Repensando o Standard com a Rotação
Todos estão empolgados com a entrada de Throne of Eldraine, mas será que é só sobre isso que devemos pensar em relação ao Standard? No artigo de hoje, Sandoiche trata das principais mudanças em relação aos cards que vão embora e como esse fenômeno potencialmente afeta o novo formato pós ..
23/09/2019 18:05 - 7.148 visualizações - 8 comentários

Dentro de alguns poucos dias, teremos a famigerada rotação do Standard com a entrada de Throne of Eldraine. Pelo que acompanhei dos spoilers até agora, temos uma infinidade de cartas interessantes e mecânicas novas, que podem viabilizar diferentes tipos de estratégias ou mesmo complementar alguns decks já existentes. Porém, talvez até mais importante do que pensarmos em quem chega, é pensarmos em quem vai embora - quais premissas e cards que definiam o Standard de Ixalan até M20 e que não estarão mais presentes.

 

Não haverá um ciclo de dual lands raros

 

Surpreendendo a muitos jogadores (o próprio autor desse artigo incluso), a Wizards anunciou que não teremos um ciclo de terrenos duplos raros em Throne of Eldraine. Ou seja, damos adeus às Checklands de Ixalan e Dominaria (Rootbound Crag, Isolated Chapel, etc.) e ficamos somente com os Templos de M20 como substitutos (Temple of Mystery). Vale lembrar que esses terrenos existem somente nas combinações de cores inimigas. O que isso significa na prática?


Os que presenciaram o formato no ano passado com a entrada de Guilds of Ravnica vão se lembrar de um fenômeno similar em relação às Shocklands. Com cinco delas entrando em setembro de 2018, e as outras cinco somente em janeiro de 2019, todos os que jogaram naquele período de tempo puderam usufruir da "mana boa" somente nas combinações de duas cores que tinham uma shockland, e nas de três cores somente as que tinham duas.


Existia uma ótima base para Esper Control - Vraska's Contempt, Thought Erasure, Cleansing Nova/Settle the Wreckage, Cast Down, Teferi, Heroi de Dominaria, The Eldest Reborn e afins. Só que a mana simplesmente não colaborava, e durante esse período o principal Controle foi o Jeskai - que contava com Sacred Foundry + Steam Vents para consertar sua base de mana, embora uma boa parte das escolhas de cartas do vermelho acabasse sendo inferior ao preto, desde as remoções até Duress/Thief of Sanity no sideboard.


À exceção de terrenos como Tournament Grounds, a expectativa para o início do formato com Throne of Eldraine é de menos "ganância" nas bases de mana. Se antes jogar com três cores era praticamente de graça combinando 12 shocklands + 12 checklands em uma base de mana de certa forma até um pouco "preguiçosa", agora temos um custo real que vai nos fazer ponderar se a terceira cor é realmente necessária, se o seu custo realmente vale o benefício, e mesmo nesses casos é mais provável vermos um baralho de duas cores com um splash para a terceira em algumas poucas cartas (ou mesmo só no sideboard) do que necessariamente tricolores ao estilo Esper e Grixis com M20. Além, é claro, de termos de realmente colocar a "cuca pra fritar" em como balancear quantidades de fontes coloridas com desviradas.


Mesmo nesse território, é muito mais provável vermos decks de três cores baseados em duas combinações inimigas (Jeskai, Abzan, Temur, Sultai e Mardu) do que em duas combinações amigas (Esper, Grixis, Bant, Naya, Jund) pela mera presença dos Templos. Assim como a justificativa para jogar com os decks de duas cores nas combinações amigas precisa ser muito sólida e vantajosa em relação aos decks de cores inimigas, que vão ter acesso a uma base de mana de 8 duais "boas".


Por fim, a tendência é que a mudança na mana base desacelere um pouco o formato. O motivo óbvio é que os Templos (e as Life Lands como Blossoming Sands para as cores amigas) são terrenos que entram em jogo virados sempre, em oposição às checklands que entram desviradas quase sempre. O outro motivo menos óbvio é que, com as bases de mana piores e mais lentas, os próprios decks vão ser desenhados em cima dessa premissa, sendo menos curvados ao iniciarem suas jogadas um pouco mais tarde para comportar os terrenos virados e também com menos cores, o que significa um power level médio inferior, já que um deck de uma ou duas cores logicamente terá que usar cartas mais fracas que seu "irmão" similar com duas ou três cores (pense na comparação Boros Feather vs. Naya Feather, onde um baralho troca a consistência de duas cores pelo poder extra de três).

