“O passado se torna presente, e então, paradoxo."”
Agonia do Arcaico.
O conceito de tempo é fascinante. Dependendo do local, da cultura e, ironicamente, do próprio período histórico, o significado do tempo pode mudar completamente. Para muitos povos, ele é como um rio que corre em linha reta, onde uma simples alteração na nascente pode gerar consequências devastadoras ao longo de todo o seu curso. Outras culturas o enxergam como uma roda eterna, destinada a girar em ciclos infinitos e inevitáveis. Há ainda uma terceira visão, situada entre essas duas: a de que os ciclos existem, mas podem ser transformados por meio do aprendizado e da compreensão.
Todavia, por mais misterioso e enigmático que seja, há algo sobre o qual praticamente todas as culturas concordam: o tempo é implacável. Ele transforma reinos em ruínas, ruínas em pó e, eventualmente, o pó em novos reinos. Como diria o poeta Gilberto Gil, "o tempo é rei". E mexer com uma força tão maior do que nós inevitavelmente traz consequências.
Em sua tentativa de "consertar" o multiverso à sua própria imagem, o planinauta Jace Beleren criou o Echoverso, um reflexo do multiverso de Magic, mas moldado por eventos alterados segundo sua vontade. O resultado? O Fim dos Tempos.

Mas antes de mergulharmos naquele que pode ser o maior evento da história de Magic: The Gathering, é importante entender como chegamos até aqui.
Muitas pessoas — especialmente jogadores mais antigos ou aqueles que não acompanham a lore com frequência — me perguntam o que exatamente está acontecendo na narrativa atual. Pensando nisso, este especial em três partes tem como objetivo revisitar os acontecimentos mais importantes dos últimos dez anos de história de Magic, além de relembrar pontas soltas, mistérios e tramas que podem voltar a desempenhar um papel fundamental no futuro do multiverso.
Aqui começaremos pelo terceiro grande arco da história de Magic: The Gathering: a Saga de Bolas.
Se você não conhece bem a história de Magic — ou deseja apresentar a lore a algum amigo de forma rápida, mas sem abrir mão dos detalhes mais importantes —, aperte os cintos. Vamos voltar os ponteiros do relógio e revisitar os eventos que moldaram o multiverso moderno

● Addendum
Como um anexo à nossa recapitulação, gostaria de explicar primeiro como eu divido os grandes arcos narrativos de Magic: The Gathering. Como não existe um consenso definitivo sobre onde uma saga termina e outra começa, cada jogador, criador de conteúdo ou fã da lore acaba criando sua própria classificação.
No meu caso, gosto de dividir a história de Magic em cinco grandes sagas: a Saga de Phyrexia, a Saga do Multiverso, a Saga de Bolas, a Nova Saga de Phyrexia e a história atual, que chamo de Saga dos Omenpaths. Essa divisão leva em consideração, principalmente, a época de publicação de cada narrativa e os objetivos que elas buscavam cumprir dentro da construção do multiverso — algo que comentarei com mais profundidade ao longo deste especial.
Entretanto, é importante destacar que algumas das histórias mais relevantes para a construção da Saga de Bolas foram apresentadas ainda durante a Saga do Multiverso, funcionando quase como um prólogo para os acontecimentos que viriam depois. Por isso, eventualmente farei referência a eventos mais antigos, de modo a fornecer o contexto necessário para compreendermos melhor o quadro geral.
A Saga de Phyrexia — também conhecida por muitos fãs como a Saga da Bons-Ventos — foi o primeiro grande arco narrativo de Magic. Foi nela que fomos apresentados a diversos conceitos fundamentais do multiverso, como a existência de diferentes planos e de seus viajantes interplanares, os Planeswalkers.
Narrativamente, seu objetivo era relativamente simples: conectar as coleções, criando uma sensação de continuidade em um universo que estava sendo construído. De maneira geral, essa saga pode ser dividida em três momentos principais: a introdução de Dominária e de Phyrexia, a luta da tripulação da Weatherlight contra as forças phyrexianas e, por fim, as consequências desse conflito para todo o multiverso.

