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NÊMESIS - CAPÍTULO 16
ABANDONADO
14/06/2019 18:05 - 2.437 visualizações - 4 comentários
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NEMESIS - CAPÍTULO 16

Ele não era estranho a dor. Ele a conhecia de várias formas, desde a mordida de uma cobra de Skyshroud ao beijo esfarrapado de uma lâmina tritã. Ele teve uma vida ativa e sofrera diversas injúrias. Havia piores formas de sofrimento do que o físico: a visão da esposa queimando nos escombros do que sobrara do lar que construíram juntos. Um leito vazio onde a filha dormiu e morreu.


Ele aprendera a matar os inimigos como vingança por essas feridas. Não ajudou, mas ele nunca se importou com o sangue deles nas mãos. O que pesava na consciência eram as mortes dos amigos e aliados que ele conduzira à guerra e morreram por sua causa. Cada uma dessas vidas perdidas era uma cicatriz para carregar, um fardo que ele sabia que cresceria mais antes que a vida lidasse com ele.


Quando ele ficou sozinho, Eladamri deixou as lágrimas rolarem pelo rosto. Ele sempre estivera consciente, mesmo durante os piores tormentos de Greven. Às vezes, a mente dele partia sozinha, deixando incerto do que estava vendo e sentindo. Ele se lembrou – pensou que se lembrou – Greven Il-Vec sentando do outro lado mesa, observando-o perplexo em seu rosto maligno.


Outro surgiu que Eladamri não conhecia. Olhos erráticos mostraram o rosto de Furah, o chefe da tribo Kor, mas Furah estava morto. Sua filha estava morta também, ainda assim alguém andava por aí com seu rosto. Esta fortaleza profana estaria cheia de fantasmas?


Lágrimas suavizaram a crosta de sangue seco que colou seu olho direito. Ele abriu bem os olhos, carvões brilhavam debilmente no braseiro de ferro a seus pés. Ele sentiu o cheiro de água num pote na mesa. Lambendo os lábios ressecados, Eladamri ansiava por um gole.


Achando que ele estava inconsciente, Greven amarrara Eladamri na cadeira pelos pulsos e tornozelos – um erro. Eladamri relaxou as mãos, dobrando os dedos para dentro para deixar os pulsos menores possíveis. Ele trabalhou a mão esquerda para trás contra as cordas. A corda preta era feita do mesmo cabo mimético usado no Predador e era, portanto, uma forma de nanomaquinas como a rochafluente. Quando ele forçou contra a corda, ela se apertou mais ao redor de seu pulso. Ele parou e o cabo parou de encolher. Eladamri percebeu que o erro de Greven não era tão grave. Se ele continuasse a lutar contra a corda, uma hora ela cortaria suas mãos.


Ele se inclinou para frente e conseguiu levantar as pernas traseiras da cadeira do chão. Embora ela fosse pesada, uma vez que ele começara a se balançar, foi fácil derrubá-la. Ela caiu com força no lado direito, derrubando o braseiro.

 

Eladamri raspou um carvão incandescente perto dos dedos arruinados. O que eram uma bolha ou duas para quem já estava com os dedos quebrados?


Ele pressionou a corda contra o carvão. Uma punhalada de calor passou através da ligação ao seu pulso. Nada mais do que isso. Precisaria de mais calor. Ele levantou a cadeira pesada para uma pilha de ferros que estavam frios. Ele não conseguia lutar com os ferros pesados em suas mãos apenas com as pontas dos dedos.


E agora?


Ele conseguia ver o vaso de cerâmica em cima da mesa. O que ele mais queria, talvez mais do que sua liberdade, era um gole de água. Eladamri bateu a cabeça contra a perna da mesa. Ele fez isso de novo e de novo até que sua visão se dissolveu numa névoa vermelha. Isto não podia continuar.


Com um toque mais leve, ele deixou a cabeça machucada encostar na perna da mesa e suspirou. O jarro, foi sacudido para a borda da mesa e tombou imediatamente no chão. Ele se quebrou todo espirrando água. Nenhuma respingou no rosto dele.


Não era seu melhor dia.