 

Poucas coleções válidas - menos sinergia, mais poder individual

 

Ainda não sabemos o exato impacto de Eldraine, mas algo que é crucial à dinâmica do metagame Standard é a quantidade de coleções válidas. Quatro edições saem, e somente uma entra. O formato com M20 era uma loucura justamente pelo tamanho de seu card pool, que possibilitava desde os aggros ultra rápidos de curva baixa até os ramps e combos extremamente pesados que vão totalmente "over the top" em relação ao oponente.


Mais edições significa também mais sinergias de cartas que não existiriam em formatos menores. Tomando novamente M20 como exemplo, o lançamento de Field of the Dead fez surgir o combo com Scapeshift, que era de M19, mais de um ano atrás. Assim como Sorin, Imperious Bloodlord foi a cola para os vampiros de Ixalan e Rivais funcionarem - com cards como Champion of Dusk e Sanctum Seeker que ficaram meses sem ver a luz do Sol passando para bombas definidoras no Tier 1. Foi também somente com a entrada de Gods Willing que vimos os decks de Feather, que sempre estiveram mais ou menos ali nos tiers baixos do Standard, realmente ascenderem.


Quando de fato a rotação acontecer, a consequente diminuição de card pool resultará em menos sinergias possíveis, o que nos leva a um jogo mais voltado para o valor, para cards individualmente poderosos, capazes de fazerem mais por si só - e é aí que os Midranges brilham, em especial para combater os decks aggros "nível 0" que costumam surgir na primeira semana do novo formato. Vimos isso acontecer com o Golgari em Guildas de Ravnica, depois com o Sultai em Lealdade, e até certo grau com o Esper Hero em War, enquanto tínhamos menos edições vigentes.


Com essa diminuição, veremos também diversos combos indo embora. Tudo que se aproveitava de Nexus of Fate terá de jogar de maneira diferente por motivos óbvios, resultando desde extinção (caso do Simic Nexus de Wilderness Reclamation) até reformulação (casos de Elementals Nexus e Golos Nexus), onde talvez seja possível trocar o topo de curva por outros cards, como um Agent of Treachery ou Mass Manipulation, mas que tira o aspecto "combo infinito" desses baralhos. Kethis, the Hidden Hand também segue, mas sem Mox Amber e todo o pacote histórico provavelmente será relegado a um mero "card de valor" nos Abzans Midranges da vida, assim como Field of the Dead perde a kill surpresa e de mínimo setup na forma de Scapeshift; ambos tornam-se muito mais possíveis de serem interagidos por parte do oponente.

 

Mudam os "testes a serem passados" do formato

 

Existem alguns cards tão absurdamente poderosos e definidores no Standard que todo o resto do formato é forçado a se adaptar. Vemos como a mera existência de Teferi, Time Raveler pune anulações ao ponto de não vermos quase decks com counters no G1, e mesmo os que tem acesso à Dovin's Veto não costumam usar mais que uma ou duas cópias. Narset é outro card que força o resto do formato a optar por formas de card advantage na mesa ou que acessem cards extras de forma indireta (Risen Reef, Drawn from Dreams ). Quando determinado card em nosso baralho interage positivamente contra esses "núcleos" do formato, costumamos dizer que ele "passou no teste".


Na rotação passada, vimos como duas das melhores remoções da história do jogo foram embora, aliviando a carga de seus respectivos "alvos": Abrade e Fatal Push. Bastou uma rotação para que artefatos que não fossem absurdos ou tivessem um impacto imediato na mesa pudessem ser novamente viáveis (The Immortal Sun é um exemplo), da mesma maneira que criaturas de custo 2 (e em menor escala 4) tornaram-se contextualmente mais difíceis de serem respondidas (assim como custo 3 e 5 deixaram de ser curvas mais bem protegidas).


O principal teste do atual formato é um velho conhecido desde que foi lançado em Dominaria: Goblin Chainwhirler. Se ele era a polícia dos bichos x/1, ditando quais criaturas poderiam jogar ou não, e até mesmo mantendo estratégias inteiras em xeque, esses dias acabarão ao final desse mês. Risen Reef, Paradise Druid, Scorch Spitter, Spectral Sailor e cia. limitada ganham passe livre, e com certeza veremos um aumento no número de criaturas de resistência 1 presentes nos decks como um todo, enquanto que anteriormente o bicho precisava se justificar totalmente ou mesmo ser sideado para um
plano mais pesado para mitigar o impacto do Goblin.


A rotação de Lightning Strike, o icônico burn de 3 de dano por 2 manas do Standard também implica em mudanças nas criaturas "anti-red". Criaturas x/3 como Arboreal Grazer, Elite Guardmage e Tomebound Lich acabam de ficar melhores para segurar a onda de ataques iniciais vermelhos, ao passo que criaturas x/4 como Basilica Bell-Haunt e Gruul Spellbreaker ficam piores, considerando a entrada de Slaying Fire  como burn premium para os Mono Reds da vida já no Main Deck (que antes normalmente só eram respondidos com Lava Coil do side).

