NÊMESIS – RIVAIS
CAPÍTULO 9.
11/12/2018 10:05 - 1.516 visualizações - 1 comentário

 

NÊMESIS – CAPÍTULO 9

RIVAIS

 

 

Ertai e Belbe estavam olhando para as ruínas da cidade, abaixo da Fortaleza. Como a ideia havia sido de Ertai – ajuntar os reféns das famílias – ela desejava descer para averiguar as coisas. Embora tinha sido uma ideia de Ertai, ele admitia que não tinha sido uma de suas melhores.

“Claro que é uma ótima ideia, assim como todas as minhas, porém nada de bom virá dela.”

Ertai segurou a mão dela houve uma leve tentativa de se libertar, mas Ertai a segurou.

“Eu posso leva-la lá, Excelência.”

“Você não precisa me chamar disso.”

“Não?”

“Não.”

“Muito bem, Belbe. Posso leva-la lá mais rápido do que qualquer nau ou dispositivo.”

Ele soltou a mão dela, se virou e caminhou para longe um pouco. Sentando no chão arenoso e cruzando as pernas, Ertai pressionou as palmas juntas e fechou os olhos.


 

 

“Visualização é a parte mais importante da conjuração.”

Belbe observava cuidadosamente. Ertai tremia. Seus dedos ficando brancos devido a pressão e a cor fugia do seu rosto. A gola do seu novo gibão murchava por causa da transpiração. Alguma coisa perturbou o ar atrás deles. Ela se virou e viu uma forma vaga com asas batendo e pairando acima da plataforma. O rosto dele ficou mais tenso e o contorno das oscilações do objeto aumentava e dava mais distinção.

O ar parecia estar congelando para formar a criatura a qual, gradualmente, assumia a forma de uma enorme ave de rapina. Belbe não sabia o que era e nem Ertai deu qualquer resposta. Ele descruzou as pernas e abriu os olhos. Sua testa estava gravada com sulcos profundos enquanto ele mantinha a concentração, mesmo com as distrações.

Ele estendeu a mão em direção a ave fantasma, a puxou de volta, e fechou os dedos esticados em um punho. O pássaro gigante voou, asas e cabeça atravessando a estrutura sólida da plataforma, mas quando alcançou Ertai, ele estendeu a garra e pegou o pulso dele. Ele repetiu o gesto e puxou o pulso de Belbe também.

Belbe tentou se soltar, mas foi inútil. Embora a garra fosse sólida, seus esforços de repelir o pássaro não encontravam carne sólida alguma. Era perturbador se erguido por uma visível, porém intocável garra.

O falcão fantasma disparou levando suas presas caminho abaixo. Alguma parte primitiva dela estava emocionada com o terror - uma emoção que ela aprendera em Rath – mas seu bom senso dizia que interromper o foco mental de Ertai seria muito desastroso.

Descendo em espiral, a ave passou perto das colunas de lava se aproximando da Cidade dos Traidores. Enquanto desciam, Belbe começou a apreciar a experiência. As curvas, a sensação de velocidade e o poder do voo eram inebriantes. Ela olhou para a cidade abaixo e percebeu que não havia atividade nas ruas. Nem Kor nem Vec podiam ser vistos.

Ertai começou a sufocar alto. Seu rosto parecia de um fantasma e sangue escorria das narinas. Ele tossiu forte e Belbe percebeu que a garra do falcão ficou fina. Eles estavam duzentos pés acima da cidade, se ela caísse, nem mesmo seu esqueleto de metal a salvaria e o destino de Ertai não seria diferente.

A descida aumentava de velocidade enquanto as asas da criatura começavam a minguar. O sangue já cobria as roupas de Ertai e o corpo do falcão já tinha quase ido, apenas o esboço mais fraco fora deixado. Repentinamente, a criatura mágica se desfez. Belbe se lançou para Ertai e o pegou, se contorceu no ar até que seus pés ficassem para baixo, se preparando para o impacto. Eles atingiram o teto de uma casa vazia, atravessaram, acertaram o chão do segundo andar e também passaram por ele. Quando Belbe bateu no chão, suas pernas se bateram com força, mas as ligas Phyrexianas suportaram a pressão.

Eles rolaram vez após vez, na poeira e escombros da habitação abandonada, parando contra uma parede externa. Ela se levantou do lixo com as pernas estremecendo pela tensão. Seus sistemas de cura já estavam agindo, reparando músculos e ligamentos, liberando seu sistema nervoso com supressores de dor.