O jarro era de cerâmica vítrea e dura. Ele pegou um pedaço e usou para serrar as cordas. Por um momento, as cordas miméticas se apertaram, então começaram a desfiar. Seu coração saltou quando as cordas se soltaram dos pulsos e se contorceram no chão como um lagarto sem cabeça. Mais alguns cortes, e sua mão direita estaria solta e então seus pés.


Eladamri tentou ficar de pé, mas seus joelhos não deixaram. Ele sentou-se no chão, livre, porém muito machucado para andar.


Ele amarrou pedaços de corda e usou para prender um ferro à perna esquerda como uma tala. Usando a mesa como suporte, ele tentou ficar de pé. Ele agarrou a xícara na mesa e se preparou para beber, mas quando se aproximou dos lábios seu nariz detectou um odor acre. Veneno. Feito para ele, sem dúvidas, e aqui ele quase fez o serviço para Greven!


Seus parcos pertences estavam espalhados na mesa. A única coisa que ele pegou de volta foi a peça de madeira que tinha esculpido na última noite na floresta. Ela a examinou cuidadosamente. Estava intacta, então ele a colocou em volta do pescoço.


Eladamri encontrou outro ferro com um gancho sem fio de corte na extremidade para servir como arma. A cela estava aberta e isso o preocupou. Por que ele não estava trancado? Isso era algum tipo de armadilha bem elaborada assim Greven poderia alegar que Eladamri foi morto “tentando escapar?”


Um ruído mecânico abafado filtrou-se pelas resistentes paredes. Uma espécie de alarme. Foi por isso que Greven partira. Ele imediatamente associou isso aos seus jovens guerreiros e a missão de destruir a nau voadora. Eladamri não orou, mas desejou ardentemente pelo sucesso dos companheiros. As probabilidades estavam contra ele.


Ele mancou pelo corredor. Ninguém a vista. A forma da torre cônica significava que a passagem se estendia para fora das celas e estavam dispostas ao redor do eixo da torre como fatias de torta. Quando ele olhou para os dois lados do corredor vazio, seu instinto de guerrilha deu-lhe uma ideia. Nunca perca a chance de causar o máximo de problema para o inimigo!

 

Ele foi para a próxima porta. Estava trancada e o mecanismo de proteção possuía mandíbulas que o cercavam. Se usasse a chave errada ou tentasse mexer no dispositivo sua mão poderia ser arrancada. Ele pressionou o ouvido no painel e ouviu o arrastar de pés lá dentro. Havia uma portinhola pela qual o prisioneiro recebia refeições.


Ele abriu o portão deslizante e sussurrou, “Alo? Quem está aí? Sou amigo!”


Ao invés de um rosto ou voz, um tentáculo vermelho e carnudo apareceu e envolveu a perna de Eladamri. Uma queimadura começou onde a coisa o tocou, e a garra se apertou mais e mais. Ele sentia muito por aquela besta ou aberração que Volrath aprisionara, mas ele perderia sua perna para mostrar simpatia.

 

 

Alguns golpes bem dados com o ferro e o tentáculo se retirou.


Após passar em algumas portas, ele ouviu uma voz fina cantando ou conversando. Se agachando na portinhola ele chiou, “Você é humano?”


“Você é humano?” foi a resposta sarcástica.


“Sou um elfo de Skyshroud, um prisioneiro assim como você. Vou te soltar.”


Sem resposta. Cautelosamente, ele insertou o ferro no mecanismo da fechadura. O mecanismo mordeu a barra de ferro deixando a presa nele. Eladamri jogou todo seu peso contra a ferramenta, e com um estalo, quebrou a fechadura sem desalojar o mecanismo de proteção.

 

A porta se abriu e com ela veio o cheiro fétido devastador. Algo cinza se mexeu lá dentro e, por um momento, Eladamri pensou que tinha sido enganado por um dos monstros de Volrath. Da figura cinza surgiu uma forma humana – uma jovem magra e ruiva de estatura modesta, vestida de trapos imundos.


Ela piscou por cauda da luz.


“Você é um elfo. Pensei que meu tempo tinha chegado, e Volrath estava jogando algum jogo comigo.”


“Quem é você?”


“Meu nome é Takara, filha de Starke.”


Ele sabia o nome graças a Darsett en-Dal. Takara fora para da resistência Dal. Por que ela ainda estava viva?

 

 

“Houve uma revolução ou você é o novo chefe carcereiro?”


