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Magic e o Flow
Talvez você nunca tenha ouvido falar disso, mas é certeza que já tenha experimentado isso.
25/03/2021 10:05 - 4.167 visualizações - 15 comentários
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Saudações planinautas, hoje abordaremos um tópico muito interessante que geralmente é abordado pela Psicologia Positiva: o flow. Dentro da psicologia, existe o ramo da psicologia positiva mais focada nos potenciais, motivações e capacidades humanas e partindo dessa linha de raciocínio, surgiu o conceito do flow.


Talvez você nunca tenha ouvido falar disso, mas é certeza que já tenha experimentado isso.


Quantas vezes ficou até tarde montando aquele deck, estudando a curva de mana, quantos draws e boardwipe se encaixam para deixar o deck equilibrado? 


Mesmo após um dia exaustivo de atividades, você ficou acordado até tarde montando o deck e nem sentiu cansaço ou percebeu a hora avançada. Isso, meus caros, é o flow. Quando você alcança um estado mental onde o corpo e a mente fluem em perfeita harmonia; você se encontra motivado ao extremo, sua mente está trabalhando freneticamente para conseguir resolver o quebra-cabeça, e por isso muitos chamam esse estado mental de “experiência máxima.”


Você mal deve se lembrar da sua aula de ontem EAD, mas você se lembra de cada momento em que passou focado tentando realizar determinada atividade. Isso acontece porque o flow traz diversos efeitos positivos, e um deles é o bem-estar.


Então, nesse artigo, tentarei (o máximo possível) tentar associar o conceito do flow com o Magic; e isso engloba tudo relacionado ao jogo, desde deckbuilding até produção de conteúdo.


Então, let’s rock!


___________________________________________________________________

 

O QUE É O FLOW?


O conceito foi criado pelo psicólogo croata Mihaly Csikszentmihalyi que descreve o flow como:


“Um estado mental que acontece quando uma pessoa realiza uma atividade e se sente totalmente absorvida em uma sensação de energia, prazer e foco total no que está fazendo. Em essência, o flow é caracterizado pela imersão completa no que se faz, e por uma consequente perda do sentido de espaço e tempo.”


Suas pesquisas começaram após a Segunda Guerra Mundial, estudando razões por trás da felicidade de algumas pessoas. 


Imaginem a situação: seu irmão foi para a guerra junto de seu pai e não voltou; uma bomba explodiu perto de sua casa e sua irmã não escuta muito bem agora; o país está quebrado por ter investido em armamentos; crise; fome; desemprego; sua mãe doente e ainda assim, o indivíduo encontra felicidade apesar de tudo isso.


Mihaly percebeu que profissionais como, atletas, músicos e médicos conseguiam manter um nível de satisfação com a vida, mesmo diante de um péssimo quadro circunstancial. Aquilo intrigou o psicólogo que decidiu realizar um experimento com 8 mil participantes que tinham como ponto em comum: dedicação a uma atividade que realmente gostavam.


Dos resultados dessa pesquisa surgiu o flow, a palavra que define o estado mental de quando uma pessoa encara uma atividade que, embora seja árdua e desafiadora,  traz a sensação de um propósito maior. E o mais estranho era que, por mais difíceis que fossem, ainda assim eram lembradas como algo prazeroso e relevante.

 

COMO FUNCIONA O FLOW?
 


 

Talvez você esteja se perguntando como se alcança esse estado sublime da mente e a resposta para isso é bem simples: faça o que gosta de fazer!
 

● Gosta de deckbuilding? Vá e crie suas listas;
● Gosta de falar sobre algum formato? Não se acanhe, escreva;
● Quer fazer Live jogando com seu deck groselha, mas tem medo dos comentários? Vá em frente;


Manter-se no flow só é possível enquanto você realiza a tarefa que gosta, ou seja, não é possível permanecer nesse estado sempre. Geralmente ele se dissipa quando você finaliza sua tarefa. E é nesse momento, de flow, que tudo em você vai canalizar para a realização da tarefa gerando a sensação de prazer.


Nem sempre você alcança esse estado assim logo que inicia sua atividade. Às vezes, por ficar protelando, você enrola para começar algo e logo que senta para realizar seu trabalho, começa a sentir-se focado e os pensamentos ficam mais claros.


Segundo Helder Kamei, especialista em Psicologia Positiva, existem 8 condições que caracterizam o estado de flow:

 

1º Metas claras e feedback imediato

 

 

Atividades que favorecem o flow permitem que o progresso seja acompanhado. Você consegue mensurar desde o início o seu trabalho. Mas de antemão já aviso que feedback imediato é uma faca de dois gumes. Ele pode te ajudar ou não, isso vai depender mais de como você lida com um feedback do que o feedback em si.


Quando se cria um conteúdo, se escreve um artigo, se gravar sua gameplay ou está bolando aquele novo commander louco para destruir seus amiguinhos, o que você mais deseja é saber se ficou bom ou não, mas acontece que nem sempre o feedback será positivo. É necessário aprender a lidar com isso, afinal, por mais empenhado que você tenha sido naquilo, nem sempre você agradará todo mundo.