Belbe virou Ertai. A cor retornava e seu nariz havia parado de sangrar. Todo o impacto da queda recaíra sobre ela. O mago tolariano estava com uma terrível enxaqueca agora. O pássaro mágico dele falhara. Aquela afirmação o surpreendeu, pois ele estava em completo transe e concentração para guiar o pássaro. De fato, ele estava incrédulo quanto a falha do seu feitiço, se não fosse o interior sombrio da casa arruinada, o sangue seco em seu rosto e pescoço, e os modos inflexíveis de Belbe ele não acreditaria que um feitiço tão básico quanto aquele pudesse falhar.

Alguma coisa estava interferindo com o fluxo de energia mágica. Belbe acreditava que podia ser o tratamento de cura e que as energias nativas de Rath eram diferentes da terra natal dele. Ela o ajudou a ficar de pé.

Por razões que ela não compreendia completamente, Belbe se inclinou para frente e pressionou seus lábios aos de Ertai. Ele ficou tão surpreso com essa ação inesperada que não conseguiu responder. Belbe retirou-se, sem expressão.

“Fiz corretamente?”

“Não sei. Não estava preparado-”

“Prepare-se então. Pode acontecer outra vez.”


 

 

Em um silêncio estranho, eles saíram da casa arruinada seguindo um caminho largo e limpo de detritos. Era perceptível que a poeira espessa tinha sido agitada, recentemente, por uma grande multidão de pessoas.

“Os reféns vieram por aqui.”

“Deve haver centenas deles.”

“Milhares. Lorde Greven não é homem de meias medidas.”

Eles desceram uma estrada ampla cuja luz avermelhada da coluna de lava pintava as ruas de rosa.

Ertai olhava para Belbe enquanto pensava numa pergunta.

“Posso te perguntar uma coisa?”

“Certamente.”

“Você já se perguntou alguma vez se está do lado certo?”

Ela olhou para seus pés. “Da estrada?”

“Não, nesta batalha.”

“Não.”

“Por que não?”

“O lado certo é o lado vitorioso. Está é a verdade básica que meus mestres me ensinaram.”

“Eles podem estar errados.”

“É possível, mas não provável. O tempo dirá.”

“Costumava pensar que eu conhecia o certo e o errado. Isso foi antes de eu iniciar meus estudos avançados na magia. Então aprendi que poder é poder, independente de sua origem. Qualquer espécie pode ser usada para matar ou curar e se é assim, como pode alguma coisa ser boa ou má? Simplesmente é. Acho que as pessoas também são assim. Simplesmente somos.”

“Te farei uma pergunta. Você se arrepende de estar aqui? Sente falta de seus companheiros do Bons Ventos?”

Ele parou, os pés mexendo pequenas gotas de poeira fina. “Eles me abandonaram aqui. Eu estava furioso com eles por isso, agora, de uma forma estranha, acredito que me fizeram um favor.”

No meio das ruínas, a luz sanguinária da coluna de lava e o ar ainda úmido no fundo da cratera, Belbe teve uma nova e estranha experiência. A mais ordinária das mulheres poderia ter dito que ela estava tendo sentimentos de afeição pela primeira vez. Mas parece que ela teria que descobrir isso sozinha.

 

* * * * *

 

Os reféns enchiam as prisões militares com relutância. Cada família se estabelecia num recinto empoeirado e esperava pela palavra de que podiam ir para casa novamente. Soldados se posicionavam acima das paredes de entulho, de olho em suas cargas quiescentes.

Belbe e Ertai encontraram Greven sentado num monólito quebrado. Dorian il-Dal estava com ele. Quando eles viram Belbe se aproximando, ambos se ergueram e se curvaram. Ela rejeitou a oferta de comida, indo direto ao assunto dos reféns.

“Eles estão aqui?”

“Seis mil.”

“Cinco mil, novecentos e oitenta e oito, para ser mais exato,” disse Dorian. Ele erguia vários pergaminhos em caso de Sua Excelência desejasse ver as listas. Ela ignorou o pergaminho oferecido e caminhou até a entrada da prisão Dal. Moggs grunhiram se afastando e os guardas ficavam em total atenção quando Belbe passou.

Dorian, Ertai e Greven vieram atrás dela.

“O que sua Excelência deseja?”

“Primeiro, uma visão melhor.” Ela olhou para todos os lados, avaliando as estruturas. Belbe olhou por cima da arena empoeirada, repleta com quase dois mil Dal. Com rigor projetado, ela catalogou a multidão: mil quinhentos e trinta e três adultos; quatrocentos e sessenta e uma crianças. A maioria dos adultos eram anciãos e mulheres. Ela começou a contar as muletas na multidão e parou quando passou dos cento e cinquenta. O desgosto subia pela garganta. Ela se virou para o trio de homens atrás dela.

