibilidade de eliminar um matchup difícil do Top 8 na última rodada de suíço vale mais a pena que “se garantir” com o ID. Na maioria dos torneios que valem vagas/BYEs, a premiação é dada pelo Suíço, e uma recompensa grande para o 1° colocado também estimula jogar as últimas rodadas para tentar consegui-la.

 

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Não espero que ninguém tome minha abordagem como convite para foices e ancinhos a essas práticas, tampouco incentivar os jogadores a realizá-las a esmo. O que busco é trazer a reflexão sobre um assunto que chega a ser tabu no meio competitivo do Magic, e que episódios como o do EFro em Houston trazem oportunidades para o debate que interessa à toda a comunidade, de jogadores de torneios locais à grinders, de juízes a espectadores dos eventos.
 

Como você, leitor, encara cada um dos tópicos abordados nos torneios em que frequenta? Você já foi presenciou ou foi parte de alguma(s) dessa(s) situação(ões)? O quanto vocês julgam que a existência das “não-partidas” influenciam a esportividade das competições de Magic? Compartilhem suas opiniões e experiências nos comentários!


Abraços e até a próxima!

 

 

Patrocinador Oficial LigaMagic Bolts
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Matheus Akio Yanagiura ( sandoiche_13)
Matheus Akio Yanagiura, mais conhecido como Sandoiche, começou a jogar em 2003, em Flagelo. Está sempre na vida do grind dos torneios, com destaque para o título do CLM 10 Modern, o maior realizado até então, e o Top 16 no Grand Prix São Paulo 2018. É um entusiasta do Magic competitivo e totalmente dedicado à produção de conteúdo referente ao jogo, publicando artigos periodicamente desde 2012, colaborando para o Blog da LigaMagic desde 2015 e atualmente produz vídeos em seu canal no YouTube Sandoiche's Grind e streama ao vivo regularmente na Twitch.
Redes Sociais: Facebook, Twitter
Comentários
Ops! Você precisa estar logado para postar comentários.
(Quote)
- 06/06/2018 15:17
Magic tem que ser jogado. Quem faz esquema está tendo uma atitude antidesportiva para com os demais colegas jogadores. Se ficou cansado jogando Magic é porque é um fraco.
(Quote)
- 05/06/2018 17:29

hu3 Ever

(Quote)
- 05/06/2018 15:56

Só podia ser esse carniça do SceL msm

(Quote)
- 05/06/2018 06:59
Normalmente n concedo nem pro meu sócio. Eh muito da hora ver a cara dele apanhando pra mim, ele com chance de passar pra top.
Kkkkkkk
(Quote)
- 24/05/2017 01:54
Pessoal, pra quem não conhece o LeoKula sempre sai fazendo comentário pra gerar intriga, nem ele deve acreditar no que ele falou :P

Quanto ao assunto, realmente é uma pena que tenha pressão social pra algumas situações de não-jogo, mas a existência dessas situações já vejo como algo normal. Pra ser sincero, lá em 2013 quando comecei a jogar legacy em campeonatos eu até tomei um susto quando o pessoal do meu grupo comentou no final do suíço, e falando sobre standings, pairings, ID, etc. Mas é algo que faz sentido e se tornou praticamente a cultura do jogo, essa POSSIBILIDADE.

Agora a questão de gerar pressão pra isso já é sacanagem, e pq não dizer, falta de caráter. Geralmente eu pergunto, e sempre só uma vez. Se a pessoa quiser jogar, vamos jogar ué. Aquele episódio do Froehlich só mostrou o quanto as pessoas podem se tornar cegas pro que é certo. Foi total falta de respeito e caráter, ainda mais criar um POST pra defender uma atitude totalmente equivocada dele. Mas isso acho que todo mundo já sabe.

Se ambos querem, beleza. Agora, essa pressãozinha é ridícula.
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