NÊMESIS - CAPÍTULO 15
DECISÃO
17/05/2019 18:05 - 2.803 visualizações - 3 comentários

NEMESIS - CAPÍTULO 15

 

No cume do pináculo da Cidadela, Sivvi e seus companheiros estavam agachados atrás de uma grua na doca da nau voadora. A alguns metros o Predador flutuava, amarrado à plataforma por grossos cabos. O massivo convés de armas da embarcação, o qual possuía um enorme arpão farpado, tinha acabado de ser abaixado até o convés por outra grua. Havia uma gangue de moggs trabalhando nas armas. Sivvi contou pelo menos trinta moggs e seus supervisores Dal e Vec, talvez houvesse mais uma centena trabalhando em oficinas.


“O que faremos, Sivvi?” Perguntou Khalil, um dos voluntários Vec.


“Se conseguíssemos subir, poderíamos causar algum dano,” ela murmurou

.
“Teynel disse para não agirmos sozinhos,” disse Langwin, um parente Dal de Darsett. “Deveríamos encontra-lo como planejado e contar o que descobrimos sobre o Predador.”


“Sim, quando voltarmos talvez essa coisa maldita já esteva voando novamente. Enquanto isso Eladamri está nas mãos de Greven! Vou dizer, temos que fazer o que pudermos, agora.”


Ela soltou as falsas bandagens e desenrolou o totem-vec ao redor da cintura.


“Estão comigo?”


O grupo de Vec rapidamente concordou enquanto os Dal não estavam muito entusiasmados.


“Escutem, se pudermos destruir o Predador, isso causará transtorno por toda a Fortaleza. Será mais fácil resgatar Eladamri e sair daqui.”


“Tudo bem, como entraremos?”


Sivvi olhou ao redor. Havia um caminho muito longo entre eles e a embarcação flutuante. Embora estivessem vestidos com uniformes de Rath, estavam numa área restrita e seriam detidos antes de chegarem ao destino. Ela ergueu os olhos. A grua onde estavam escondidos era a maior da doca e alcançava a embarcação atracada.


“O que acham de escalar?”


Ela enrolou o totem-vec ao redor do ombro e começou a escalar a estrutura da grua. Um a um eles a seguiram. O pórtico era largo o suficiente para que escalassem todos juntos, mas Sivvi tomou a liderança. Logo ela alcançou o fim da seção vertical, parando, ela olhou para baixo e apertou com força a estrutura. Além de estar uns quarenta pés acima da plataforma, ela podia ver ao longo do limite do cais para muito abaixo da Cidadela. O constante feixe de energia estava no outro lado do Predador e o fluxo azul crepitante abafava os ruídos da construção das docas.

 

 

Embaixo, os moggs criavam faíscas batendo rebites enquanto reparavam as armas do convés. Faíscas voavam, e quando outros moggs jogavam água fria nos rebites para endurece-los, gotas de vapor subiam e nublavam o convés.


Era uma oportunidade enviada pelos deuses!


Sivvi acenou para os homens avançarem, e um após o outro eles começaram a descer da grua para o tombadilho vago. Após descerem, eles se esconderam e, escutando vozes dos trabalhadores, seguiram caminho até as escotilhas abertas.


“Deve haver coisas inflamáveis no navio. Óleo, nitro, licor, alguma coisa. Procuraremos no convés debaixo até que encontremos algum e então, puff!” Ela lançou a mão no ar, fazendo um gesto.


Eles estavam prestes a entrar por uma das escotilhas quando um trabalhador da doca apareceu inesperadamente. Ele encarou os cinco soldados e a única coisa que pôde dizer foi, “O que?”, antes que os rebeldes o nocauteassem. Sivvi tomou a dianteira enquanto desciam para dentro do navio.

 

O ar estava pesado com o cheiro de metal quente e madeira. Eles desceram dois conveses e alcançaram um poço de ventilação aberto acima do compartimento do motor. Sivvi liderava o caminho com sua arma empunhada à frente. No caminho, alguns moggs passaram, porém estavam ocupados demais com seus afazeres e não perceberam o grupo de invasores. Ela arriscou um olhar para a sala do motor e contou cinco operários Dal, limpando os acumuladores de powerstones com trapos, polindo o latão dos acessórios até que brilhassem como ouro.

 

 

Sivvi cheirou.


Espíritos minerais... isso queimaria bem.