“Nenhum dos dois. Estou escapando. Se quiser, pode ser livre, venha.”


Embora mancando ele deu o braço para a estranha. Takara não parecia ter sido um dos convidados da cela de interrogação de Greven. Sua pele não tinha marcas, mas ela estava terrivelmente magra e fraca, provavelmente passando fome por semanas.
Ela olhou para a tala improvisada. “Você não está em forma para isto, está?”

 

“Não estou sozinho. Alguns do meu povo estão na Cidadela, mas temos que encontra-los.”


“Muito bem, isto acabou com o tédio...”


O alarme cessou. Tinha sido parte do plano de fundo por muito tempo tanto que seu encerramento foi mais ensurdecedor do que o barulho dele. No lugar dele, eles ouviram passos ecoando pelo corredor.


Eladamri colocou o dedo nos lábios. Ele tirou a tala da perna, sem ela, Eladamri quase entrou em colapso. Takara o ergueu, embora seus braços frágeis tremiam com o esforço. Eles se amontoaram no recesso raso de uma porta fechada, esperando que os corredores aparecessem. Eladamri percebeu as roupas das tropas de Rath e atacou com sua barra de ferro. Por um fio ele não acertou o nariz de Kireno.


“Irmão! Somos nós!”


Após o golpe, Eladamri se desequilibrou-se e veio ao chão, seguido por Takara que estava fraca demais. Kireno e Shamus os ajudaram a se levantar, colocando-os contra a parede.


“Quais as notícias sobre Teynel, Lin-Sivvi e o resto?”


“Tememos que Teynel e Garnan estejam mortos. Tentamos encontrar a doca menor da nau e depois nos perdemos nos túneis da Fortaleza. Teynel e Garnan foram em frente para explorar, mas fomos atacados!”


“Greven? Crovax?”


“Criaturas, monstros! Pobre Vellian colocou a mão num ninho daquelas coisas. Estas criaturas o devoraram... tivemos que correr, pois não tínhamos armas para lutar. Devíamos encontrar Lin-Sivvi e seus homens no salão onde vimos Greven e Crovax, mas o alarme começou a soar e houve guardas por todo lugar, então viemos procurar você.”


“Como é a Cidadela?”


“Caos. Ouvi dizer que estão trazendo tropas da guarnição da cidade. O lugar inteiro ficará cheio de guardas.”


“Sivvi deve ter atraído a atenção deles. Muito bem, temos que sair de vista por um tempo e esperar as coisas se acalmarem um pouco antes de tentar sair.”


“Onde iremos?”


“Greven deve retornar para terminar comigo. Não consigo decidir se devemos emboscá-lo aqui ou lutar outro dia.”


“Me perdoe Eladamri, mas você não está em forma para lutar. Vamos encontrar um canto para se esconder.”


“A sala dos mapas”, Takara interrompeu. É o próximo prédio, antes de chegar nos viveiros dos moggs. É de uso exclusivo do evincar, então ninguém vai muito lá.”


“Conhece o caminho por esse labirinto?”


“Meu pai foi o mentor de Volrath e depois seu servo. Sei alguma coisa sobre a Fortaleza.”

 

“Vamos para a sala dos mapas.”


Eladamri e Takara se ajudaram a ficar de pé. Eles se abraçaram e ela sorriu ironicamente. “Você nunca sabe o que encontrará atrás de uma porta fechada, não é?”

* * * * *

 

Quando os alarmes cessaram, Belbe estava no controle da sala da fábrica de rochafluente fazendo o terceiro ajustamento no medidor de saída. Como ela suspeitava, as unidades de monitoramento da fábrica detectaram a redução de saída comparando a produção atual com as anteriores. Durante todo o dia, a produção de rochafluente aumentou e a velocidade com que a fábrica se corrigiu a incomodou. Significava que ela deveria ser mais vigilante com sua sabotagem se o objetivo fosse prevenir a conjunção com Dominária.


Quando o alarme soou, ela cobriu todos os vestígios de sua adulteração e voltou para o palácio para descobrir o que estava acontecendo. Ela encontrou os corredores entupidos de guardas. Embora a guarnição do palácio contasse com mais de dois mil homens, ela encontrou centenas de tropas do exército regular se reunindo no pátio da fábrica. Ela abordou o capitão da Décima Companhia.


