NÊMESIS - CAPÍTULO 18
SOBREVIVÊNCIA
06/09/2019 10:05 - 2.054 visualizações - 2 comentários

O salão estava cheio com dignitários, funcionários da corte e preguiçosos. O conjunto de bandeiras ainda estava no mesmo lugar, mas a demanda por espaço era tamanha que empurraram as bandeiras para a parede.


Belbe estava de pé, no estrado ao lado do trono, observando as pessoas chegarem. Ela não conseguiu encontrar Ertai pela manhã e um sentimento ruim a possuía. A única coisa que ela pôde pensar foi em esconder o descarregador de plasma atrás do vago trono. Uma nova powerstone brilhava dentro dele.


Passou-se uma hora do meio-dia e por detrás das portas surgiram homens marchando como se estivessem numa parada. Os espectadores deram passagem para a coluna de homens com armaduras reluzentes e mantos brancos. Duzentos soldados fortes, era o Corpo dos Sargentos. De acordo com a tradição, suas bainhas estavam vazias, mas Belbe sabia que os soldados mais fortes de Rath não precisavam disso para intimidar a oposição.


Os sargentos estavam sendo liderados por Nasser que parou a coluna ao pé do trono. Nenhuma ordem fora dita, mas as duas fileiras de homens se viraram, uma para esquerda e outra para direita. A assembleia se encolheu a partir da fileira de sargentos, que assim formaram uma linha brilhante através da multidão.


Nasser se curvou para Belbe.


“Excelência, meu senhor, Crovax está vindo.”


Uma figura enorme veio pela antecâmara. Ela reconheceu os ombros largos de Greven Il-Vec. Da entrada, ele se curvou para ela e encontrou um lugar pela multidão, perto da parede, do lado direito de Belbe.


Alguém mais se aproximava, alguém menor desta vez – muito pequeno para ser Crovax. Era o Kor, Furah, vestido num couro cinza. Ele tomou seu lugar ao lado de Greven e não tirou seus olhos da jovem emissária.


Então, ela o viu caminhando confiantemente pelo corredor central em direção à antecâmara. Ele estava usando seu conjunto branco novamente, aquele que Belbe sempre associaria ao massacre dos reféns.


Seu reconhecimento deve ter refletido no rosto dela, pois todo o salão caiu em silêncio muito antes de Crovax alcançar a câmara. Suas pisadas eram barulhentas. Belbe lambeu seus lábios tentando engolir.


Quando Crovax alcançou o local, Nasser ergueu seu pé direito e bateu com força.

 

Aço e pedra ressoaram juntos enquanto ele berrava, “Lorde Crovax!”


“Crovax!” gritaram os sargentos.


Com a habilidade de um ator, Crovax esperou na porta até que os homens parassem de bradar. Então, num silêncio absoluto, ele subiu o corredor. Greven mudou seu olhar para Crovax, mas Belbe percebeu que Furah ainda a estava observando. Crovax parou aos pés do trono.


“Sua Excelência me convocou?”


Ela assentiu lentamente. Crovax se virou para a multidão.


“Povo de Rath, eu, a emissária dos soberanos, a Lente de Abcal-dro, a representante escolhida pelo Escondido, saúda vocês.”


“Todo o poder ao Escondido!” Exclamou Crovax.


“Todo o poder ao Escondido,” respondeu a multidão.


“Desde que cheguei aqui, foi minha missão encontrar o novo governador de Rath. Fui incumbida por nossos mestres de colocar a coroa na cabeça do candidato mais forte, para assegurar que o governo de Rath fosse dado ao candidato mais poderoso, mais inteligente e mais leal servo do Escondido.”


Belbe abaixou a mão atrás do trono, sentindo a ponta do descarregador de plasma. Ela encontrou a arma, mas antes que pudesse finalizar sua declaração ritual ou pegasse a arma, uma pequena perturbação surgiu na parte de trás do corredor.


Ela se afastou do trono e, um pequeno objeto reluzente, do tamanho de uma maçã, voava na sala. Ninguém tentou tocá-lo, exceto Crovax que criou pinças de rochafluente do piso, mas o objeto conseguiu esquivar facilmente. Os únicos pegos foram os infelizes cortesões que estavam perto do centro da multidão.