Trata-se de uma história quase inteiramente centrada em Dominária e em planos diretamente relacionados a ela. Seu encerramento ocorre justamente quando Dominária deixa de ser o foco principal das coleções, abrindo espaço para que Magic passe a explorar outros mundos a partir do bloco de Kamigawa.
A segunda fase, que gosto de chamar de Saga do Multiverso, marcou uma grande mudança na forma como Magic contava suas histórias. Em vez de concentrar seus eventos em Dominária, a narrativa passou a explorar uma enorme variedade de planos inéditos, cada um com suas próprias culturas, conflitos e personagens.
O principal objetivo dessa fase foi justamente expandir as fronteiras do multiverso. Embora muitas dessas histórias parecessem isoladas à primeira vista, elas serviram para plantar sementes que floresceram anos depois. Foi nesse período que tivemos os primeiros indícios das maquinações de Nicol Bolas, a introdução dos temíveis Eldrazi e os eventos que culminaram no surgimento de New Phyrexia.
Os principais eventos desses dois primeiros arcos já foram explicados brevemente no terceiro capítulo da minha Enciclopédia do Multiverso, que vocês podem conferir aqui e aqui.
● A Ascensão das Sentinelas
A Saga de Bolas começa de fato com o surgimento de sua maior nêmesis: as Sentinelas. Após reviver durante a Crise Temporal, Nicol Bolas inicia uma série de planos com um objetivo ambicioso: restaurar sua condição de divindade e assumir o controle do multiverso.
Os primeiros passos desse plano acontecem durante o bloco de Alara. Ali, Bolas manipula os eventos que culminam na Confluência, enquanto Ajani Goldmane tenta impedir seus planos e vingar a morte de seu irmão, impedindo que o Dragão consiga o poder da mana selvagem de Alara.

Em paralelo, Bolas organiza o Infinite Consortium, uma rede de Planeswalkers destinada a coletar informações, artefatos e conhecimento por todo o multiverso. Entre seus membros está Jace Beleren, que, sem compreender toda a extensão da conspiração, acaba se tornando uma peça importante no tabuleiro do dragão. É através do Consórcio que Jace é enviado para Zendikar. Lá, ao lado de Chandra Nalaar e Sarkhan Vol, ele é manipulado para recuperar o Fogo Fantasma de Ugin para Bolas.
As consequências dessa missão seriam enormes. Após ser traído por seu empregador e envolvido nos eventos narrados em Fogo da Purificação, Jace acaba participando da libertação dos Eldrazi. Ao retornar para Ravnica, Jace se vê envolvido nas disputas entre as guildas, culminando com sua ascensão ao posto de Pacto das Guildas Vivo. É nesse contexto que Jace conhece Gideon, um planinauta de Theros que atuava na defesa de Zendikar contra os Eldrazi e, em Ravnica, ao lado da Legião Boros.
Gideon pede ajuda a Jace, e ambos começam a enfrentar os Eldrazi ao lado de Nissa e Chandra. Ao perceberem a força que tinham como equipe, os quatro Planeswalkers decidem fundar as Sentinelas, um grupo de planinautas que atuaria na proteção do multiverso contra ameaças interplanares. Unindo suas forças, o grupo consegue derrotar e matar dois dos três Titãs Eldrazi, evento que, segundo Ugin (que nessa época existia como um espírito), traria consequências negativas para o multiverso.
Em sequência, o grupo vai a Innistrad investigar anomalias na rede de mana do plano que estavam deixando os anjos loucos. As Sentinelas então descobrem que Nahiri, sentindo-se traída por Sorin, havia criado estruturas capazes de reorganizar as Leylines de Innistrad, atraindo Emrakul para o plano.
Ao enfrentar Emrakul, Jace entra em contato com uma fração da consciência da Titã, que manipula o telepata para que ele utilize um feitiço de Tamiyo a fim de selar a Eldrazi na Lua. Ou seja, a própria Emrakul permitiu ser aprisionada, permanecendo na Lua até os dias de hoje sem uma grande explicação sobre seus verdadeiros motivos.