“Perdoe-me, Excelência, não sei mais do que você. Escutei alguma coisa sobre o Predador – um tumulto entre os moggs e os operários, talvez. Não sei.”


“Por que precisariam de tantas tropas para acabar com uma briga?”


“Há centenas de moggs nos viveiros, Excelência. Se eles saíssem de controle, precisaria o exército todo para acabar com isso.”


“Quem está comandando esta operação?”


O capitão para um sargento do Corpo dos Sargentos. Se eles estavam envolvidos, então Crovax estava no comando. Belbe teve uma intuição. Ela sentiu cheiro de complô. Se Crovax tivesse organizado uma ordem de emergência para encher a Cidadela com tropas, daria a ele uma vantagem imbatível na luta pelo poder. Era certo que ela oferecera a ele a coroa de evincar, mas isso foi apenas para salvar a vida de Ertai. Ela ainda tinha esperanças de que, com a ajuda de Greven, ela poderia suprimir Crovax e liderar Rath numa nova direção. Agora as coisas pareciam muito ruins, quase sem esperança.


Ela descobriu que houve um distúrbio nas docas. Ela foi para lá imediatamente e encontrou a plataforma das docas cheia de guardas mortos e o ar cheirava a pólvora. O Predador flutuava uniformemente em sua corrente, mas havia danos na casa do convés e na ponte principal. Ela avistou Crovax e Greven no meio da multidão. Greven fez reverência, Crovax não.


“Qual o problema?”


“As coisas não estão claras, Excelência. Estamos investigando os operários e os moggs que estavam a bordo, mas não estamos conseguindo uma história coerente deles. Os guardas que responderam o primeiro chamado estão todos mortos, mortos por aquilo.”


Ele indicou o arpão com doze pés de comprimento.

 

“Alguém atirou com a arma do convés sem fechar a culatra (parte de trás da arma, provavelmente a escotilha para colocar munição). A arma está mutilada e o arpão cortou mais de vinte homens de uma só vez.”


“O que os operários dizem?”


“Dizem que os moggs ficaram loucos e os atacaram.”


“E o que os moggs dizem?”


“Moggs são moggs. Aprendi a não dar muito ouvidos ao que eles dizem.”


“Diga a ela,” Crovax disse. “Diga a ela o que eles disseram.”


“Não foi provado.”


Mesmo essa leve contradição trouxe uma rápida retaliação de Crovax. O rosto de Greven se contorceu enquanto seu implante espinhal chiava.


“Já basta. Diga-me, Crovax.”


Ele fez sua vítima sofrer um pouco mais, então o soltou.


“Os moggs dizem que foram atacados por soldados – nossos soldados.”


“Por que nossos soldados atacariam o Predador?”


“Quando um coelho não é um coelho?”


“O que?”


“Quando é uma raposa.”


Crovax se ausentou para ir ao convés enquanto Greven se recuperava da dor infligida. Seus olhos ainda estavam fechados e quando ele os abriu, a luz da Fortaleza o acertou, ele deu um grito de agonia. Aquilo era necessário. Se Crovax não ouvisse seus gritos ele dobraria a punição na próxima vez.


Belbe se agachou e diminuiu a voz para falar com o gigante guerreiro.


“Poderia caminhar comigo por um momento? Tenho uma proposta que quero que escute. Venha, tenho algo importante e secreto para te dizer.”


Quando estavam sozinhos, Belbe começou.


“Chegou o tempo de falar abertamente. Crovax tem me pressionado para nomeá-lo evincar. Após muitas ameaças e violência, concordei em fazê-lo amanhã à tarde no salão de convocação.”


“Me pergunto por que demorou tanto.”


“No começo, queria que ele provasse ser digno, depois, tive medo do que ele poderia fazer com poder total. Vi o que ele fez com os reféns. Eu estava lá. Descobri que ele ganha força quando absorve a energia daqueles que estão morrendo. Não percebe? Isso fará com que as pessoas continuem morrendo?”


“Todos morremos uma hora, Excelência.”

 

“Qual o problema com você? De todos, achei que você entenderia. Ele o atormenta, zomba de você. Você não tem ambição, Greven? Se pudéssemos forjar uma aliança contra Crovax, poderíamos mudar as coisas em Rath.”