“Quem escolheu estas pessoas?”

“Bem, eu escolhi, Excelência, com a ajuda de Lorde Greven,” Dorian replicou.

“Por que tomou estas pessoas em particular – mulheres, crianças e velhos?”

“Venha Excelência. Eu prefiro não ter essa conversa perto da parede da prisão,” disse Greven com o rosto endurecido.

Ela desceu e ficou de frente com o guerreiro. “Explique suas escolhas, camareiro.”

Os lábios de Dorian tremiam. “O-o-o Senhor do Pavor e eu discutimos. Concordamos que estes seriam reféns mais efetivos.”

“Prossiga.”

Greven deu um passo à frente. “Nosso objetivo é manter a paz dentro da Fortaleza. Escolhemos essas pessoas que têm fortes elos com aqueles que não foram escolhidos. Os homens Dal pensarão duas vezes antes de insurgir contra nós se souberem que temos suas mães, pais, esposas e crianças em nosso poder.”

“Acredito que você cometeu um erro, Comandante. Agora, somos tão reféns quanto essas pessoas atrás das paredes!”

“Como assim,” perguntou Ertai.

“Se alguma dessas pessoas se ferir, começaremos uma rebelião ao invés de sufoca-la.” Ela estava furiosa e não sabia como lidar com as emoções despertadas pela situação dos reféns. “Por que não ajuntou os jovens? Eles são aliados em potencial para Eladamri, não essas pessoas inúteis.”

“Em questões de agitação civil, não há inocentes expectadores,” Greven disse.

“Acalma-se Excelência!” Dorian suplicou. “Ninguém deseja causar mal a estas pessoas. Quando Lorde Crovax retornar triunfante, tudo acabará bem.”

“E se Crovax perder?” perguntou Ertai.

O silêncio que se seguiu era sufocante.

 

* * * * *

A Força Expedicionário de Skyshroud permaneceu no campo por dois dias, queimando seus mortos e construindo defesas de grama, rochas e dos destroços dos equipamentos do exército. Todos esperavam que os rebeldes atacassem e os eliminassem, mas eles não o fizeram. Patrulhas de cavalaria eram enviadas para procurar por Eladamri e seu bando, mas eles retornavam em poucas horas e reportavam não ter encontrada sinal do inimigo.

Os rebeldes não deixaram resto algum: cada lança arremessada, espada dobrada, elmo quebrado fora eliminado do campo de batalha. Nenhum rebelde morto fora deixado para trás. As planícies ao redor do acampamento de Rath foram pisoteadas por homens, elfos, moggs e kerls, mas nenhuma evidência das forças de Eladamri permaneceram.

Crovax se retirara para seus aposentos improvisados – uma pilha de grama queimada com um quadrado de lona como telhado – e meditou sobre sua derrota. A organização e defesas e as defesas ficaram ao encargo de Nasser. Ao não ser por grunhidos de aprovação as sugestões de Nasser, Crovax não falou por dois dias. Depois de dois dias após a batalha, no final da tarde, ele emergiu de sua tenda. Nasser o esperava do lado fora aguardando por ordens.

“Meu senhor, quais são suas ordens?”

“Algum sinal do inimigo?”

“Nenhum, meu senhor.”

“Desfazer acampamento. Marchamos.”

“Muito bem, para aonde meu senhor?”

“Para a Fortaleza.”

O exército esteve esperando por aquela ordem, e em menos de uma hora, eles estavam prontos para marchar. A cavalaria se espalhou e a coluna de infantaria, muito menor agora, preparou suas armas e partiu.

O Corpo dos Sargentos esperava pacientemente por Crovax. Sua kerl estava presa a um toco de uma lança do lado de fora dos aposentos. Mais da metade do exército estava pronto para marchar de volta para a Fortaleza e nenhum sinal de Crovax.

“Alguém devia chama-lo,” Tharvello disse.

Os outros sargentos balançaram a cabeça. Ninguém queria se deparar com a fúria dele.

“Nasser, você é o favorito dele. Vá você,” disse Tharvello.

“Posso esperar.”

“Aha! Está com medo dele também!”

Os olhos de Nasser se estreitaram, ele desmontou do kerl e entregou as rédeas para um mogg. Ele alinhou os ombros e caminhou até a porta da pequena tenda. Parando perto da entrada ele chamou, “Meu senhor! O exército está em andamento. Tomará seu lugar entre nós?”