 

Llanowar Elves vai embora

 

Esse é um card que merece um tópico em separado. No início ele não incomodava muito, e salvo algumas aberturas fortes com Steel Leaf Champion e Legion Warboss, não fazia coisas muito absurdas, ou ao menos não tão destoantes do que o restante do formato fazia. Era até um bicho "dispensável" em certas estratégias, que aumentava a fraqueza para Goblin Chainwhirler sem gerar muito valor.


Só que conforme novas edições eram lançadas, os Elfos ganharam parceiros perigosos. Nissa, Who Shakes the World e Risen Reef são duas cartas insanas, e que quanto mais cedo caem na mesa, mais cedo escalonam a vantagem absurda que geram. A mera existência do elfo também abria mais margem para variância no jogo, considerando que os decks usando Llanowar Elves jogavam de um jeito quando ele vinha na mão logo no turno 1, e eram totalmente irreconhecíveis quando ele não vinha.


Apesar de Gilded Goose possibilitar algumas das injustiças assim como o Elfo (Nissa na 3, estou olhando para você), ele tem um custo de oportunidade mais alto - se seu deck não tiver como criar mais fichas de Food, a sua habilidade de mana só vai poder ser usada uma vez, e mesmo rampando uma jogada forte num turno, a curva seguinte terá de ser "justa" de acordo com a quantidade de terrenos disponíveis. Da mesma forma que Arboreal Grazer também vem com seus próprios defeitos, não sendo o ramp mais confiável para todos os decks.


Mais do que conseguir acelerar a mana podendo jogar até dois turnos na frente do oponente quando está na play, o ponto forte do Llanowar Elves reside em seu custo de oportunidade. Basta observarmos um baralho Ramp usando Leafkin Druid, Paradise Druid ou Druida da Incubacao - ele quer usar essas cartas, afinal, elas fazem com que Nissa, Hydroid Krasis e Voracious Hydra caiam mais cedo na mesa. Então o Llanowar Elves já é uma carta desejável no plano, com a diferença que custa metade da mana das demais opções, sendo eficiente a um nível incomparável no Standard. Para exemplificar, seria como se o Esper pudesse usar um Thought Erasure de uma mana ou o Mono Red usando Lightning Bolt ao invés de Lightning Strike, ou até mais do que isso considerando que mesmo por metade do preço esses cards ainda não "roubariam" na mana possibilitando jogadas antes da curva.
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E quanto a vocês, leitores, como gostam de pensar no Standard para a rotação? Em relação às mana bases, qual o impacto que termos alguns ciclos de terrenos e outros não causará? Como enxergam um Standard de cinco edições vs. um de oito? E quais serão os "testes importantes" do formato? Sentirão falta de Llanowar Elves? Deixem suas opiniões nos comentários!


Abraços e até a próxima!

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Matheus Akio Yanagiura ( sandoiche_13)
Matheus Akio Yanagiura, mais conhecido como Sandoiche, começou a jogar em 2003, em Flagelo. Está sempre na vida do grind dos torneios, com destaque para o título do CLM 10 Modern, o maior realizado até então, e o Top 16 no Grand Prix São Paulo 2018. É um entusiasta do Magic competitivo e totalmente dedicado à produção de conteúdo referente ao jogo, publicando artigos periodicamente desde 2012, colaborando para o Blog da LigaMagic desde 2015 e atualmente produz vídeos em seu canal no YouTube Sandoiche's Grind e streama ao vivo regularmente na Twitch.
Redes Sociais: Facebook, Twitter
Comentários
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(Quote)
- 26/09/2019 05:19
Sensacional esse artigo! Aprendi muito! =D
(Quote)
- 25/09/2019 14:04
Tem Woodland Mystic que gera mana tmb
(Quote)
- 24/09/2019 10:02
O teste de jogablidade vai ser:
Meu deck consegue jogar contra simic flash?

Nem teferi estou vendo atrapalhando a vida do flash, imagina os decks curvados de criatura, talves so decks com removals instants consegue jogar...
(Quote)
- 23/09/2019 19:22
Muito bom o artigo, outra pool que merece um comentário é a pool explore (Wilder Growth, Merfolk Branchwalker e Jadelight Ranger) que faziam a festa nos decks BGx midrange já que além de card advantage ainda davam vida o que conseguia segurar muitos decks agro até causar pressão com Bolas Citadel ou Command the Dreadhorde, acho que sem isso os midrange vão ter que pensar mais como vão contornar os decks agressivos que vão surgir
(Quote)
- 23/09/2019 19:11
tem cartas q tao muito eskecidas ainda, augur of bolas, deathsprout, gutterbones, dolinho eu acho q vão ser cartas chave desse proximo standard
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