De onde eles estavam pegando aquilo? Ela se inclinou. Os operários estavam passando um balde de lata, mergulhando seus trapos e torcendo o excesso. Quando o balde estava vazio, eles o enchiam de um barril próximo.


“É isso. Preparem-se!”


Eles se posicionaram e quando quatro operários estavam à vista, Sivvi acenou e eles caíram em cima dos homens. Os rebeldes surpreenderam os operários e rapidamente os renderam. Sivvi estava pressionando um homem contra a antepara quando o quinto Dal retornou com o balde cheio de espíritos minerais. Ele derrubou o balde e gritou por socorro. Tentando fugir, antes que desse dois passos, Sivvi soltou seu totem-vec e fez um movimento ardiloso, com um estalo, a lâmina saltou pelo ar e acertou o homem pelas costas. Ele parou, braços estendidos, como se tivesse virado pedra. Os outros rebeldes ficaram admirados.


“Vocês achavam que isso era um brinquedo? Tragam aquele barril para cá.”

 

O grupo trouxe com grande esforço o barril. Sivvi o inclinou e os três tombaram o barril que derrubou os espíritos minerais (um líquido inflamável) pelo convés, enchendo o ar com um aroma pungente.


“Alguém vai sentir o cheiro.”


Alguém sentiu. Logo após sua fala, uma chave pesada fora arremessada lá de cima, caindo na testa de um dos Dal. Os rebeldes olharam para cima e viram um grupo de moggs, rosnando, balbuciando e agitando ferramentas no ar. Uma saraiva de chaves e cabos choveu sobre eles. Enquanto os rebeldes desviavam, alguns moggs saltaram. O chão estava coberto dos minerais e eles deslizaram, caindo pesadamente sobre os companheiros.


Um mogg, coberto do líquido, se levantou com seu malho em mãos. Sivvi balançou seu totem-vec direto no peito dele. Ele pareceu não se importar.


“São mais durões do que parecem.”


“Só preciso encontrar um ponto macio.”


Ela encontrou e enterrou a lâmina no olho esquerdo do mogg. Gritando, ele caiu chutando o convés.


“Vamos sair daqui! Khalil! Langwin! Tentem chegar no convés principal!”


“Precisamos de uma tocha!”

 

Uma chave passou voando e bateu contra a antepara, arranhando o elmo do rebelde.


“Pederneira? Aço?”


“Pensei que isso fosse uma incursão, não um acampamento!”


Eles recuaram até a escotilha. Medd bateu a porta antes que outra chave arremessada o acertasse. Passos batiam no convés acima, Sivvi e Medd correram, olhando para o teto.


“Parece que há centenas.”


“Não mais do que seis, eu diria. Cuide daquele caminho!”


Ele parou na porta ao lado, dividindo sua atenção entre o corredor e o que Lin-Sivvi estava fazendo. Ela avistou uma lâmpada na parede e a pegou com ambas as mãos, conseguindo quebra-la. Ajustando o controle do pavio a lâmpada começou a brilhar.


Espíritos minerais estavam vazando por baixo da escotilha da sala do motor. O Predador estava extremamente pesado por causa da arma do convés que tinha acabado de ser montada, por isso o vazamento estava se inclinando para frete. Sivvi se afastou e atirou a lâmpada incandescente na piscina escura que vazava por baixo da porta, a lâmpada se quebrou e a luz se apagou.


“Maldição! As lâmpadas não tem chamas.”


Dois operários apareceram no corredor. Eles desviaram do totem-vec que veio rodopiando em sua direção e fugiram rapidamente.


“E agora?”


“Temos que fazer algum dano. Podíamos usar o grande guindaste do lado de fora? Acertar o navio com ele?”


“Parece bom. Vamos!”


O interior da embarcação tinha a mesma qualidade zoológica da Cidadela e correr por ela parecia como atravessar a barriga de uma grande besta. O convés estava coberto de madeira, mas as anteparas e costelas do navio eram uma espécie de liga avermelhada, entre metal e osso. Finalmente, chegaram ao final do corredor. Sivvi encontrou uma escada e assim que subiu, um disparo de balista passou raspando pela bochecha. Ela desviou tão rápido que derrubou Medd da escada abaixo.


“Estamos presos?”


“Ainda não.”


Após um movimento rápido e letal do seu totem-vec o convés estava limpo. Eles saíram e encontraram Khalil e Langwin à frente, envoltos com um grupo de moggs.