Um baque abafado e uma nuvem de poeira se afastaram da cabana de Crovax. Raios de luz branca ofuscante irrompiam de cada rachadura e fenda nas paredes de grama. Nasser colocou o braço em frente ao rosto, e a cabana colapsou com um curto de cinzas e poeira.

“Sargentos, a mim!”

Uma dúzia de guerreiros correram para a tenda destruída, procurando seu comandante em meios aos destroços. Quando perceberam que estavam procurando em solo virgem, os sargentos perceberam que Crovax se fora. Todos falaram de uma vez.

“O que aconteceu?”

“Eladamri-”

“-magia élfica!”

“Alguma arma nova-?”

“-Eladamri-”

Nasser estava agachado sobre os restos da tenda, brincando nos escombros com os dedos. Ele, calmamente, contemplou a situação e gradualmente acalmou seus colegas sargentos.

Finalmente, alguém disse, “Onde ele foi?”

“Talvez de volta para onde veio. O que fazemos agora?” Tharvello perguntou.

O sargento sênior limpou a poeira do solo das mãos. “Eu liderarei.”

Eles estavam mais do que felizes por ele ter assumido o fardo. Tharvello disse, “Quais são suas ordens, Nasser?”

“Sem um corpo, não posso assumir que Lorde Crovax esteja morto. As últimas ordens do comandante permanecem. Vamos para casa.”

 

* * * * *

 

O Predador estava no ar novamente, graças aos esforços incansáveis de Greven. Depois que os reféns estavam seguros, Greven retornou para as docas da nau onde ele supervisionou a recolocação dos poderosos motores do Predador. O casco estava flutuando para fora da doca inferior e, cuidadosamente, dirigido para o pórtico de aterrissagem superior. Lá, o reajuste final seria colocado e Greven formaria uma nova tripulação para substituir aquela perdida na batalha do Bons Ventos.

Ertai desaparecera nas bibliotecas da Cidadela, assolado pelos enigmas do seu lugar no esquema das coisas. Dias se passaram, e Belbe o viu pouco. Quando finalmente o encontrou, ela estava espantada pelas mudanças que lentamente o transformavam.

Certa manhã, ela o encontrou empoleirado em uma mesa de um antigo depósito de pergaminhos, cercado por pilhas de documentos descartados. O aposento era sufocante e Ertai havia retirado a roupa acima da cintura para suportar melhor o calor.

Antigamente, ele nunca fora do tipo musculoso, agora, Ertai possuía uma amplitude formidável dos ombros que podiam ser observados enquanto ele se curvava sobre o pergaminho. Isso, e o fato de seu cabelo ter se tornado castanho-escuro, fizeram com que Belbe tivesse dúvida se estava realmente vendo-o.

“Olá, vejo que está aproveitando as bibliotecas.”

“Estes pergaminhos estão errados. A descrição do cruzamento de energia-”

“O que está acontecendo com você, Ertai?”

“Do que está falando?”

“Você está mudando. Seu cabelo, seu físico-”

“Era esperado. A infusão de energia que você iniciou em mi está fazendo isso. Toda vez que volto ao laboratório de Volrath, eu mudo um pouco mais.”

Ela se afastou. “Ainda está usando o infundidor? Por quê?”

“Imagine meu desgosto quando descobri que os efeitos do dispositivo eram somente temporários. Quando minhas lesões retornaram, precisei retornar ao infundidor para outro tratamento. Eu devia saber que ele não me curaria de fato. Se não estivesse tão ferido, certamente teria pensando nisso.”

“Pensado no que?”

“Apenas energia vital natural pode curar carne humana. Outras variedades podem mascarar o dano, transformando-o em alguma coisa mais. No meu caso, o dispositivo de Volrath parece estar me transformando em uma versão menor de nosso amigo Greven.”

“Não!”

“Não faz diferença. De qualquer forma, não posso parar agora. Se eu faltar um dia no infundidor, a sessão de miséria e a tortura retornam. Não posso suporta-las...  um pouco de músculo não me fará mal e minha mente ainda é minha. Talvez, esteja ainda melhor, se for possível. Estou lendo oito livros por dia, percebeu isso? Vou passar por esta biblioteca em breve, e logo passarei para a próxima.”

 


 

“Cuidado Ertai.”

Ele sorriu a sua própria maneira irônica. Ertai ergueu a mão, com a palma para fora, em direção a prateleira mais carregada de pergaminhos. A rochafluente ondulou como uma vela de recife. Ele sustentou o movimento por vários segundos antes de desaparecer.

“Sua influência está aumentando.”

“Sim. Eu posso dar a Crovax uma surpresa em breve.”