“Crovax é muito poderoso. Ele controla a rochafluente.”

 

 

“Ertai também tem influência sobre a rocha. Não tão poderoso quanto Crovax, mas o suficiente para que você e eu o atacássemos.”


Greven fingiu olhar em volta.


“Onde está Ertai?”


“Não sei. Os homens de Crovax o levaram prisioneiro.”


“Então ele é um homem morto.”


“Não! Me de sua palavra – prometa-me que se ajuntará a nós contra Crovax, e encontrarei Ertai esta noite e o libertarei.”


“Não posso.”


Belbe estava visivelmente deprimido pela rejeição de Greven.

 

“Há mais em jogo do que você saiba, Excelência. Não fazer o que pede. Minha lealdade está... comprometida.”

 

 

“Não acredito nisso. Sei que você o odeia. Será que também tem medo dele?”


Ela achou que essa provocação, como antes, o despertaria novamente, mas o guerreiro brutamontes virou-se sem dizer uma palavra.


“Não sou livre para agir, Excelência. Nunca fui. Embora eu comande exércitos e o Predador, não tenho comando sobre mim mesmo. Sinto muito.”


Sem dizer nada, Belbe o observou retornar para o navio danificado. Crovax o tinha na palma da mão e suas opções estavam diminuindo hora após hora. Ertai cativo, Greven imobilizado, até mesmo o líder rebelde Eladamri não era mais uma ameaça. Crovax estava sozinho, esperando por Belbe para colocar a coroa sobre sua cabeça.


Ela devia encontrar Ertai. Uma vez que soubesse que ele estava a salvo, ela iria até seu último recurso. Se ele não a ajudasse, então cada ser vivo em Rath estava condenado.

* * * * *

 

Kireno e Shamus, ainda vestidos como guardas da Quarta Companhia, caminhavam ousadamente no passadiço que conectava a prisão a sala dos mapas. Duas sentinelas estavam de vigia na ponte entre os prédios, um do lado do outro, se encarando. Kireno e Shamus se aproximaram em passos medidos.


“Parem!” O rebelde Vec tentou soar como um militar.


“O que é isso?”


“Somos sua rendição.”


Os rebeldes esperaram tensos. Os guardas relaxaram sua postura.


“Já estava na hora. Deveríamos ter sido liberados há duas horas!”


“Houve problemas na Cidadela. Por isso nos enviaram, a Quarta Companhia.”


“Oh, sim? Vocês falam muito, mas o que há de mais em vocês?”


“Capturamos Eladamri.”


As sentinelas deixaram o assunto para lá, guardaram as armas e marcharam de volta á Cidadela. Então um dos guardas parou.


“Como vocês pretendem ficar de guarda sem armas?”


“Uh, não nos deixaram atravessar o palácio armados.”


“O que? Num alarme geral?”


Kireno evitou o ataque de um machado e avançou antes que o guarda pudesse se recuperar. Ele acertou e o empurrou até a beira da ponte. O Vec deu um golpe extra, e o guarda caiu por cima do corrimão. Seus gritos minguaram enquanto caia, sendo abafados pelo barulho constante do feixe de energia da fábrica.


Shamus teve mais problema com seu adversário. Ele evitou a ponta da lança do guarda, mas o ataque da parte de trás da haste o pegou e o fez cair de joelhos. Isso teria sido o fim dele se Kireno não tivesse saltado nas costas do guarda, batendo no soldado com seu elmo. Eles caíram em cima de Shamus e rolaram de um lado para o outro em uma rajada de punhos e pés chutando.


Eladamri e Takara saíram do esconderijo e quando se achegaram à peleja, o guarda estava pendurado pelo corrimão da ponte. Shamus estava frio e Kireno estava sangrando pelos lábios.


“Ajudem-me, ajudem-me!” gritava o guarda.


Eladamri e Takara foram até ele.


“Por favor, me ajude.”


O elfo estendeu as mãos.


“Graças a Greven Il-Vec, não há muito o que eu possa fazer.”


“Moça, por favor, ajude!”

 

Takara olhou ao redor. Ela avistou o machado do guarda. Em sua condição enfraquecida, ela não podia pegá-lo completamente, então ela arrastou-o pela extremidade até a borda do passadiço.