“Temos que ajuda-los!”


“Precisaremos de mais de um totem-vec para deter aquela turba.”


Mais do que um totem-vec?


Ele olhou pelo ombro e viu a enorme arma no convés. Puxando Sivvi pelo braço, querendo saber se ela sabia operar aquela coisa, ambos correram para ela.

 

 

A arma estava carregada com um arpão farpado. A extremidade da culatra da arma era uma cobertura de alavancas, nenhuma das quais estava rotulada. Homens e moggs estavam se ajuntando nas docas.


“Rápido!”


Medd puxou uma alavanca. A arma do convés balançou para a esquerda. Anotando isso, ele tentou a alavanca do lado oposto. A arma gentilmente virou para a direita. Uma alavanca entre os dois fez a arma elevar ou deprimir. Ele puxou de volta o controle do lado esquerdo. O suporte da arma girou rapidamente até que ficou apontado para a popa. Medd soltou a alavanca. Ele abaixou o focinho da arma até que a ponta do arpão apontasse, não para a multidão de moggs ameaçando seus amigos, mas para o convés abaixo deles. Um disparo zumbiu por sua cabeça.


“Rápido!”


Medd puxou uma alavanca curta abaixo dos três controles principais e foi recompensado com um jato de vapor na cara. Sivvi contorcia seu totem-vec de um lado para outro nervosamente.


“Tente outra vez!”


Na parte de cima dos controles havia um botão preto. Medd bateu nele.


Houve uma explosão ensurdecedora e o canhão de convés disparou contra a retaguarda do navio. Sivvi foi jogada no convés. O enorme arpão mal limpou o caminho antes de se enfiar abaixo da ponte. Pranchas na ponte desceram até o arpão penetrar. O impacto arremessou moggs pelo ar.


Sivvi se sentou, segurando a cabeça. Um barulho alto enchia seus ouvidos, levou alguns segundo até ela perceber que o som não vinha de dentro da sua cabeça. Medd a colocou de pé e gritou no ouvido dela, mas ela não conseguia ouvir. Ele se aproximou e gritou na orelha dela.


“Eles dispararam o alarme! Logo este lugar estará cheio de soldados!”

 

 

A fumaça do primeiro disparo atravessou o convés até a doca da embarcação. Os trabalhadores das docas se abrigaram depois que a arma foi disparada, e em seu lugar vieram guardas do palácio fortemente armados. Sivvi usou a fumaça para chegar ao tombadilho. Moggs atordoados e sangrando estavam por todo lugar. Ela teve que vasculhar entre eles para encontrar seus companheiros.


Khalil estava morto, os moggs o mataram antes do disparo da arma. Langwin estava inconsciente. Ela o arrastou o pôs de pé.


“Você no Predador! Afaste-se dessa arma!” Veio uma voz das docas. Medd puxou a alavanca direita, e a arma se virou em direção à porta.


“Fiquem longe ou invadiremos o convés!”


Medd inclinou a arma em direção a voz. Ele esperou até que Sivvi aparecesse pela fumaça carregando Langwin pelo ombro.


“Atirem!”


Uma onda de flechas varreu o convés. Protegido pela massiva arma, Medd ficou seguro, mas a saraiva pegou Sivvi e o companheiro. Langwin foi acertado duas vezes, deixando o morto cair ela se jogou no convés.


“O que está esperando? Atire!”


Vinte e poucos soldados vieram correndo pela fumaça, espadas à mostra. Eles estavam vindo em formação, então Medd apontou a arma contra eles e apertou o botão de disparo. Houve uma dupla explosão. O eixo do arpão estalou e a cabeça farpada atravessou os guardas que atacavam. A ponta do arpão disparou loucamente no ar, ricocheteando no cais e voando para o feixe de energia. Ela foi vaporizada numa explosão de luz e fumaça.


Medd não fechou a arma completamente. O resultado foi uma explosão que arruinou a arma. Sangrando devido a pequenos estilhaços, ele cambaleou até Sivvi que jazia de bruços no convés. Não havia buraco algum nela, mas ela não se movia. Ele se ajoelhou e verificou se ainda estava viva.


Ela ergueu a cabeça, se colocou de pé e limpou o pó de cima dela. Embora o alarme ainda tocasse, a doca estava quieta. Ninguém sobrevivera à explosão. Eles seguiram caminho, pegando um par de adagas e uma espada dos soldados mortos.