Ela queria falar com ele sobre seu poder emergente, mas Ertai abaixou a cabeça para ler novamente e, rapidamente, esqueceu que Belbe estava presente. Ela se retirou do aposento com o coração batendo rápido sem saber o porquê. Levou alguns minutos para voltar ao ritmo normal. Belbe continuou sua ronda na Cidadela, parando na sala de controle da fábrica para checar o Acelerador de unidade que instalara. O teimoso dispositivo continuou tentando elevar a produção a níveis ineficientes acima de cem por cento, o qual forçou Belbe a improvisar um método para dificultar o excessivo entusiasmo da máquina de produção.

Ela decidiu adulterar o medidor de saída, redefinindo-o manualmente para enganar o Acelerador fazendo com que achasse que a fábrica estivesse produzindo mais rochafluente do que realmente estava. Contudo, havia um problema com sua solução improvisada. Assim como os outros maquinários na fábrica, o medidor de saída se autocorrigia. Em alguns dias de produção, ele descobriria que suas leituras estavam incorretas e faria a correção. Dessa forma, Belbe teria que retornar para o domo de controle todo dia para resetar o medidor de saída e manter o máximo de eficiência.

Enquanto mexia no dispositivo, ela percebeu uma esfera de luz branca, circulando e descendo pela coluna de energia. A esfera disparou em uma direção, então em outra. Belbe a perdeu por um segundo por causa do feixe de luz, então ajustou sua visão para ver através da corona da coluna. Bem acima, a esfera de luz branca flutuava. Ela mergulhou atrás de um poste e se perdeu de vista.

Curiosa, ela deixou a estação de controle e partiu em direção a Cidadela. Tudo parecia normal. Servos e cortesões se curvavam enquanto ela passava e os guardas mantinham suas posições.

Ela alcançou a intersecção principal e começou a descer. Belbe procurou por traços do invasor e o encontrou fora da janela. Lá, ela viu o viveiro dos moggs, a torre do mapa, o laboratório de Volrath e o teto dos Salões Oníricos. O teto arqueado do corredor tinhas rastros de calor fantasmagórico, entrecruzando-se para frente e para trás. O visitante fantasma estava lá.

Pela primeira vez na vida, Belbe correu. Suas pernas estavam curadas após a queda nas ruínas e ela usou seus limites físicos. Em segundos, Belbe estava as portas dos Salões Oníricos. Suas mãos estavam quase nas maçanetas quando as altas e duplas portas se balançaram silenciosamente para dentro.

“Minha jovem senhora.”

“Crovax!”

Ele ainda estava em sua armadura empoeirada. Ela sentia o cheiro de sangue, fumaça e viu um pouco de grama nas botas dele.

“Aquilo era você?”

“Você me viu? Ah sim, você é a emissária, você vê tudo.” Ele parecia tonto e arrastou os pés para se manter em equilíbrio. “Um bônus de nossos mestres. Posso me mover à vontade de lugar a lugar.”

“Teleportação.”

“É assim que se chama?” Ele chamou pela rochafluente e formou um lugar para sentar.

“E o exército? Por que você os abandonou?”

“Meu exército? Inúteis, gado covarde! Eu os teria matado se fosse Eladamri!”

“Você perdeu o exército inteiro?”

O rosto de Crovax se contorceu. “Perdi algo de pouco de valor.”

“Quantos sobreviveram? Onde estão agora?”

Ele se pôs de pé. “Quem é você para me questionar?”

“Sou a emissários dos soberanos. Pergunto outra vez, onde está seu exército?”

“Lá fora.” Ele balançou a mão. “Travamos uma batalha noturna. Os rebeldes um fogo contra o vento da nossa posição e vários soldados ficaram presos entre as chamas.”

“E Eladamri?”

A voz de Crovax estava quase inaudível. “Escapou.”

O maquinário dos sonhos perto do teto chiava e zunia. Por alguns segundos, era a única coisa se movimentando e fazendo barulho nos Salões Oníricos.

Então Belbe falou. “Você falhou.”

A frieza e dureza retornou à sua voz. “Este foi somente o primeiro round. Ainda há vários atos para jogar.”

“Um novo evincar deve ser nomeado logo.”

“Então me nomeie! Quem mais pode escolher? Greven? Ele foi escravo por muito tempo para saber governar.”

“Há outro candidato.” A rochafluente ao redor de Belbe ondulava como o mar. Ela ignorou e quando se acalmou outra vez ela disse, “Eu me refiro a Ertai.”

“Aquele garoto? Os soberanos sabem que está considerando aquele vira-lata arrogante?”