O objeto dançou pelo corredor, passou por cima da cabeça de Crovax e parou em frente a Belbe, flutuando. Ela esticou a mão, encantada pela esfera. Pequenas fagulhas percorreram pela sua mão e ela sentiu um desejo de pegar aquilo e guarda-lo para sempre.


A coisa disparou e Belbe correu atrás dela. Crovax agarrou o braço de Belbe quando ela passou.


“Onde pensa que está indo?”


“Eu tenho que ter...”


“E a cerimônia?”


“Voltarei – eu vou – assim que pegar aquela coisa.”


“Não pode sair até que cumpra seu dever! Diga as palavras sua pequena estúp-” 
 

Greven interrompeu.


“Ela não consegue dizer nada agora, meu senhor. Ela está sob compulsão mágica.”


“O que? Quem ousa -?”


Soltando Belbe, ele falou no ouvido de Nasser. Crovax subiu as escadas do trono e sentou-se, cruzando as pernas.

 

“Povo de Rath! Haverá um pequeno atraso na cerimônia. Lorde Crovax pediu para que ninguém deixasse o salão até que a emissária retorne.”


Para garantir isso, os sargentos fecharam as portas para impedir que as pessoas saíssem. Belbe corria, perseguindo a esfera brilhante enquanto Nasser, falava apressadamente com Crovax, e então correu atrás dela.

 

* * * * *

 

A cavernosa Sala dos Mapas era a cena de uma reunião sombria. Sivvi deu as melancólicas notícias a Eladamri sobre a falha em destruir o Predador e que metade das suas forças se foram, incluindo Teynel. Em contrapartida, Eladamri sobrevivera e Takara se ajuntara ao grupo.


Após comer da porção deles, Takara recuperou rapidamente as forças, desejando compartilhar seus conhecimentos acerca da Fortaleza. Medd, que conhecia um pouco das artes da cura, cuidou dos ferimentos de Eladamri. O braço dele estava quebrado, então ele fez talas e amarrou o braço prendendo-o com tipoias. Seu joelho, embora muito machucado, não parecia quebrado.


Sivvi descreveu a morte de Teynel para Eladamri.


“O homem na câmara de tortura era igualzinho a você, Eladamri. Somente quando ele começou a mudar é que percebemos a diferença.”


“Você disse que ele se transformou em Greven?” perguntou Takara pensativa.


“Sim. Eu vi Greven Il-Vec quando ele chegou e, definitivamente, era ele.”


Eladamri estudou Takara cuidadosamente.


“O que isso significa? Que Greven é um metamorfo?”


“Não, a não ser que ele tenha adquirido esse talento desde que eu fora presa.”


“Então quem matou Teynel?”


“Há a possibilidade de...”


“Esqueçam isso! Disse Garnan. “Temos que sair daqui!”


“Concordo,” disse Eladamri. “Takara, qual o melhor caminho?”


“O que? Sair? Temos que ir pela Cidadela.”


“Não podemos continuar nessa direção?”


“Essa direção leva ao viveiro de moggs. Um labirinto de túneis, poços e ninho de moggs, infestado com milhares de criaturas feias e com terrível temperamento. Não andaríamos cem metros antes de sermos atacados, perdidos ou devorados.”


A sala dos mapas ficou quieta.


“Temos que partir disfarçados e silenciosos, então é natural que sigamos o mesmo caminho,” disse Eladamri.


“Nossos disfarces estão esfarrapados.”

 

“Vamos muda-los, então. Se estão procurando por um elfo e cinco soldados, se tornaremos em outra coisa.”


“Meu rosto é conhecido,” disse Takara.


“Você poderia se tornar um homem,” sugeriu Sivvi.


“Eu não acho que eu poderia levar isso tão bem quanto você, minha querida.”


Sivvi ficou vermelha e estava prestes a proferir uma resposta afiada, mas Eladamri a cortou.


