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Teoria de jogo: Decifra-me ou te devoro
A intenção desse artigo é tentar ajudar a dificultar a leitura que seus oponentes fazem de você.
02/10/2019 18:05 - 6.835 visualizações - 43 comentários
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"Quanta informação gratuita eu dou aos meus oponentes?", essa é uma pergunta que todo jogador deveria se fazer, desde o indivíduo que está iniciando nas competições, até o jogador veterano, afinal, quem não tem hábitos antigos e prejudiciais que, muitas vezes nem damos por conta de possuir?


A intenção desse artigo é tentar ajudar a dificultar a leitura que seus oponentes fazem de você. Quer se tornar uma incógnita aos olhos dos jogadores rivais? Então vamos nessa!


Vou dar 8 exemplos, começando pelo tipo de hábito mais bobo que pode revelar informações sobre seu jogo; até alguns hábitos mais sutis, que podem passar despercebidos por nós durante muitos anos de Magic.


1- As vezes, a aparência fala



Alguns jogadores são conhecidos, ou até mesmo famosos por sempre pilotarem um deck específico; mas, e se eu te disser que mesmo sendo um completo desconhecido, o oponente pode acabar sabendo qual o seu deck antes mesmo do jogo começar?


A maneira mais ingênua que já vi de revelar informações ao oponente, é simplesmente colocar uma etiqueta em suas deckbox, para organizar todos os seus decks. Um conhecido meu costumava fazer isso; uma vez ele chegou até a ir ao GP com uma deck box vermelha, com uma etiqueta que dizia "Burn". Faltavam apenas os Shields vermelhos e o playmat com a imagem de Lightning Bolt (Também já vi isso, mais de uma vez).


Por incrível que pareça, em um evento grande, esse tipo de atitude é menos prejudicial, afinal, um oponente de nível sempre vai achar isso óbvio demais, e vai entender que você provavelmente está mentindo sobre a etiqueta, tentando enganá-lo.


Em eventos de nível amador, como o FNM, os oponentes não são desconfiados o suficiente pra duvidar da etiqueta, portanto, receberão a mensagem e tirarão proveito dela.


Se o oponente tem efeitos de ganho de vida em seu baralho, pensará duas vezes em keepar uma mão sem essa(s) carta(s) contra alguém que está contando que joga de Burn. Esse tipo de feito é realmente impressionante pelo cúmulo da inocência (das duas partes), mas, eu avisei: o primeiro exemplo, apesar de incrivelmente bobo, é real, e acontece por aí aos montes, em todas as competições.


2- O Riffle Shuffle


Riffle Shuffle e outros embaralhamentos pirotécnicos são legais quando você tem 15 anos e impressiona seus amigos na mesa da cozinha, antes de cada jogo, mas em uma competição séria, é algo a ser evitado, por inúmeros motivos.


É claro que você está estragando seus Cards fazendo o riffle Shuffle, e que pode por distração/costume, fazer o riffle Shuffle no baralho do oponente e arrumar um inimigo pra vida toda (decks competitivos são caros como uma motocicleta popular, então você deve manusear o baralho oponente com o devido respeito), mas, o maior problema desse tipo de embaralhamento, é que ele pode revelar informações sobre seu baralho ou Sideboard ao oponente. Você já fez o riffle Shuffle em frente a um espelho? Se fizesse, garanto que pararia de embaralhar dessa maneira.


O baralho ao ser dividido ao meio, enquanto se ajusta em suas mãos para o riffle shuffle, pode revelar duas cartas por vez do seu deck ao oponente atento. Esse método de embaralhamento não oferece vantagens ao seu jogo, e deve ser evitado.


3- Randomize sua mão após um Draw


Observando os menos experientes, é comum ver um jogador comprando uma carta e colocando-a em campo sem ao menos levar a carta até a mão que segura os demais cards. Comprar cartas e não "embaralhar" sua mão antes de baixar o terreno comprado, ou conjurar a mágica comprada, revela ao oponente seu draw, e esse é o tipo de informação gratuita que você pode obter o tempo todo de competidores iniciantes.


Da mesma maneira, comprar suas 7 cartas iniciais e "organizar" seus terrenos em um canto da mão, e as mágicas em outro, é um péssimo hábito; um oponente atento pode observar seus padrões de organização, e começar a ter uma ideia bastante aproximada de quantos terrenos e mágicas você possui.