“Os soberanos sabem tudo que faço. Os dotes mágicos de Ertai estão muito além de qualquer outra pessoa em Rath. Sua influência sobre a rochafluente cresce a cada dia.”

“Ele sabe comandar um exército? Sabe governar? Sabe reinar?”

“Essas são questões ainda não respondidas acerca de você, Crovax. Quanto a Ertai, ele é inteligente, esperto e tem intuição. Foi Ertai, por exemplo, que aconselhou o estratagema de levar os reféns da população local para assegurar que eles não dessem suporte aos rebeldes de Eladamri.”

Crovax deu um sorriso horrível. “Reféns? Que ideia maravilhosa. Dou o crédito ao filhote.” Ele caminhou, lentamente, ao redor de Belbe, perto o suficiente para sentir seu hálito frio no rosto. “Quantos reféns?”

“Mil.” Ela não sabe porque deu o valor errado.

“Onde eles estão?”

“Nas ruínas do lado de fora da Cidade dos Traidores.”

Ele parou de perambular bem atrás dela. “Entendo. Obrigado, Excelência.”

“Pelo o quê?”

“Por restaurar minha fé na sabedoria de nossos mestres.” As pontas dos dedos frias roçaram a nuca dela. “Mas me escure, garota. Eu serei Evincar de Rath.”

“Está me ameaçando, Crovax?”

Os dedos saíram. “Certamente que não, Excelência. Meramente me comprometo a fazer o máximo para a causa. Você faz o melhor para os soberanos, não faz?”

“Eu realizo a tarefa pela qual fui criada.”

De repente, ele a abraçou pelas costas com seus braços poderosos, um ao redor da cintura, o outro ao redor do pescoço. Numa decisão de fração de segundos, Belbe decidiu não se mexer, mas permaneceu o mais relaxado possível.

“Somos aliados no final das contas,” ele disse suavemente na orelha dela. “Cooperação pode ser tão satisfatória quanto competição – com a companhia certa.”

“Estou aqui para escolher a melhor pessoa para o trabalho, quem quer que seja.” Belbe ainda não se mexia.

“Sem emoções envolvidas.”

“Emoções não são eficientes.”

Crovax apertou o abraço.

“Você não pode me derrotar, Crovax.”

“Não sonharia em tentar, Excelência.” Ele soltou os braços, e Belbe recuou. A adrenalina corria por seu corpo. Ela se sentia como uma mola enrolada. Crovax parecia bem calmo.

“Quero um relatório completo sobre a batalha por escrito, detalhando suas perdas, as táticas de Eladamri, e o estado do exército,” Belbe disse, interiormente tremendo de excitação. Ela ficou pensando como seria quebrar os braços e pernas de Crovax. Ela sabia como fazê-lo, mesmo através da armadura dele.

“Como desejar. Quando devo apresentar meu relatório?”

“Vai esperar até eu desejar.” Belbe imaginava o rosto dele explodindo em sangue e fragmentos de ossos, os dentes caindo como pedras de granizo no piso polido. “Onde estão os sobreviventes da sua força?”

“A alguns dias de marcha daqui.”

“Eles terão que retornar por conta própria?” Com um chute ela poderia quebrar sua traqueia e ele lentamente estrangularia até a morte...

“O Predador está voando novamente. Enviarei Greven para encontrar seus homens e escolta-los até o lar. O navio não tem armas a bordo ainda, mas os rebeldes não sabem disso.” Com um golpe ela poderia empurrar a cartilagem do nariz dele para dentro do cérebro.

Ele a saudou. “Sua Excelência é sábia e frugal.”

Crovax partiu, e as portas dos Salões Oníricos se fecharam silenciosamente atrás dele. Belbe saltou no ar, chutando e batendo no ar furiosamente com os punhos. Quando isso não a satisfez, ela correu para a parede e esmurrou um elaborado baixo-relevo de um dos sonhos de glória de Volrath. A parede de rochafluente, feita para imitar o mármore, se estilhaçava com os golpes de Belbe. Assim que os fragmentos caíam no piso, eles começavam a escalar de volta para se ajuntar a estrutura quebrada. Ela socou a parede até que seus nós dos dedos ficassem marcados e o óleo brilhante escorresse. Ofegante de excitação, ela se afastou para recuperar o fôlego.

Sua violência desencadeou o dispositivo de sonhos acima. Com um assobio de servos e fios desenrolando, três apanhadores de sonhos desceram até o nível dos olhos de Belbe. Em cada um deles havia uma “pérola” branca e suja, representando alguma experiência onírica o qual o dispositivo pensou que seria apropriada ao estado atual da mente de Belbe. Ela encarou as três máquinas e com um rugido de pura fúria, agarrou um em cada mão e os despedaçou. O terceiro apanhador de sonhos se retirou apressadamente.