“Nossa força está em permanecer juntos e andar tão quietos quanto possamos. Nunca corri de uma luta em minha vida, mas há alguns eventos que um sábio guerreiro não deve desafiar. Sete de nós contra a Fortaleza não é uma batalha, mas uma execução prolongada.”


Eles fizeram o que podiam para mudar a aparência. Trocando vestimentas, polindo armaduras e elmos. Medd envolveu a cabeça de Eladamri em ataduras improvisadas para obscurecer suas características élficas. Takara observou isso impressionada.


“Vocês deviam ser atores. Parecem com uma companhia de bardos.”


Sivvi alcançou a faca de Garnan e a puxou. Ela avançou em direção à Takara, segurando a lâmina de forma ameaçadora.


“Mande-a parar Eladamri, eu sou seu guia, se lembra?”


“Lin-Sivvi-”


Sivvi balançou a faca em um arco largo. Takara tentou bloquear segurando a faca da mão de Sivvi. A mulher Vec era muito forte e Takara teve que usar ambas as mãos para segurar a faca. A mão livre de Sivvi disparou e segurou o longo rabo de cavalo vermelho de Takara girando-o ao redor e puxando-o bruscamente. Ela cortou o cabelo de Takara bem onde estava amarrado.
 

 

Ela jogou o tufo de cabelo no chão e devolveu a faca para Garnan. Takara se ajoelhou ao lado de suas mechas.


“Por que fez isso?”


“Você precisava mudar sua aparência também. Sem esse cabelo e um pouco de lama no rosto, você pode ser uma faxineira.”


“Já basta! Não vou tolerar essa picuinha!” gritou Eladamri.


Takara foi até Medd e, sem falar, pediu a faca dele. Sivvi deu um passo para trás e colocou a mão no totem-vec. Medd não pretendia entregar a faca, então Takara a tomou. Sivvi virou a arma e preparou para lança-la, mas Takara não pretendia atacar. Ela usou a faca para cortar mais do próprio cabelo.


“Seu problema, é que você não vai longe o suficiente.”


Rindo, Sivvi recolheu o totem. “Tentarei me lembrar disso.”


De cinco soldados, um elfo e uma mulher magricela, agora eram seis soldados razoavelmente arrumados e uma mulher magricela com cabelo cortado. Eles limparam a sala para evitar deixar vestígios e deixaram a torre pela ponte superior para evitar o gellerac que ainda estava solto.


Não havia sentinelas na ponte, então eles se apressaram.


“Não gosto disso,” declarou Sivvi.

 

“Eles não esperam intrusos entre a Cidadela e o viveiro dos moggs. Ninguém é tão louco.”


“Ninguém a não ser a gente.”


Lin-Sivvi caminhava ao lado de Eladamri.


“Não sei se gosto ou odeio essa mulher.”


“Até que estejamos livres desse lugar, não dê suas costas a ela.”

 

* * * * *

 

Apenas alguns metros para ir.


Ertai mal podia ver, suas pálpebras estavam tão inchadas, mas com seu olho da mente mágico ele podia ver o cubo agora estendido sobre a borda do cone do forno. Em vinte minutos, seria o fim. Sua última esperança, o cão de caça, aparentemente falhara. Belbe não veio.


Encarando a morte, ele teve um pensamento estranho de que, literalmente, ele estaria contribuindo para a composição de Rath. Todos os corpos retornavam ao solo, mas o dele seria desintegrado na fornalha e seria lançado na matriz de rochafluente. Seus componentes se misturariam com a substância de Rath, através da fábrica, e seriam bombeados para a superfície junto com bilhões de toneladas de rochafluente.


Haveria alguma parte de Rath que seria Ertai? Ele se perguntou se sua consciência sobreviveria. Se sim, ele esperava que um dia Crovax tropeçasse nele.


Ertai.


Ele se lembrou de um livro que lera na biblioteca real sobre os poços da morte de Rath.
 

 

Os evincares antigos usaram o resíduo de alcatrão preto que sobrou da fabricação de rochafluente para encher as lacunas na caverna da Fortaleza. Como era venenoso e corrosivo, alguns evincares lançavam prisioneiros indesejados naquela lama. Como resultado, o livro dizia, os fossos da morte desenvolveram uma senciência coletiva, a fundição das almas daqueles que morreram lá.