Alguém pode me perguntar: "Mas, Edu, e como ele saberá em qual canto guardo os lands e em qual deixo as spells?".


A resposta é simples: ele verá de qual canto você tirou o terreno que baixou, e verá de qual canto tirou a mágica que conjurou.


A partir daí, é só ladeira abaixo; se você compra uma carta e põe no canto X da mão, ele saberá: "olha lá, comprou um land", ou "Opa, agora comprou uma spell".


O ideal é que você mantenha uma constante randomização de seus cards durante a partida, e embaralhar sua mão após cada Draw é o suficiente para garantir isso.


4- Controle suas emoções


Blefar agressivamente não é uma habilidade fundamental em Magic, visto que geralmente, um oponente que você encontrará em um MCQ ou GP quase sempre fará a jogada correta, baseado nas informações que tem acesso, apesar de seu blefe; porém, existe uma diferença entre tentar vender uma realidade paralela ao oponente (blefe), e simplesmente ser discreto em suas expressões, evitando reagir a eventos do jogo de maneira que revele informações ao oponente, como por exemplo, a precariedade de sua mão. A habilidade da qual estou falando é a conhecida "Poker Face". Quando você e o oponente sabem que você precisa comprar uma resposta, ou perderá o jogo, existe a chance de que, mesmo que você não compre o card esperado, seu oponente deixe o jogo seguir, jogando em volta da provável resposta, nesse caso, o oponente te dará turnos até que ele mesmo compre uma carta capaz de lidar com a sua possível resposta.


Nessas ocasiões, é extremamente comum, no momento da expectativa pelo Draw milagroso, que um jogador se frustre e revele de forma obscena sua insatisfação por não ter comprado o Card necessário, e até jogue o draw na mesa para mostrar, "olhe, não comprei, como sou azarado!"

.
Esse é o momento de segurar suas emoções, e não liberar informação gratuita; seu oponente pode jogar de forma conservadora, pode sentir medo de ir para o tudo ou nada, e você deve dar chances de que as coisas aconteçam da melhor maneira possível para você, mesmo na pior situação possível.


5- De olho no sideboard
 


Faça o que eu digo, não o que eu faço. Digo isso porque eu sou uma pessoa extremamente desengonçada na hora de manusear o Sideboard em frente ao oponente. Sempre revelo quantas cartas estou subindo ao mainboard, e a melhor maneira de evitar isso, é simplesmente embaralhar seu Side dentro do main, e então ir retirando os cards que você não quer. Dessa maneira, você não revelará nenhuma informação a respeito de seus planos, e até mesmo quando você tiver um total de zero cards para subir, seu oponente receberá de você apenas uma grande incógnita. Eu estou começando a me acostumar com essa prática, e embora pareça algo mirabolante, acreditem: é mais tranquilo, rápido e eficiente do que parece.


6- Faça as coisas o mais tarde possível

 


Fazer uma mágica na sua primeira main phase, quando ela poderia ser feita na segunda, sem nenhum prejuízo para o seu plano, é conceder informação gratuita ao oponente. O ideal é que, salvo exceções, você ataque primeiro, para só depois fazer suas mágicas. Dependendo do que você realizar em sua main phase, o oponente pode resolver bloquear de uma maneira diferente do que faria sem essa informação.


É por esse motivo que os jogadores estouram fetchlands, sempre que possível, no final do turno dos oponentes. Não é um mero maneirismo ou convenção, existe um princípio geral por trás disso, que você deve aplicar sempre que possível: faça tudo no último momento oportuno, quando for possível, e assim, protele ao máximo a chegada da informação ao seu oponente. Dessa maneira, você garantirá que ele tenha o mínimo possível de informações na hora de tomar suas decisões.


7- Tudo que disser será usado contra você

 


Em torneios de REL regular (Ex: FNM) você sempre deve responder toda e qualquer questão feita pelo oponente sobre informações derivadas (informações que exigem algum esforço ou habilidade para serem calculadas), pois em nível regular, toda a informação derivada deve ser compartilhada livremente.


Em torneios de REL competitivo (Ex: MCQ, GP), você pode simplesmente não responder perguntas sobre informação derivada. (Fonte)


Você pode escolher não responder perguntas como essa: "Qual o poder de seu Death's Shadow?", Ou " Qual o poder e resistência de seu Mestre do Etherium?".