“Isso. Me estenda essa haste que subirei.”


Takara nada disse, mas estendeu a haste da arma por cima da cabeça do guarda. Ele a olhou interrogativamente até que ela a soltou. A haste robusta bateu na cabeça do guarda, e ele desapareceu com um grito. Ambos caíram juntos no oblívio.


“Um desperdício de uma boa arma,” disse Kireno enquanto se ajoelhava ao lado de Shamus, e dava tapas no rosto dele para reanimá-lo.


“Isso foi frio,” disse Eladamri.


“Eu aprendi bem cedo que, se alguém fica em seu caminho, você deve removê-lo.”


Eles limparam todos os rastros na ponte e se apressaram para a sala dos mapas. A porta estava trancada, mas Takara disse que sabia como contornar o mecanismo. Ela pôs a mão dentro do dispositivo e mexeu na fechadura por dentro. Eladamri e os rebeldes esperaram para ver se a mandíbula arrancaria seu braço.


“Meu pai me ensinou isso... Espero que Volrath não tenha mudado as fechaduras desde que me jogou na prisão.”


Com um alto tinido, as portas se abriram e Takara retirou a mão, cuidadosamente, da fechadura.


O interior da sala dos mapas estava impregnado com luz verde, que dava a impressão de estar embaixo d’água. A luz vinha do cone da torre, todo envidraçado com pesadas vidraças irregulares de vidro verde-jade. A metade superior da torre do mapa foi ocupada por algum tipo de maquinaria complexa, todas as engrenagens, mecanismos de rotação e powerstones brilhantes. Takara levou Eladamri e os rebeldes até um anfiteatro. Este quarto individual tinha mais de trezentos pés de largura e apresentava duas plataformas de assento concêntricas, focadas em uma coluna central de design intrincado. Um conjunto de degraus largos descia até essa coluna e, acima dela, um pórtico segmentado se curvava acima do pilar central, como a cauda de um enorme escorpião metálico. Quando entraram na vasta e vazia câmara, seus passos soaram ocos nas paredes de vidro verde.

 

 

“Bem-vindos à Sala dos Mapas.”


“Não vejo nenhum mapa.”


“Vou mostrar a vocês.”


Ela desceu as escadarias até o anel interno de assentos. Lá havia um painel, coberto com glifos e símbolos. Takara ficou na frente do altar arcano, posicionou as mãos, então, como se uma música instrumental estivesse tocando, seus dedos se mexeram pelos controles, tocando os símbolos numa sequência complexa.


A ampla coluna começou a descer, coberta com engrenagens de bronze e feixes de tubos, retraídos pesadamente para o teto. Abas se dobraram para fora e pararam. Quando a coluna estava a cerca de nove metros de altura, ela travou. O ar entre a coluna e a base serrilhada brilhou. Um redemoinho de névoa cinza e verde se formou, girando em ambos os eixos. Ele escureceu, ficou opaco e assumiu a forma de um globo giratório oval. Em segundos, o globo se assentou em como um ovo cinzento e manchado, girando lentamente em seu eixo vertical.


“Rath.”


“Isto é Rath?” Eladamri olhava fascinado. “Por anos, ouvi debates filosóficos de sacerdotes sobre a forma do mundo. A maioria deles ensinava que o mundo era plano, cercado pelo vazio, como uma pedra flutuando num feixe. Alguns filósofos afirmavam que era redondo, como um ovo.”


“Em qual você acreditava?”

 

“Sempre considerei irrelevante. Uma vez que ninguém podia ver o mundo inteiro, que diferença fazia qual era sua forma?”


“É com este conhecimento que o Evincar pode localizar e acabar com seus inimigos.”


“Mostre-me a Floresta de Skyshroud.”


Ela tocou os controles e, rapidamente, o globo cinzento deu lugar a uma esfera achatada. Aquela era Skyshroud vista de uma altura de 100.000 pés. Então tocou novamente, e mostrou da altura de 10.000 pés, a vista do Predador. Eladamri olhou e havia textura na imagem, composta de árvores mais altas e mais curtas, mas a copa era tão característica quanto o mar.


“Agora entendo porque Volrath e Greven tiveram tanto problema em nos pegar. Mesmo com este grande artefato, Skyshroud ainda é nosso escudo e santuário.”