“Ertai!”


Era uma voz real que chamava seu nome. Ele forçou para abrir seu olho.


“Belbe!”


O cão de caça funcionou afinal! Ela parecia esplêndida na sua armadura negra Phyrexiana. Ela estava rasgando o cubo com as mãos, mas a superfície estava muito dura e suave.


“O tubo, quebre o tubo.”


Ela saltou e encontrou o tubo de alimentação. Ela facilmente o quebrou. Semilíquido de rochafluente se espalhou pela plataforma. Esferas de prata minúsculas dançavam em torno de seus pés. Ela ouviu pés batendo na escada vindo de cima do cone da fornalha. Um homem numa armadura reluzente – Nasser. A estreita saliência entre ela e a escada estava salpicada de glóbulos giratórios de rochafluente, que ainda não se solidificaram. Ela imaginou que a energia radiante estava mantendo-os líquido mais do que o normal.

 

“Excelência! Fique onde está! Estou aqui para levá-la de volta à coroação.


“Retornarei assim que Ertai estiver salvo!”


“Minhas ordens são para leva-la imediatamente. Deixe o garoto.”


“Não!”


Ele sacou sua espada.


“Você deve. É a vontade de Crovax.”


Belbe deslizou os pés para evitar de pisar nos glóbulos de rochafluente. Ela assumiu uma posição de luta.


“Você não pode me forçar!”


Nasser viu as gotículas de rochafluente e entendeu o perigo. Ele imitou Belbe, deslizando o pé. O sargento atacou com a ponta da espada, porém Belbe afastou a lâmina da lâmina com as mãos nuas. Belbe correu para o lado e deu um chute na cintura de Nasser. Embora ele fosse um homem forte, o golpe o deixou sem fôlego.


Ele guardou sua espada e desferiu um golpe. Belbe bloqueou o soco, mas o outro braço a acertou na bochecha. Ela cambaleou para trás, deslizando na poça prateada de rochafluente e quase caindo na fornalha se não fosse pelo cubo atrás dela. Ela de um salto de três pés no ar, impulsionada pela força dos dedos das mãos. Ela girou, usando a força centrífuga para transformar seus pés em armas letais. Seu pé esquerdo cortou a ponta do nariz de Nasser. A direita dela encontrou o queixo dele, que se despedaçou sob o impacto. Suas mãos voaram e ele cambaleou para longe. O chão estava lubrificado pela rochafluente ele caiu de bruços na plataforma e, com um grito, ele caiu dentro da fornalha.


Belbe quase teve o mesmo destino de Nasser, mas como ela estava na plataforma, então conseguiu segurar nas bordas com as mãos e os pés, evitando aquele destino.


“Ertai!”


“Você venceu. Consegue me tirar daqui?”


“Vou tentar.”


Ela se agachou ao lado do cubo e limpou a plataforma, depois colocou o ombro contra o cubo e empurrou-o para trás da borda. Era extremamente pesado, mas ela o empurrou de volta o suficiente para que não tombasse facilmente sobre a borda. Belbe desceu os degraus até a cúpula de controle. Havia todo tipo de implementos lá, e ela encontrou um armário de ferramentas pesadas destinadas a lidar com derramamentos acidentais ou problemas de acreção. Belbe pegou um machado, uma cunha e uma marreta com cabeças de corte especiais. Ela colocou-os debaixo do braço e subiu correndo as escadas até Ertai.


Belbe largou o martelo e a cunha e atacou o cubo com o machado. Usando as duas mãos, ela balançou o machado pesado em um arco largo por trás de sua cabeça. Atingiu o cubo com um estrondo alto, cortando uma polegada profunda na superfície. Belbe girou novamente e, sem perceber, soltou um grito rouco e irritado. O cubo desviou ligeiramente do golpe. Ela bateu de novo e de novo. Após oito terríveis sucessos, o machado caiu de suas mãos.