O feedback imediato também acontece durante o flow. Quando você está tentando aprender algo novo, assistindo a um tutorial, querendo aprender como editar um vídeo ou a jogar com um Amulet Titan, cada conhecimento adquirido naquele momento – o momento que você compreende o que e como fazer – torna-se um feedback imediato.


Outra coisa importante é saber o que você quer. Não o que as pessoas querem, mas sim você. Por que você quer escrever sobre isso? Por que quer jogar com esse deck? Por que acha que jogando assim vai melhorar suas jogadas? Descubra, com clareza, o que você quer que isso faça seu cérebro focar nisso.

 


2º Equilíbrio entre oportunidade de ação e capacidade

 

 

Aqui está algo bastante intrigante. Para se alcançar o flow é necessária uma atividade desafiadora, porém, se a atividade estiver além de seus conhecimentos você não consegue alcançá-lo. O que você se propõe a fazer precisa ser difícil o suficiente para despertar interesse e foco, mas quando é extremamente difícil, ao ponto de você não conseguir realizá-lo, isso gera frustração.


É por isso que é necessário um equilíbrio entre a oportunidade e a capacidade, pois, do contrário, você estará tentando realizar algo que vai muito além de você. Pensou num assunto legal para escrever um artigo? Ótimo, estude bem antes. Achou uma lista de Top 8 e decidiu montar o mesmo deck? Aprenda a pilotá-lo, faça testes e adquira habilidade.


Aprenda o Modus Operandi antes de se propor a qualquer coisa. NÃO façam como eu, que acordou num dia, decidiu que criaria um canal, à tarde comprou um microfone e depois foi gravar sem nem saber qual era o nome do programa que se usava para editar um vídeo.


Eu consegui resolver tudo isso? 


Sim, mas o primeiro mês foi uma experiência infernal e não aconselho porque você pode queimar todas suas energias com isso, se frustrar e ficar anos com uma ideia genial parada, simplesmente porque não dedicou um pouco de tempo ao estudo.

 

3º Sensação de controle

 

 

Sabe por que é importante ter o equilíbrio entre oportunidade e habilidade? Porque quando você realiza algo que está dentro do seu campo, adquirimos a sensação de controle e controle é tudo para um jogador de Magic. Controle emocional durante uma partida evita que você dê pistas se sua mão está boa ou não. 


Um dos meus colegas de Commander não consegue esconder suas expressões faciais. Eu quase sempre sei quando ele tem uma resposta na mão, ou se a mão está uma porcaria porque é nítido em seu semblante.


Durante o flow o controle fortalece nossa autoconfiança e sentimos que somos capazes de realizar aquela atividade.

 

4 º Concentração profunda

 

 

Chegar ao flow não é algo que acontece sem esforço. Não basta sentar diante do seu notebook que, magicamente, você começa a digitar e fluir tudo às mil maravilhas. Seja qual for a atividade, é exigido esforço e dedicação para que alcance esse estado de plenitude mental.


E aqui vão algumas dicas para isso:


Livre-se de distrações: nem sempre um ambiente quieto é fácil de se conseguir, mas o mínimo você precisa fazer para isso. Pegue seu celular, coloque no modo avião e somente mexa nele quando terminar;
Prepare seu cérebro para a concentração: crie um estímulo para sua mente avisando que você precisa se dedicar. Uma das melhores coisas que me ajuda a focar em meu trabalho é escutar música enquanto escrevo um artigo. Então, deixa tocando seu Barões da Pisadinha e mãos à obra.

 

5º Foco temporal no presente

 

 

É aqui que chegamos à atenção plena. O que importa é o presente e nada mais. As preocupações com futuro e passado somem e nossas energias ficam voltadas para o Agora. Não importa se na sua última partida você errou aquela jogada, ou se seu último artigo gerou polêmica e comentários maldosos, o que importa é o que estou criando agora, nesse exato momento. Todas as minhas energias estão aqui para que isso se concretize, depois eu fico lamentando por aquela jogada errada com o jogo ganho.

 

6º Distorção da experiência temporal

 

       
A maior certeza que você alcançou o flow é quando você perde a noção de tempo. E isso acontece porque estamos vivenciando a sensação de plenitude e plenitude somente alcançada quando você está fazendo o que gosta. É nesse momento que você descobre que realmente está onde deveria estar, fazendo o que devia fazer e quando menos percebe, são 3h da matina e você com sua cama entulhada de cartas porque ainda não terminou aquele deck.

 

7º Perda da autoconsciência reflexiva e transcendência das fronteiras do eu

 

 

Nesse momento de plenitude, você perde a consciência de quem você é porque todo o seu ser está concentrado na atividade; essa sensação transcende ao seu ser porque faz você se sentir parte de algo maior, como uma missão.


Ao meu ver, esse sétimo tópico é muito relativo porque depende da crença pessoal de cada. Nem todo mundo acredita que exista uma missão a ser cumprida ou que o que você realiza faz parte de um projeto maior, dentro das engrenagens do cosmo.