Deixe que eles façam a matemática, não facilite a vida do oponente resolvendo informação derivada que você já tomou o cuidado de calcular. Não estou dizendo que você deve ser um carrasco se não quiser, mas, alguns decks possuem uma matemática de combate um tanto complexa, como o Affinity, ou mesmo o Merfolk: Quando existem múltiplos lords em jogo, não é nada intuitiva a informação de qual o poder de cada uma das criaturas, e isso pode fazer a matemática de combate mais fácil para você do que para o oponente, que não tem tanta familiaridade com o deck que está enfrentando.


Dito isto, quero esclarecer que estou passando essa informação sobre as regras a você, não com a intenção de que você se transforme em um jogador rude; devemos ser legais com as pessoas, e é sua a decisão usar ou não.


Não responder uma pergunta do oponente pode ser algo que você não julgue bacana de fazer, e sendo assim não faça, todos temos nossos limites de até onde ir (dentro das regras, é claro) na competitividade, mas, meu papel é te informar da regra e te oferecer a opção de usar ou não, afinal, esse não é um artigo sobre como fazer amigos (coisa não menos importante do que vencer um torneio).


8- Never give up



Uma vez li que a melhor card advantage possível é obtida vencendo seu oponente, a jogada vencedora é literalmente um 60 pra 1. Da mesma forma, não existe forma de revelar mais informações ao oponente do que concedendo o jogo (Na verdade, você está dando a informação mais importante do jogo: Você venceu, camarada.)


O momento de apertar a mão de seu oponente, mostrar sua infeliz mão, conversar sobre o Sideboard de ambos e etc, é quando você chegar a 0 pontos de vida ou outra coisa que o valha. A única exceção a essa regra é quando você acredita piamente que perdeu a primeira partida e precisa correr contra o tempo para ganhar mais duas.


Tirando esse caso, resista até o final, por mais miserável que você esteja se sentindo sobre o jogo. As coisas podem mudar, algo crítico e inesperado pode acontecer, mudando um panorama dado como perdido, acredite, essas coisas são raras, mas acontecem. Essa dica vale especialmente para o Magic Online, onde o oponente pode acabar fazendo um grande missclick; ou por algum motivo, consumir todo o tempo do relógio.


Conclusão:


Sei que essas dicas podem parecer detalhes bobos, mas acredite, se cada uma delas representar uma porcentagem insignificante de aumento em seus resultados, seu objetivo deve ser colecionar todos os hábitos positivos possíveis, até que somados, eles representem uma porcentagem significativa a seu favor. Só a somatória de todas essas "small edges" poderá transformar todos nós em jogadores mais analíticos, conscientes e preparados.


Fico por aqui, por enquanto, e tenho certeza que existem muitos outros exemplos possíveis de citar, que ficarão, quem sabe, para uma segunda parte sobre esse mesmo assunto.


Um forte abraço, e Pra cima deles, Jogador!


Lages.

Eduardo Lages ( edulages)
Entusiasta dos decks alternativos ou esquecidos, começou a jogar em Investida, e atualmente dedica-se com afinco ao estudo teórico do jogo.
Comentários
Ops! Você precisa estar logado para postar comentários.
(Quote)
- 09/10/2019 11:44
Excelente artigo! Fiz muito disso tudo na minha época de tabletop ... agora o arena me "salva" 😂😂😂😂
(Quote)
- 08/10/2019 10:05
grande post
(Quote)
- 06/10/2019 03:06
Ótimo post!
parabéns.
(Quote)
- 05/10/2019 01:11
o 7 é totalmente grosseiro e antijogo na minha opinião.
(Quote)
- 04/10/2019 15:48

Complicada essa Seara, mesmo. Mas, normal, pra alguns que estão alí, tem muita coisa em jogo, as pessoas vem de muito longe, as vezes de outros países, pra jogar um GP, são milhares de horas em treino, muita grana investida, esforço, sacrifícios pessoais, abrir mão de estar com a família, e no final, as vezes pode estar em jogo a própria capacidade de alguém em pagar suas contas. Tem (pouca, mas existe) gente que vive disso.
Então, dentro das regras, o cara vai fazer tudo que for possível e aproveitar cada pedacinho de chance de ter o resultado.

Se você não se sente preparado/desejoso pra talvez ter que lidar com alguém que precisa muito ganhar, é mais tranquilo ficar no casual, que também é uma delícia. Magic, de qualquer maneira, é sempre maravilhoso. :)
Forte abraço, e valeu pelo comentário.

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