● A Grande Revolução e Grande Derrota
Seguindo um pedido de ajuda do planinauta Dovin Baan, as Sentinelas se dirigem a Kaladesh, plano natal de Chandra e atual Avishkar. O grupo é chamado para deter a ameaça dos Renegados, apenas para descobrir que eles eram, na verdade, um movimento revolucionário que tinha como objetivo libertar seu plano da tirania do Consulado, que na época tinha como um de seus principais líderes o capanga favorito de Bolas, Tezzeret.
Com a ajuda das Sentinelas, os Renegados iniciam a Revolta do Éter e derrubam o governo opressor. Porém, não antes de Tezzeret conseguir adquirir uma peça fundamental para os planos de Nicol Bolas: a Ponte Planar, um portal que possui a habilidade de transferir matéria não-viva entre planos.
Seguindo o rastro de Bolas, as Sentinelas chegam a Amonkhet, um plano que venerava o antigo imperador de Madara. Entre desafios e disputas de poder, o grupo de Planeswalkers descobre que Bolas havia manipulado o plano séculos antes, transformando-o em uma fábrica de Eternos: zumbis revestidos com o metal lazotep que poderiam atravessar a Ponte Planar, tornando-se um exército de conquista para o dragão ancestral.
Ao enfrentar as Sentinelas, Bolas humilha completamente o grupo, levando-o à derrota e à separação. Durante o confronto, ele também ativa uma armadilha deixada na mente de Jace, apagando suas memórias e fazendo com que o telepata fosse parar em Ixalan.

● O Sol Imortal e o Farol Interplanar.
Sem saber do paradeiro de Jace, Bolas contrata os serviços de Vraska em troca da promessa de entregar o comando dos Golgari para a górgona. Equipada com a Bussola Taumatica, Vraska parte para Ixalan em busca do Sol Imortal, um artefato criado e guardado por Azor com o poder de impedir Planeswalkers de deixar um plano. Ironicamente, esse artefato havia sido criado com a centelha da esfinge milênios antes justamente para servir como prisão para o próprio Bolas.
Ao encontrar Jace, Vraska percebe que o telepata havia perdido suas memórias e, por isso, não se lembrava do encontro anterior dos dois, quando tentaram se matar. Determinada a utilizá-lo em sua missão, Vraska aceita o mago azul em sua tripulação, aproveitando seu intelecto brilhante para avançar em direção à cidade de Orazca.
O problema é que, no meio do caminho, Vraska e Jace acabam se apaixonando e descobrindo o verdadeiro plano de Bolas: transformar Ravnica em uma grande prisão para Planeswalkers. O casal então decide impedir o planinauta dragão, elaborando um plano para infiltrar Vraska no exército de Bolas.
Jace segue para Dominária, onde encontra as Sentinelas divididas. Nissa havia abandonado o grupo, Chandra estava de coração partido e Gideon partira em busca de Liliana para ajudá-la a matar o último de seus mestres-demônios. Sem saber, ao derrotar Belzenlok, Liliana transfere seu contrato para Bolas, tornando-se sua serva e uma peça importante de seu plano.
Em Ravnica, Bolas utiliza seu poder e influência para infiltrar cinco de seus associados nas guildas da cidade, preparando o terreno para sua jogada final. Entre as guildas selecionadas estavam os Izzet, que o dragão ancestral utiliza para construir a última peça de seu plano: o Farol Planar, um dispositivo capaz de atrair Planeswalkers para um plano específico. Bolas força seus aliados a realizarem um encontro de mestres de Guildas, onde Vraska acaba matando Isperia e instaurando a desconfiança entre as Guildas. Niv-Mizzet tenta enfrentar Bolas, mas é morto, eliminando assim a principal ameaça aos planos do Dragão de Dominária.
● A Guerra das Centelhas