“Venha, devemos encontrar Teynel e os outros!”


Chegaram à escada lateral quando outro destacamento de guardas do palácio chegou ao elevador principal. Os rebeldes escaparam na fumaça, deixando um Predador danificado, mas intacto flutuando em suas amarras.

 

* * * * *

 

Ele nunca gritava. Greven o admirava por isso.


O interrogatório durou horas sem resultado. Greven e o mogg carcereiro usaram seu repertório padrão de ferros quentes de marcar, esmaga dedos e tenazes. Eladamri nunca gritou, nunca implorou por misericórdia. Ele xingou por um tempo, então ficou em silêncio. Sua resistência espantou os moggs e eles começaram a sair da sessão. À meia-noite ninguém restava na cela a não ser Greven e o teimoso líder rebelde.


Ele sentou-se num banquinho baixo e estudou o inimigo que sempre escapara dele. Diferente dos soldados de Rath, Greven nunca acreditou que Eladamri tivesse poderes mágicos. Ele compreendia – ou achou que compreendia – a mente de um lutador dedicado. Mas quando Eladamri exauriu seus interrogadores e nada revelou dos planos, organização ou dele mesmo, Greven sentiu-se desprovido de compreensão.

 

 

Ele era apenas um elfo de meia idade, sem grande porte ou força física. Ele não discursou sobre liberdade como outros rebeldes prisioneiros faziam. Ele não disse nada, apenas resistiu.


“Qual é o seu segredo?”


Pendurado pelos pulsos, Eladamri se virou lentamente nas cordas. Estava quase inconsciente, mas ainda respirava. A porta da cela se abriu e Greven saltou, pegando a espada que estava na mesa perto dele. Uma figura encapuzada estava na entrada.


“Quem está aí?”


O intruso deu um passo à frente, e Greven viu a figura com clareza.


“É você. Não há nada a dizer. Ele não vai falar.”


A figura entrou na sala, com suas mãos pálidas e Greven reconheceu o rosto de Furah.


“Por que está aqui?”


“Estive interessado nesse aqui há muito tempo. Seus métodos habituais falharam, não foi? Você não pode quebrar um guerreiro como Eladamri abusando do seu corpo. Alguém como você, Greven, cujo todo corpo está envolto numa forma física, teria sido quebrado.”
 

“Não sou estranho a dor.”


“Dor não é o autor da submissão – o medo é. Eles são bem diferentes. Homens comuns vêm a esta sala cheios de terror porque sabem que sofrerão grande dor. Eladamri não tinha medo. Seu espírito o preservou da mera dor física. Para alcança-lo, teremos que descobrir o que ele teme.”


“Você tem tempo para isso? A emissária tem segurado Crovax, mas ela não pode resistir a ele por muito tempo. Quando vai agir?”


“Há tempo. Tenho alguns elixires comigo que abrirão a mente de Eladamri.”


O rosto de Greven ficou duro feito pedra. Ele odiava drogas. Sob circunstâncias normais, havia um vínculo entre prisioneiro e interrogador – força contra força. Embora ele nunca admitisse para o visitante, ele achava que Eladamri estava qualificado para uma morte honrosa. Ele fora torturado e resistiu, o próximo passo devia ser uma execução digna. Elixires eram trapaça. Ninguém podia resistir a eles. Eladamri diria tudo e sua honra seria perdida.


Ele ordenou que Greven trouxesse o elfo. Ele desamarrou Eladamri e o deitou no chão. Uma cadeira pesada foi arrastada, e o líder rebelde inconsciente foi amarrado a ela. Enquanto isso, o visitante misturava pós de vários frascos num copo.


“Segure o nariz dele. Não quero ser mordido.”


Greven inclinou a cabeça frouxa de Eladamri, segurando o nariz e puxando o queixo. O copo veio, entregue por uma mão delgado Kor. Greven sentiu o cheiro da poção, um odor acre como vinagre.


De repente, um som metálico começou alto pelo corredor.


Greven soltou o nariz de Eladamri. “Intrusos!”


“Os guardas podem cuidar disso.”


“Devo cuidar de qualquer distúrbio. Você devia vir também.”


“Por que eu?”


“As coisas estão muito incertas. É um tempo perigoso para todos nós. Se quer continuar com o que está fazendo, seria melhor vir comigo.”


“Você não quer que eu administre o elixir. Está com medo de eu ser sucedido onde você falhou?”