 

Seu ombro estava deslocado. Estremecendo de dor, ela subiu no cubo. Ela tentaria retirar Ertai puxando para fora, graças ao espaço que ele conseguiu abrir com sua magia, logo quando ficou preso, mas seus ombros ardiam e seu sistema nervosa dizia que ela devia parar.


“Precisa de ajuda?”


Crovax tinha se teleportado da sala de coroação até a fornalha. Ele flutuava num globo de energia no topo da fornalha.


“Não me provoque, Crovax! Eu dispensei seu homem e posso me livrar de você!”


“Ameaças, Excelência? E eu vim aqui para oferecer ajuda.”


“Solte Ertai.”


“Eu vou, com uma condição.”


“Sem condições! Solte-o!”


Crovax cruzou os braços. “Você sabe que posso mandar o cubo espremê-lo daqui, ou posso jogá-lo na fornalha.”


“Tudo bem, diga suas condições.”


“Vou dissolver o cubo e deixar o garoto aqui, se você retornar comigo para a cerimônia e fazer o que você prometeu.”


Era muito simples.


“Isso é tudo?”


“Só isso. Claro, se o garoto sobreviver ou não a exposição do feixe de energia é algo que não fora da minha alçada.”


“Vou leva-lo com a gente!”


“Não. Você deve deixa-lo aqui. Essa é minha condição. Diga sim agora, ou a oferta será retirada.”


Ela se virou para ele e ficou satisfeita em vê-lo recuar.


“Por que você precisa tanto de mim? Você tem o poder para governar Rath. Por que está tão preocupado comigo em te proclamar evincar?”


“Pergunta estúpida. Você é a emissária dos soberanos. O que eu sou eu devo a eles e preciso da aprovação deles. Posso governar Rath do jeito que estou agora, há facções na Fortaleza que não me reconhecerão como evincar sem sua proclamação.”


“O tempo é curto, Excelência. Nossa conjunção com Dominária está a alguns dias de acontecer. Não tenho tempo para suprimir rebeldes, alcançar suporte da população local e se preparar para a invasão de Dominária ao mesmo tempo. Seu anúncio de que sou o verdadeiro evincar me poupará desse esforço. Agora venha, não há mais tempo para brincadeiras.”


“Solte Ertai!”


Crovax acenou e o cubo começou a derreter como manteiga na frigideira. Em instantes, os ombros de Ertai surgiram e ela o beijou na testa.

 

“Voltarei por você.”


Sua cabeça pendeu para o ombro dela. Ertai sussurrou em seu ouvido: “Vamos usar seu portal para escapar.”


“Isso talvez não seja possível.”


“Nós devemos.”


Braços fortes a envolveram. Crovax colocou um braço na sua cintura e a segurou com força. Com seus braços machucados Belbe não lutou.


“Eu te odeio, Crovax.”


“Ótimo. Um governante forte deve ser odiado e temido. Agora que consegui um, vejamos o que posso fazer acerca do outro.”


Antes que Belbe respondesse, ele se teleportou. Tudo se apagou num flash branco e feroz - visão, audição, todos os seus sentidos. Até mesmo o ódio de Belbe se extinguiu durante a viagem.

 

* * * * *

 

Os rebeldes entraram facilmente na Cidadela, mas logo se depararam com um contingente de soldados. Takara saiu da posição de líder e caminhou ao lado de Eladamri.


“O que vai fazer?”


“Blefar. O que mais podemos fazer?


Ele sussurrou para os outros.


“Sou seu capitão – nada digam, apenas me sigam.”


Um peitoral de caixas havia sido erguido na junção circular e pelo menos cem soldados circulavam atrás da barreira. Na aproximação dos rebeldes, o comandante do cordão de isolamento saiu e ordenou que parassem.


“Se identifiquem!”


“Fomos chamados para a prisão há poucas horas. Alguma coisa sobre uma fuga. Pegamos essa aqui caminhando por aí.” Ele pegou Takara com força pelo braço e a trouxe para frente. “Algumas criaturas de Lorde Volrath se soltaram também, então tivemos que limpar tudo.”


“Há rebeldes por aí, disfarçados em guardas reais. Viu alguma coisa suspeita?”