A parte final dessa saga representa a culminação de todo o plano de Bolas. Utilizando o Farol Planar, o dragão atrai Planeswalkers de todo o multiverso para Ravnica, onde ficavam presos graças ao O Sol Imortal. Ao mesmo tempo, através da Ponte Planar, o exército de Eternos era transportado para o plano. Por meio de um poderoso feitiço, esses guerreiros ganhavam a capacidade de retirar a centelha de um Planeswalker com um simples toque, transferindo-a diretamente para Bolas.
Com essa gigantesca armadilha para Planeswalkers, o dragão pretendia absorver um número suficiente de centelhas para recuperar seu antigo poder e ascender à condição de um Deus-Planinauta. Utilizando o seu contrato com a necromante, o Dragão obriga Liliana a controlar os eternos, que invadem o plano das guildas. Ao perceber a gravidade da situação, as guildas de Ravnica e os planinautas se juntam e elaboram um plano de ação contra Nicol Bolas.
Parte do plano dá certo, levando à desativação do O Sol Imortal, o que permite que os Planeswalkers desinteressados no conflito escapem, e à ressurreição de Niv-Mizzet como o novo Pacto das Guildas Vivo.
Gideon, com a ajuda de Rakdos, tenta matar Bolas com a Lamina Negra, mas descobre que a arma havia sido enfeitiçada pelo próprio dragão para que não pudesse feri-lo. Percebendo que preferia morrer a servir eternamente a Bolas, Liliana o trai, quebrando seu contrato e iniciando o processo que a levaria à morte.
Em seu último ato heróico, Gideon decide confiar em Liliana e usa sua hieromancia para morrer em seu lugar. Utilizando as deusas eternas Oketra e Bontu, e com a ajuda de Niv-Mizzet, Liliana consegue derrotar Bolas.
Ou, pelo menos, era o que todos pensavam...

Ugin e Jace sabiam que Bolas teria mais chances de retornar morto do que preso. O próprio Ugin já havia morrido e retornado duas vezes, enquanto Nicol Bolas já havia feito isso uma. A dupla então decide enganar seus aliados, prendendo Bolas no Plano da Meditação e deixando seu irmão gêmeo como seu eterno carcereiro. É importante lembrar que aqueles ligados ao Plano da Meditação possuem a capacidade de retornar à vida dentro dele.
Assim, Bolas revive, mas Ugin remove seus poderes e bloqueia a entrada de outros Planeswalkers no plano, que passaria a servir como prisão para ambos os dragões.
Para pagar por seus crimes contra Ravnica, Ral, Vraska e Kaya recebem a missão de capturar, respectivamente, Tezzeret, Dovin Baan e Liliana.
Tezzeret tenta comprar sua liberdade com Ral, que recusa o acordo, mas não consegue impedir a fuga do ciborgue. Vraska faz um trato com Dovin Baan, permitindo que ele escape em troca de informações valiosas. Infelizmente para a górgona, Lazav descobre o acordo e mata Dovin, utilizando o ocorrido como forma de chantagem contra ela.
Já Kaya encontra Liliana e, entendendo que ela não era uma pessoa verdadeiramente má, decide enganar as guildas e permitir que a necromante fuja.
● Conclusões e Reflexões
Esse é o primeiro capítulo do que podemos chamar de “história moderna” em Magic The Gathering. A coleção de Juramento das Sentinelas completou no começo do ano 10 anos e é incrível pensar que tantas histórias interessantes foram contadas em tão pouco tempo. Eu iniciei em Magic bem no finalzinho dessa saga e tenho ótimas memórias desse momento.
Se gostaram desse artigo, peço que me ajudem nessa empreitada compartilhando esse e outros textos meus com seus amigos. Compartilhem também com aquele seu amigo que não conhece nada da Lore e que quer saber um pouco mais. Mês que vem teremos a história da saga de Nova Phyrexia, então fiquem ligados para saber um pouco mais.
Também ficaria honrado em ter a participação de vocês na sessão comentários deste artigo. Como sempre vou deixar uma pergunta para vocês: Qual sua coleção favorita dessa fase?
Um grande abraço a vocês e até o mês que vem!