“O prisioneiro não vai a lugar algum. Se o alarme é falso ou a situação for facilmente resolvida, podemos retornar – nada será perdido.”


“Tempo será perdido, mas entendo seu ponto. Ordem deve ser restaurada em Rath se meu plano for bem-sucedido.”


“O que pretende?”


“Pegar o que é meu. Nada mais.”

 

* * * * *

 

Teynel e seu time desceram a Cidadela em busca do ancoradouro da nau voadora. Nenhum deles conhecia o lugar e, quanto mais desciam mais se perdiam naquele labirinto de rochafluente. Não obtiveram sucesso enquanto os rebeldes atravessavam túneis tão baixos que não podiam ficar de pé. O ar começou a ficar extremamente quente e úmido, ficando mais e mais quente enquanto desciam.


Embora não tivessem encontrado ninguém durante um tempo, isso não significava que os túneis estavam desabitados. Eles avistaram criaturas estranhas se movendo na meia escuridão. Uma criatura com corpo em forma de ovo, do tamanho de um balde de água. Ele andou em duas longas pernas dobradas para trás no joelho. Coberta em pele nua e manchada, não tinha cabeça discernível, cheirava a carne podre. Ela não prestou atenção aos rebeldes, que se espremeram contra a parede deixando a coisa sem cabeça passar.

 

 

Eles chegaram a um estreito poço vertical cujo topo estava perdido na escuridão e o fundo brilhava com uma luz vermelha pulsante. Um som apressado, como águas profundas derramando-se sobre um precipício, explodiu no poço. Garnan se ofereceu para averiguar a situação. As paredes do poço eram cheias de armações, assim ele não teve problemas para descer. Depois de alguns instantes, ele gritou:


“Teynel! Você tem que ver isso!”

 

Todos queriam descer, Teynel ordenou que os outros ficassem enquanto ele descia pelas paredes. Havia uma plataforma feita de tubos polidos no fundo do poço. Os pés de Teynel começaram a escorregar assim que tocaram a borda escorregadia, mas com o ajuda de Garnan, Teynel conseguiu. Teynel agarrou o trilho ao redor da plataforma. Eles estavam suspensos a centenas de metros no ar no ponto mais baixo de toda a Cidadela. Toda a estrutura estava acima deles, e abaixo, claramente visível através do tubo de ripas, estava o chão da cratera e o poço de lava.


“Pelos deuses!”

 

 

Uma coluna de rocha derretida, a trinta metros de largura, erguia-se da abertura em forma de funil abaixo da Cidadela. O vapor do líquido vermelho e quente trovoava dentro dos tubos como centenas de quedas d’água. O calor era tão intenso que Teynel teve que cobrir o rosto com as mãos. De repente, Garnan apontou para um lugar, uma ampla plataforma servida por guindastes que fora construída servindo de doca para a nau voadora, porém o Predador não estava lá.


“Ou Lin-Sivvi o encontrou ou o Predador partiu da cratera. Vamos voltar! Devemos nos encontrar com os outros!"


Garnan saltou e se segurou num dos canos Ele puxou-se pelos braços até conseguir colocar os pés na parte inferior. Teynel observou e repetiu o mesmo salto. A plataforma estremeceu embaixo dele. Como a superfície polida era quase sem fricção, Teynel derrapou em um pequeno círculo. Ele agarrou o corrimão e percebeu, para seu horror, que a plataforma estava circulando em direção ao fluxo de lava trovejante.


“Garnan! Garnan, depressa!”


O lugar onde seu colega saltara havia se tornado em forma de crescente. Esta não era uma mera plataforma de observação - era parte das imensas obras de rochafluente! O eixo era usado para transportar lava derretida para a fábrica acima.


Teynel saltou. Ele agarrou uma armação com uma mão, mas não fora o suficiente. Um a um, seus dedos começaram a se soltar e ele caiu no piso brilhante do tubo.


“Teynel!”

 
Garnan, pendurado pelos pés e uma mão, acenou para que seu colega tentasse novamente. O progresso da plataforma rotativa logo imergiria Teynel em rocha derretida. Seus dedos se encontraram, mas suas palmas suadas deslizavam uma sobre a outra. Garnan empurrou o ombro para baixo e passou os dedos ao redor da manga de Teynel. Por um segundo agonizante, Teynel ficou pendurado pelo braço de seu amigo. A abertura do eixo ainda estava diminuindo e Teynel segurava o braço com ambas as mãos.