Para alguns, a frase de Clarice Lispector faz todo sentido: 


Para cada um de nós e - em algum momento perdido na vida - anuncia-se uma missão a cumprir? Recuso-me porém a qualquer missão. Não cumpro nada: apenas vivo.

 

8º A expectativa se torna autotélica

 

 

Conforme o dicionário Dicio, autotélico é um adjetivo que significa “que não possui propósito ou finalidade para além de si mesmo; cujo significado existe somente para si mesmo, sem uma necessidade específica: arte pela arte.”


Em outras palavras: quando você faz algo porque simplesmente quer fazer. E isso implica entre a dicotomia entre sucesso e realização.


O conceito de Personalidade Autotélica cria uma distinção entre sucesso e realização. Enquanto a realização é algo totalmente interno, vindo de dentro - cujo sentido somente o próprio indivíduo consegue compreender – o sucesso é externo, “para fora” e, geralmente, é mensurável pela métrica baseada na forma como julgamos que conseguiremos impressionar alguém.


Por mais que você acredite que não, que o sucesso não deve ser medido pelo que se alcança, essa é a fórmula como o mundo enxerga as coisas; como o mundo julga as pessoas.


As pessoas sempre nos julgam pelo o que temos, fato!


E é por isso que o estado de flow rompe com esse conceito mundano fútil, pois ao realizar uma tarefa, o objetivo dela deixa de ser sua principal motivação. 


Se você ainda não entendeu, reflita aqui comigo: você decide criar umas listas de deck budget para ajudar uma galera iniciante. O objetivo é ajudar, fazer com que os jogadores iniciantes permaneçam e consigam montar seus decks.


Esse é o objetivo final, mas quando sua atividade se torna autotélica, alcançar o objetivo final é apenas mais uma forma de se alcançar a sensação de bem-estar porque a tarefa se torna tão gratificante que todo o processo é satisfatório. No final do dia, mesmo que quase ninguém tenha lido o que você escreveu ou assistiu a sua Live, isso perde um pouco da relevância porque você desfrutou durante cada etapa do trabalho.


Arte pela arte.


É por isso que dizem que a sensação de flow acontece DURANTE o processo e não após. Não é quando se relaxa que ele vem, mas enquanto se trabalha.

 

Considerações Finais


Sabe aquela pessoa que já disse uma vez “cara, eu tava numa fase ruim e tals, e me voltei para o Magic e ele mudou minha vida,” então, isso acontece justamente porque o Magic é um hobby que nos leva, diversas vezes, a esse estado de plenitude mental do flow. Talvez você mesmo já tenha dito algo desse tipo, experimentado algo semelhante após se tornar um produtor de conteúdo ou focar em se tornar um jogador profissional que, após algumas crises da vida adulta, encontrou propósito e força quando começou a se dedicar a essa faceta do Magic.


De certa forma, isso é uma realidade e realmente o Magic ajuda e já ajudou muita gente por aí. Óbvio que tudo isso não substitui um tratamento profissional, então, se possível, façam terapia, porém não podemos negar que o jogo contribui para a aquisição de bem-estar. 


Isso explica porque ano passado, embora o caos e as calamidades públicas que o país tem vivido, foi o ano que muitos lojistas mais venderam Magic na vida, pois embora as mazelas nos cerquem, somos seres capazes de construir nossa própria felicidade mesmo diante de ambientes totalmente desfavoráveis. 


Então, procurem algum nicho dentro do Magic e “só vai.”

Leandro Dantes ( Arconte)
Leandro conheceu o Magic em 1998 e, desde então, se apaixonou pelo Lore do jogo. Após retornar a jogar em 2008, se interessou por lendas, o que resultou por despertar a paixão pela escrita. Sempre foi mais colecionador do que jogador e sua graduação em Pedagogia pela Ufscar cooperou para que ele aprimorasse e desenvolvesse um estilo próprio. Autor de alguns contos, todos relacionados ao Magic, já traduziu o livro de Invasão e criou sua própria saga com seu personagem, conhecido como Arconte.
Redes Sociais: Facebook
Comentários
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(Quote)
- 09/04/2021 19:47

Eu escrevi o artigo pensando justamente em situações como essas, até porque, passei por coisas do tipo. Que bom que fez sentido para você.

(Quote)
- 09/04/2021 19:44

Gracias amigo

(Quote)
- 09/04/2021 11:54
Sensacional o artigo brother! Parabéns por tornar as ideias tão claras! :D
(Quote)
- 27/03/2021 14:52
Cara, o primeiro parágrafo das considerações finais me descreveu muito.

Aprendi a jogar Magic na segunda metade de 2015, durante um período pra mim onde começou uma espiral de merda que duraria até o final de 2018 e o Magic foi uma das poucas coisas que me foram positivas naquele meio-fim de 2015.
(Quote)
- 27/03/2021 12:11
pior podcast q tem ....
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