“Aqui está algo que nenhum de vocês já viu.”


Ela tocou o painel habilmente, e a vista hemisférica de Rath foi substituída por um globo brilhante e colorido.


Comprado a Rath, que era feito de sombras cinzas, verdes e marrons, este mundo era radiante de cores – oceanos azuis, desertos amarelos e vermelhos, montanhas roxas. Nuvens enchiam a atmosferas, suavizando o contraste entre as cores mais nítidas. Parecia uma joia de uma imperatriz.


“O que é isso, Takara?”


“Dominária.”


Ele conhecia o nome. O Bons Ventos veio de lá, com sua tripulação heterogênea de heróis – assim como Crovax. Dominária. O nome tropeçou em sua língua tão agradavelmente quanto a esfera do arco-íris encantava seus olhos.


“Conte-me sobre Dominária.”


“É o lar original da nossa espécie, sua e minha. Os ancestrais de cada alma em Rath vieram de lá. Alguns sábios antigos dizem que até mesmo os soberanos vieram de lá, há muito tempo. Há uma profecia que diz que o mundo diabólico um dia vai despedaçar as nuvens e chover destruição no Mundo Irradiante. Acredito que os videntes sabiam o que nós estamos apenas começando a perceber – o propósito de Rath é destruir Dominária.”


“Como pode ser isso? Eles são mundos separados. Conheço pessoas e máquinas que podem voar entre eles, mas como pode Rath destruir outro mundo?”


Cansada, Takara se apoiou sobre o painel.


“Nunca fui educada sobre tais assuntos. O que posso dizer a vocês é que, Rath é uma sombra, criado pelos soberanos de Phyrexia como um portal para Dominária. Assim mortais adormecidos são a ponte para pesadelos, assim Rath é a ponte de pesadelos para Dominária. Por centenas de anos, Rath tem crescido, se aproximando do seu velho mundo natal. A Fortaleza é o ponto chave, o foco do grande design dos soberanos. Nesta fortaleza sombria é onde os pesadelos ganham vida, a ponta da espada contra a garganta de Dominária.”


“Que os deuses nos preservem!”

 

“Você disse que seu pai serviu Volrath – onde ele está agora?”


“Se foi, partiu. Não sei para onde.”


“Por que Volrath não te matou? Ele sabia do seu envolvimento com a rebelião?”


Ela riu secamente.


“Volrath não se importava com meu trabalho com a resistência Dal. Ele me trancou para ter certeza que meu pai não o traísse-”


Os olhos de Takara rolaram para trás. Kireno saltou para o lado dela e a pegou em seus braços. Sem suas mãos sobre os controles, o mapa se desligou. A esfera dupla, Rath-Dominária, rapidamente perdeu cor e definição, finalmente piscando como uma bolha de sabão e desaparecendo.

Leandro Dantes ( Arconte)
Leandro conheceu o Magic em 1998 e, desde então, se apaixonou pelo Lore do jogo. Após retornar a jogar em 2008, se interessou por lendas, o que resultou por despertar a paixão pela escrita. Sempre foi mais colecionador do que jogador e sua graduação em Pedagogia pela Ufscar cooperou para que ele aprimorasse e desenvolvesse um estilo próprio. Autor de alguns contos, todos relacionados ao Magic, já traduziu o livro de Invasão e criou sua própria saga com seu personagem, conhecido como Arconte.
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Comentários
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(Quote)
- 27/06/2019 11:38

thanks dude!

(Quote)
- 26/06/2019 17:23
Grande Trabalho!
(Quote)
- 16/06/2019 19:09

Então Bruno, fica bem inviável reduzir o volume do artigo. Cada artigo é, geralmente, o resumo de 1 capítulo do livro. Algumas exceções eu consegui resumir 2 num artigo só. Como são mensais, se eu diminuísse, levaria quase 2 anos para terminar o livro. Eu também sou um pouco como você, mas não tenho para onde fugir rsrs

(Quote)
- 14/06/2019 22:09
A história é incrível, muito bem escrito ^^...
Creio que o ideal seria lançar artigos com a lore em partes, é muita (pra mim que não leio muito) leitura e bate aquele medo quando Vc vê todo o conteúdo xD
...Sempre bom conhecer mais da história.
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