Bancada do Juiz: Vencendo é jogando.
Determinando o vencedor de forma imprópria.
24/11/2017 10:00 - 4.423 visualizações - 12 comentários

 

Olá a todos! Sejam muito bem-vindos a mais uma Bancada do Juiz. Fiquei algum tempo sem escrever devido a alguns investimentos na vida, principalmente o caminho para o Nível 3. Com tudo em ordem, agora, podemos voltar a ativa! Portanto, puxem uma cadeira e fiquem à vontade!

 

Seja bem-vindo de volta, Juiz! Manda lá, o que temos hoje?

 

Recentemente, tivemos o Pro Tour Ixalan. Em meio a toda a competitividade do evento, tivemos três desclassificações, nas quais duas pareciam casos bem claros. A terceira, na Rodada 15, é o foco de nosso artigo de hoje - uma desclassificação por usar informações de fora do jogo para decidir a partida.

A partida entre Yao Zile e Luis Scott-Vargas estava empatada e foi para os cinco turnos após o tempo regular. Ao final dos turnos, vendo que nenhum dos dois ganharia aquela partida, começaram a debater sobre uma possível concessão de um deles. Ambos revelaram suas mãos e discutiram sobre quem estaria em vantagem. Nesse momento, Yao Zile comentou que precisava de um único card para vencer, e revelou alguns cards do topo de seu deck. Por ter feito isso, Yao Zile foi desclassificado por Determinar um Vencedor de Forma Imprópria.

 

(Confira o pronunciamento oficial aqui.)

 

Mas pera aí, Juiz. Tu não falaste que eram informações de fora do jogo? Ele revelou parte do deck, como isso é fora do jogo?

 

Esse tipo de confusão é exatamente o motivo deste artigo. Ao final de uma partida, ganhando ou perdendo, muitas vezes puxamos os cards do topo do deck para ver “o que teríamos comprado”. Quem não lembra de uma vez em que o card que precisava estava bem no topo do deck?

Primeiro, vamos dar uma olhada no que as regras nos dizem:

 

Guia de Procedimentos para Infrações

 

4.3 Conduta Antidesportiva — Determinar um Vencedor de Forma Imprópria

Definição
 

Um jogador usa ou oferece o uso de um meio que não faz parte do jogo atual (incluindo ações ilegais no jogo atual para determinar o resultado de um jogo ou partida) para determinar o resultado de um jogo ou partida.

 

Um jogador que recebe uma proposta e não chama imediatamente um funcionário do evento é considerado cúmplice da proposta e receberá a mesma penalidade.


Algumas formas desta penalidade são mais claras e conhecidas: rolar um dado, jogar uma moeda, tirar no par-ou-ímpar. A maioria da comunidade já ouviu sobre casos assim, seja por algo que de fato aconteceu ou por um anúncio de uma juíza ou juiz no início de um torneio, avisando que é ilegal e sugerindo para que não façam. O caso de hoje é um pouco menos conhecido, um pouco mais complicado e até mesmo um tanto confuso.

 

Quando estamos num jogo, temos acesso a algumas informações: os cards da mão, permanentes em jogo, cards no cemitério, cards exilados. Cards num grimório, no entanto, não são informação de acesso livre para qualquer um dos jogadores, a menos que um efeito permita isso, tais como cards como Tampo de Adivinhacao do Sensei.

 

Tá Juiz, mas o Grimório não faz parte do jogo? Não to entendendo como isso funciona.

 

Apesar do Grimório ser uma zona dentro do jogo, não significa que o conteúdo exato dela é conhecido. Claro, jogadores sabem o que colocaram nos seus decks. Mas, no momento em que o deck passa ser o Grimório, é uma zona com cards em ordem aleatória, ou seja, ninguém sabe qual será sua próxima compra sem utilizar um efeito como o citado acima, ou usar métodos ilegais para adquirir essas informações. E, como sabemos, utilizar métodos ilegais conscientemente para ter vantagem é Trapaça, o que também é penalizada com a desclassificação.

 

Então o ponto é que a informação fora do jogo era “não saber a identidade dos cards”?

 

Exatamente! O objetivo das regras é que os jogadores vençam suas partidas com recursos e informações que tem, não as que poderiam ter. Além disso, permitir a utilização dessa informação pode se tornar algo muito mais simples e indesejado que imaginamos. 

 

 

Vejamos um exemplo: digamos que, numa partida, meu oponente está com um ponto de vida e eu tenho um Gideon das Provas em jogo. Meu oponente tem muitas criaturas e eu só tenho uma única fonte branca, pois meu oponente destruiu minha outra fonte branca. Quando os turnos acabam, eu comento “eu tenho um Fumigar na mão, mas não tinha a segunda fonte branca. Se eu tivesse, teria jogado Fumigar e vencido”. A situação leva para uma pergunta mais simples: se o card do topo do meu deck for uma fonte branca que eu possa usar, meu oponente concede. Caso contrário, eu concedo para meu oponente. Por mais que não pareça, se tornou uma situação menos relacionada com a partida em si que o desejado, uma vez que se condiciona a vitória ao card do topo do deck.