De cara amarelada, o jovem Dal arremessou o amigo para cima. Teynel tinha acabado de passar os pés enquanto a abertura se fechava. Teynel e Garnan lutaram por respirar no poço frio. Quando estavam prontos eles subiram pelo túnel de interseção, porém quando chegaram Kireno, Vellian e Shamus não estavam mais lá.


Eles chamaram bem baixo e após não terem resposta, ouviram um som estranho. Um som de algo sendo rasgado estava vindo pelo corredor. O túnel se curvou para a esquerda e subiu. Na curva, Teynel avistou alguma coisa deitada no chão.


Parte do objeto estava se movendo. Enquanto se aproximavam lentamente, Teynel viu um par de botas se mexendo no chão. Os restos das roupas sujas do exército de Rath cobriam o restante.


Era um corpo – um dos seus homens, mas ele não conseguia dizer qual. Ao lado do corpo, de pé, estava uma daquelas coisas sem cabeça. Ela não tinha cabeça, mas tinha uma boca cheia de dentes tortos semelhantes a agulhas.

 

 

Teynel correu em direção a coisa e a chutou com toda força. Ela gritou e saiu rapidamente. Sinistramente, houve gritos de resposta da escuridão. Muitos deles. Eles não ficaram por lá para descobrir mais quantos havia daquelas bestas.


A misteriosa morte do companheiro e o desaparecimento dos outros dois fez com que apertassem o passo. Quando Garnan e Teynel surgiram num corredor iluminado no palácio inferior, eles pararam para recuperar o fôlego.


“Você acha que foram comidos ou capturados?”


“Nem um, nem outro. Acredito que Kireno ficou impaciente e foi se encontrar com Lin- Sivvi no encontro.”


Eles estavam dentro da câmara de convocação quando o alarme soou. Teynel soube imediatamente que um dos seus fora descoberto. Ele resistiu à tentação de correr, ele deu passagem para um grupo de guardar atravessar o salão. Crovax apareceu, espada em mãos, exigindo relatório.


“Houve um distúrbio,” disse um dos guardas.


“Que esclarecedor! Fale de uma vez!”


“Alguns soldados atacaram operários no Predador-” Teynel agarrou o braço do parceiro. Sivvi! Maldição! Ele havia dito para agir por conta própria.
 

“Soldados? Que soldados? Parece mais como rebeldes infiltrados, provavelmente tentando soltar seu líder.”
 

Ele ordenou que as tropas do exército entrassem na Cidadela. Quando o capitão da guarda protestou contra o uso de tropas regulares nos arredores do palácio, Crovax ergueu um tentáculo de rocha fluente o estrangulou ali mesmo.


“Alguma outra objeção? Ótimo. Homens, sigam-me.”


Cinquenta guardas começaram a marchar enquanto Teynel e Garnan estavam prestes e fugir.


“Vocês aí! Aonde acham que vão?”


“Retornando para nossa companhia, meu lorde.”


“Esqueçam isso. Preciso de vocês agora.”


“Não temos espadas, senhor.”


Crovax, levemente, levantou uma sobrancelha e duas hastes de rochafluente se ergueram do chão. O formato em espadas curtas idênticas, completo com punho de cruz e pomo de lua. Os dois rebeldes ficaram pasmados.


“Peguem elas, seus idiotas. Venham.”


Crovax saiu em disparada, seu manto ondulando. Teynel e Garnan embainharam as espadas e correram para alcança-los.


De uma forma ou de outra, eles encontrariam seus companheiros, mesmo que fosse junto com as tropas enviadas para acabar com eles.

Leandro Dantes ( Arconte)
Leandro conheceu o Magic em 1998 e, desde então, se apaixonou pelo Lore do jogo. Após retornar a jogar em 2008, se interessou por lendas, o que resultou por despertar a paixão pela escrita. Sempre foi mais colecionador do que jogador e sua graduação em Pedagogia pela Ufscar cooperou para que ele aprimorasse e desenvolvesse um estilo próprio. Autor de alguns contos, todos relacionados ao Magic, já traduziu o livro de Invasão e criou sua própria saga com seu personagem, conhecido como Arconte.
Redes Sociais: Facebook
Comentários
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(Quote)
- 01/06/2019 11:51
Muito bom!
(Quote)
- 20/05/2019 13:26

Thanks dude

(Quote)
- 18/05/2019 10:05
Show de bola Mano!!!
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