Belbe se deleitou em esmagar os sonhos de Volrath sob seus calcanhares.

 

* * * * *

 

O exército alcançou Chireef, o último posto antes da Fortaleza, três dias depois da batalha. Uma marcha que Crovax fez em um dia e meio, Nasser estava satisfeito em fazê-la no dobro de tempo. Seus homens estavam cansados, muitos feridos, e ninguém estava com pressa de retornar para casa de uma derrota.

Ginetes retornavam com notícias de que o forte em Chireef parecia abandonado. As portas estavam fechadas e barradas e ninguém na guarnição respondia ao chamado dos batedores. Alarmado, Nasser e o Corpo dos Sargentos cavalgaram à frente da linha principal com tudo o que sobrou da cavalaria para investigar o que aconteceu a Chireef.

O forte parecia deserto. Fendas de flechas estavam vagas. Sem sentinelas no telhado. Alguma bandeira desconhecida pendia frouxamente do mastro – o ar estava muito quieto para mexer. Apesar dos repetidos chamados, ninguém de dentro respondia.

A porta era um enorme caso de bronze, e os soldados de Rath não estavam equipados para derruba-la. Um grupo de quatro homens foram ordenados para escalarem as paredes do forte com cordas e ganchos. A parte externa da fortificação era liso como vidro – para evitar tentativas de escalada – por isso, levou tempo para que os soldados alcançassem o telhado. Três homens entraram no forte e abriram a porta enquanto o quarto arremessava a bandeira misteriosa para Nasser.

Era um triângulo de pano verde áspero, com uma simplificada imagem de uma cabeça de cobra vermelha, presas à mostra, no centro.

Com um barulho alto, as portas de Chireef se abriram. Os ginetes que entraram estavam perplexos. Havia ninguém dentro, vivo ou morto. O lugar tinha sido despojado – nem mesmo lixo fora deixado.

“E as cisternas?” Nasser perguntou. O exército estava com sede.

“Vazias. Alguém quebrou as válvulas de rochafluente, deixando a água vazar dos tanques de armazenamento.”

Era certo que isso era trabalho de Eladamri e seus rebeldes, mas o misterioso estado do forte era inquietante. Onde estavam os sinais de batalha? Onde estavam os mortos ou os feridos? Não puderam nem encontrar manchas de sangue. Como pôde um bando de rebeldes, armados somente com armas de mão, capturar um forte bem protegido o qual o exército havia visitado alguns poucos dias atrás?

Uma mancha de poeira no horizonte avisou Nasser que a infantaria estava a caminho. Tharvello e alguns dos sargentos queriam mantes as tropas afastadas de Chireef, mas Nasser não permitiria.

“Que todos saibam o que pode acontecer se caírem nas mãos dos rebeldes! Que todos contemplem Chireef e lutem mais para evitar o destino dos companheiros.”

As companhias marcharam para o forte abandonado. Palavras encheram as fileiras sobre o desaparecimento de toda a guarnição e o temor tomou conta do exército desanimado. Nasser ordenou que a marcha durasse até o amanhecer. Embora estivessem a uma noite de marcha da Fortaleza, o sargento sênior não queria que as tropas chegassem no meio da noite. Ele decidiu acampar mais uma noite e marchar até a cidade em plena luz do dia. Também enviou um pérchero com as novidades, sem mencionar onde Crovax estava. A mensagem estava direcionada para Greven il-Vec.


 


 

Ele parou o exército na estrada principal de Chireef até a Fortaleza. Os cansados homens ajuntavam galhos para a fogueira e os preparativos para a refeição se iniciaram. Quando eles estavam prestes a sentar, as sentinelas reportaram uma luz desconhecida no céu. Nasser não teve que ir muito à frente para ver o que as sentinelas tinham visto: uma luz dourada brilhante, baixa no ar e movendo-se com velocidade considerável. Estava se aproximando de sudeste, diretamente da Fortaleza.

“Nau voadora? Uma nau inimiga?

“Não sei. Alertem as tropas. Se vamos ser atacados, os homens devem se dispersar.”

Pércheros e trombetas tocaram, e os soldados abandonaram suas refeições para se colocarem de pé. O farol aéreo era facilmente visto por todos agora, e enquanto manobrava abaixo das nuvens lentas, murmúrios ansiosos passavam pelas fileiras.