 

Agora entendi, Juiz. Agora, se tu quisesse MUITO ganhar uma partida, não parece ser um argumento válido, dizer que ia comprar melhor?

 

Por mais que exista uma estatística sobre como um deck leva vantagem sobre outro, não se deve nunca se deixar levar por essa informação. Como já dito antes, utilizar as informações de dentro do jogo é permitido, como visto nesse exemplo:

 

Durante o Pro Tour Shadows over Innistrad, Andrea Mengucci jogava contra seu companheiro de equipe, Katsuhiro Mori, pela vaga no top 8. Numa época em que Companhia Agrupada e Jace, Prodigio de Vryn eram bastante utilizados, não seria anormal pensar no que poderia acontecer caso um “loot” (comprar um card e descartar um card) do Jace fosse utilizado, ou se uma Companhia Agrupada resolvesse. Quando os cinco turnos acabam, começam as discussões. Vendo o vídeo da discussão, vemos Andrea utilizando os cards do cemitério de Katsuhiro, mostrando que todos os Mago Refletor dele já tinham sido usados e, consequentemente, ele não tinha mais uma resposta eficiente para sua Dromoka, Soberana Dragoa, que tomaria o jogo. Ambos usaram informações que tinham - a mão, permanentes em jogo e cemitério (e é bom lembrar que a parte de trás de Jace, Telepata Ilimitado, conseguiria conjurar uma possível Companhia Agrupada do Cemitério). Eventualmente, o jogador japonês concedeu a partida. Andrea conseguiu a vaga para o Top 8 do Pro Tour, ficando em segundo lugar.

 

É… difícil comparar o Top 8 de um Pro Tour em matéria de valor, Juiz. Mas admito que, se fosse eu, talvez eu faria a mesma coisa. Como posso evitar de fazer coisas que não sei que são ilegais, mas podem me desclassificar?

 

Existem dois caminhos. O mais claro é ler as regras: o Guia de Procedimento de Infrações (IPG), assim como todos os documentos, está disponível em português . Como as próprias regras dizem, jogadores com mais conhecimento e domínio das regras podem se beneficiar das vantagens estratégicas ganhas por tais conhecimentos. Enquanto as Regras Abrangentes são bastante longas, o IPG é uma leitura mais curta que dá uma ideia do que é ilegal.

 

Um outro caminho é pedir auxílio para um Juiz. Muitas vezes, quando confusos sobre quando podem pedir uma concessão ou um empate (conhecido como ID, intentional draw), jogadores esquecem que podem recorrer a um juiz ou juíza, que pode explicar de forma simples o que não é permitido fazer. Claro, a presença de um juiz ou juíza não impede que uma oferta ilegal seja feita. Portanto, não chame o juiz e fale, em voz alta para que o oponente escute “Juiz, posso oferecer quinhentos reais para que meu oponente me conceda?” Portanto, utilize do bom senso, peça ajuda de seu juiz ou juíza, use as informações válidas e, se possível, termine sua partida dentro dos 50 minutos. Afinal, ganhar uma partida por meios normais parece bem melhor.

Muito obrigado pela atenção. Eu espero que este artigo tenha clarificado algumas das dúvidas com relação ao ocorrido no Pro Tour. 

 

Você também pode enviar dúvidas por e-mail! Qualquer pergunta sobre regras que tiver, mande um e-mail para BancadaDoJuiz@gmail.com ou entre com contato com a página no facebook.

 

Lembrem-se sempre: qualquer problema na sua partida, CHAME UM JUIZ! Qualquer dúvida relacionada a Magic, FALE COM UM JUIZ!

 

André Tepedino ( Tepedino)
Juiz desde 2004, conta com boa experiência de eventos brasileiros e internacionais. Entusiasta apaixonado pelo jogo, sempre está disposto a contribuir para o crescimento e melhoramento da comunidade. Quando descobriu que não jogaria mais competitivo por preferir arbitrar, optou por jogar Commander casual para se divertir.
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Comentários
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(Quote)
- 27/11/2017 14:24
"Tá Juiz, mas o Grimório não faz parte do jogo?"

Acho que é o único artigo da liga que se refere de forma CORRETA aquela "pila de cartas".
Jogador de truco é mato no MTG Brasil =)
(Quote)
- 27/11/2017 08:07
é o famosíssimo streetm@gic
(Quote)
- 26/11/2017 17:45
muito nice, excelente artigo, tudo poderia se resumir em Joga o Jogo, q é melhor pra todo mundo.
(Quote)
- 24/11/2017 21:59
É muito bom receber orientação técnica sobre o jogo. Valeu Juiz!
(Quote)
- 24/11/2017 18:40
Sempre muito bom as informações,parabéns!
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