“Nem uma alma. Houve algum problema no viveiro dos moggs. Fomos até a Sala dos Mapas e ouvimos uma agitação lá.”


O comandante riu furiosamente.


“Se os malditos rebeldes para a terra dos moggs, então estão acabados!”


Ele apoiou um pedaço de pergaminho no joelho e fez algumas anotações usando um bastão de carvão.

 

“Qual o seu nome, soldado?”


“Drannik, Capitão Drannik.”


O comandante, que era apenas um tenente, se endureceu e deu uma saudação.


“Desculpe, senhor! Não reconheci seu posto!”


“É compreensível. Se acabou, tenente, temos que levar essa prisioneira para Lorde Greven.”


“Deixem passar!”


Os rebeldes cruzaram o entroncamento do corredor principal. Caixas usadas para criar o baluarte do outro lado foram arrancadas para eles.


“Um momento. Para meu relatório, capitão Drannik – qual é a sua companhia?”


Garnam mostrou quatro dedos e Eladamri balançou a cabeça. Eles disseram que eram da Quarta Companhia desde o começo e os soldados de Rath acreditaram nesse truque.


“Somos a Décima Companhia.”


Os soldados que derrubaram a barreira para eles pararam de repente. O bastão de carvão do tenente estalou e caiu no chão. Sua mão borrada foi para o cabo da espada.


“Nós somos a Décima Companhia... nunca vi você antes. São os rebeldes! Peguem eles!”


Os rebeldes pegaram suas armas. O caminho estava livre, mas centenas de soldados os cercavam. Sivvi defendeu uma espada com sua lâmina roubada. O totem-vec estava escondido atrás de seu peito, e ela precisou de alguns segundos para tirá-lo. Medd se arremessou na frente dela para afastar qualquer novo ataque.


Assim que Sivvi conseguiu pegar seu totem-vec ela derrubou três soldados, abrindo caminho para fugirem. Takara puxou Eladamri pelo braço escapando pelo caminho livro, enquanto isso, os rebeldes fugiam lentamente. O totem-vec rodopiava impedindo que os soldados se aproximassem. Quando algum soldado ousava mais, o totem o pegava pela garganta, perna ou rosto.

 

 

Sivvi cravou sua arma numa caixa e a puxou, tentando criar uma barricada, mas sua lâmina ficou presa. Os soldados se aproximavam. Ela olhou por cima do ombro e viu que seus amigos estavam quase fora do alcance de vista. Sacando sua espada, quatro soldados vieram atrás dela. Ela aparou o primeiro, esquivou do segundo, correu pelo terceiro e recebeu o golpe do quarto direto no peito. Felizmente, o golpe deslizou na couraça e ficou preso no cinto, perfurando seu lado logo acima do osso esquerdo do quadril.


Mais soldados surgiram pela barricada. Ela pretendia derrubar mais alguns antes de ser levada, mas a espada caiu da sua mão e um cabo de ferro a acertou na cabeça, derrubando-a.


Os rebeldes correram e despistaram os soldados. Foi nesse momento que perceberam que Sivvi não se encontraria com eles.


“Devemos voltar.”


“Não! Você também será pego.”


“Mas Sivvi-”


“Ela já está morta.”


“Ela ficou para que fugíssemos.”


“Foi escolha dela. Devemos honrar seu sacrifício ficando juntos.”

 

“Foi minha culpa. Pensei que estava sendo esperto ao mudar o regimento que éramos. Não fazia ideia que estávamos na Décima Companhia,” disse Eladamri.


Com o coração pesado, os quatro rebeldes partiram, subindo a rampa circular para a área do palácio. As chances deles eram poucos ou quase nenhuma, na verdade, Takara estava impressionada por terem conseguido chegar tão longe. Alguma coisa devia estar acontecendo na Fortaleza que estava tirando a atenção dos guardas.