O zumbido dos motores aéreos alcançou os soldados e o primeiro esboço escuro do navio surgiu de detrás da luz. O holofote doura varreu a planície gramada, direita, esquerda, á frente e de volta. Alguns da cavalaria foram apanhados pelo feixe, e os kerls se mexiam nervosamente quando a luz acertava seus olhos.

Nem mísseis ou bombos vieram da nau voadora. Ao invés disso, ele começou a descer lentamente. O holofote desceu, destacando o pedaço de terra onde o navio pousaria. No brilho reverso, Nasser reconheceu a longa proa e a mandíbula de embarque proeminente. “É o Ppredador.”

As tropas de Rath deram um berro de alívio e centenas correram para se encontrar com a embarcação. O Predador pairava acima do solo com suas lâmpadas acesas, permitindo que Nasser visse a tripulação no convés. Uma escada de corda desenrolou até o chão, porém o primeiro homem que desceu não a usou. Greven il-Vec saltou do convés, aterrissando levemente. O Corpo de Sargentos se aproximou para saudá-lo.

“Senhor do Pavor! É bom vê-lo.”

“Isto é tudo o que sobrou das forças?

Surpreso, Nasser recuperou seu comportamento profissional e responde, “É, Senhor do Pavor.”

“Onde está Crovax?”

“Ele não está aqui, senhor. Não o vemos desde o acampamento.”

“O que? Onde está seu oficial de comando?”

Nasser explicou como Crovax desapareceu quando a estranho explosão destruiu a tenda. Ele esperava mais demonstração de temperamento, mas ao invés disso o gigante guerreiro parecia contente em ouvir sobre a partida inesperada de Crovax.

“Ele se foi então? Sua chance de ser Evincar se foi também.” Greven percebeu a pressa dos solados ao redor dele e rosnou. “Seus homens não têm nada melhor para fazer do que ficar aqui, me olhando como um bando de moggs famintos?”

Os soldados aliviados retornaram para as fogueiras. Greven ordenou ao Predador para sobrevoar e procurando por problemas enquanto ele permanecia no solo. Ele desejava ouvir toda a história da batalha com os rebeldes. Então, anunciou que ele mesmo lideraria o remanescente da Expedição de Skyshroud para dentro da Fortaleza. Greven ouviu toda a história de Nasser e dos sargentos. Eles culpavam o vento e o fogo pela sua derrota e confirmaram que Eladamri possuía Vec e Dal aliado na luta.

Greven ouviu cada palavra. Suas feições desumanamente duras eram uma máscara para os sargentos reunidos. Enquanto Greven estava sentado, pensando e dizendo nada, um por um os sargentos começaram a sair para dormir um pouco. Nasser foi o último a partir. Greven encarava o fogo e Nasser saudou secamente, desaparecendo na escuridão.

Ele não tinha ido nem dez metros quando Tharvello o pegou pelas costas.

“O que é isto?”

“Você ouviu Greven lá atrás. Isto significa o fim de Crovax, não é?”

“Tais decisões não passaram pela minha cabeça.”

“Ora vamos, você e eu pegamos o manto de Crovax de bom grado, achando que isso nos adiantaria no exército e nos livraria do peso daquele bastardo Greven. Bem, Crovax estragou tudo! Devemos fazer as pazes com Greven.”

“Você fala como um cortesão. Não venderei minha lealdade ao primeiro sinal de adversidade.”

Tharvello sorriu. “Então vai ficar com Crovax.”

“Eu sirvo Rath, não qualquer homem. Se pensa que Crovax está acabado, está gravemente enganado. Derrotado ou não, ele retornará mais forte do que nunca. Marque o que digo.”

Nasser o deixou.

Tharvello abriu sua cota de malha e retirou um pérchero escondido debaixo dela. Pércheros se lembram das últimas palavras ditas em sua presença.

Suas palavras estão marcadas, Tharvello pensou, acariciando a criatura alada.














 

Leandro Dantes ( Arconte)
Leandro conheceu o Magic em 1998 e, desde então, se apaixonou pelo Lore do jogo. Após retornar a jogar em 2008, se interessou por lendas, o que resultou por despertar a paixão pela escrita. Sempre foi mais colecionador do que jogador e sua graduação em Pedagogia pela Ufscar cooperou para que ele aprimorasse e desenvolvesse um estilo próprio. Autor de alguns contos, todos relacionados ao Magic, já traduziu o livro de Invasão e criou sua própria saga com seu personagem, conhecido como Arconte.
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Comentários
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(Quote)
- 12/12/2018 10:20
Esse plot de Nêmesis ficou bem interessante.
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