Acima e à frente, um choque de aço mostrava que os rebeldes tinham encontrado outra patrulha hostil. Eladamri correu até a luta enquanto Takara ficou para trás, encostando-se na parede. Escorregando ao lado de Shamus e Garnan, ele desajeitadamente cortou um guarda fortemente armado. Shamus deu um golpe no ombro do homem, que largou a lança. Quando ele tentou recuperar a arma, Eladamri o acertou no rosto com o cabo da espada. O soldado rolou até onde Takara estava. Ela pegou a adaga no cinto dele e cortou a garganta do inconsciente homem.


Os outros guardas começaram a recuar. Um deles tentou correr, mas Garnan foi atrás dele. Na sua pressa, ele se esqueceu do outro soldado que estava mais perto. O soldado gingou sua pesada lança, cravando-a no estômago de Garnan. O guerreiro Dal se dobrou, chocado com o seu ataque repentino, e o guarda em fuga se virou e o atravessou pelas costas. Seu triunfo foi cortado quando Medd cravou sua espada no queixo dele. Os outros guardas ficaram encurralados contra a parede e foram vencidos pelos soldados.


Eladamri se ajoelhou ao lado de Garnan e Medd tentou encontrar algum pulso.


“Ele foi um bom companheiro. Agora temos de esconder seu corpo.”


“Por quê?”


“Não podemos deixar os soldados saberem que estamos perdendo números. Devemos disfarçar nossas perdas assim não saberão quantos somos.”


Eles arrastaram Garnan para o topo da rampa e empurraram-no para uma pequena abertura oval que Takara identificou como um duto de ar quente da fábrica de rochafluente. Os quatros sobreviventes estavam abaixo dos aposentos dos cortesãos, perto dos Salões Oníricos.


As passagens ecoavam com o som de guardas. O suor no pescoço de Eladamri começou a ficar frio. Este era o tipo de fim que ele mais temia - caçado, morrendo pouco a pouco, como uma fera na baía. Comparado a isso, a câmara de tortura era melhor. Ele se resignou à morte no momento que Greven e seus moggs o acorrentaram. Sobreviver aquilo fora uma vitória e, por um momento, ele teve a esperança de escapar. Agora, as espirais do poder de Rath estavam lentamente envolvendo-os.


De repente, uma muralha de guardas bloqueou a passagem. Recusando o pedido de se render, os rebeldes recuavam pela rampa espiral. De lá, eles avistaram um fluxo de homens armados subindo a rampa abaixo.


“Precisamos de outro lugar para ir – agora!”


“O único lugar que sobrou foi os Salões Oníricos, mas as portas estão seladas, e somente o evincar consegue abrir.”

 

“Se eu vou morrer, prefiro morrer num lugar chamado Salões Oníricos do que num corredor cheio como esse,” disse Eladamri.


Shamus, o mais rápido, correu até as portas e para sua surpresa a porta se mexeu com seu empurrão. Duzentos soldados e guardas perseguiram os rebeldes até os Salões Oníricos. Os rebeldes deslizaram pelas portas e quando seu líder entrou, os demais se jogaram contra a porta. Quando se fechou, Shamus e Takara colocaram uma barra contra a porta.


Kireno e Medd começaram a rir enquanto Takara se deitou no chão. Eladamri caminhou pelos Salões. A ampla área de pilastras decoradas com bustos de Volrath - tudo isso de alguma forma lembrou-o de uma estranha clareira na floresta alinhada com altas árvores negras.


Ele tocou o fetiche de madeira pendurado em seu pescoço. Seus instintos estavam certos novamente. Este seria um bom lugar para morrer.

Leandro Dantes ( Arconte)
Leandro conheceu o Magic em 1998 e, desde então, se apaixonou pelo Lore do jogo. Após retornar a jogar em 2008, se interessou por lendas, o que resultou por despertar a paixão pela escrita. Sempre foi mais colecionador do que jogador e sua graduação em Pedagogia pela Ufscar cooperou para que ele aprimorasse e desenvolvesse um estilo próprio. Autor de alguns contos, todos relacionados ao Magic, já traduziu o livro de Invasão e criou sua própria saga com seu personagem, conhecido como Arconte.
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Comentários
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(Quote)
- 05/10/2019 12:57
show de bola!
(Quote)
- 06/09/2019 19:02
Essa lore é boa demais!
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