É bem corriqueiro pra mim, que me empenho para aprender mais sobre Magic a cada dia, que eu não perceba a chegada de novos artistas ao jogo, às vezes por estar atrelado demais à era Pré-Modern, ou seguir uma tendência natural de sempre acompanhar os artistas que eu já tenho uma preferência. Mas, ultimamente, tenho conhecido muitos novos artistas, contratados especificamente para algum novo projeto da Wizards, artistas que têm trazido seus estilos de arte para dentro do Magic, assim como Cosmin Podar, Nathanna Érica, Jéssica Rossier e assim por diante. Todos eles, contratados para fazer algo muito específico, transformar as cartas em uma extensão de seus estilos de arte.
No começo do Magic, os artistas não fugiam muito da fantasia medieval clássica, então, todos tinham esse mesmo viés, essa mesma linha central que os unia. Até mesmo Rebecca Guay, Drew Tucker e Margareth Organ-Kean, apesar de implementar seus estilos únicos nas cartas, não fugiam muito desse cerne que unia todo o Magic, a fantasia medieval. Hoje, vemos uma tendência, um tanto quanto contraintuitiva, de largar um pouco, e às vezes até largando muito, desse estilo de fantasia, para dar lugar a novos conceitos, e para isso, contratam artistas específicos para um novo olhar sobre algumas coleções. Vimos isso com a Serena Malyon, ilustrando para Capenna e Eldraine, pintando desde uma arte-decò mais refinada, metalizada, até contos infantis clássicos. E também preciso mencionar o Boell Oyino ilustrando para Avatar, compondo esse universo do desenho com sua arte em aquarela cartoonizada. O que vemos ultimamente é que a Wizards tem buscado novos artistas com o intuito de compor os mundos do jogo com novos olhares.
Mas, há pouco tempo, acompanhando o trabalho do Bardo (@umbardomedisse), um perfil no qual eu sou fã, lançou um vídeo entrevistando um artista brasileiro de D&D e Magic, logo pensei: “Ok, conheço o Caio Monteiro!”, mas daí o vídeo começou e não era o Caio. Eu imediatamente pensei: “Como assim eu não conheço esse cara?!” Ainda mais depois da entrevista que o Bardo fez com ele, que é muito divertida, eu realmente precisava conhecê-lo. Então, fui na LigaMagic, buscar as cartas ilustradas por esse “meu desconhecido” e aí tudo fez sentido. Ele chegou agora no Magic!
O artista entrevistado de hoje é Matheus Graef, um jovem ilustrador que fez sua estreia em Strixhaven, com quatro artes, duas para Commander e duas para a coleção corrente. Então, vamos aproveitar para conhecê-lo juntos. Vamos nessa?
Pra começar, claro, a tradicional pergunta de como encontraram você: “Matheus, foi uma grata surpresa descobrir que mais um artista brasileiro entrou recentemente para o Magic, e claro, um artista com sua experiência, sua estirpe e grife. Me conta um pouco como foi essa aproximação com a Wizards? Quem te convidou pra essa empreitada?
“Opa Rapha! Primeiramente, obrigado pelos elogios!” – relaxa, rapaz! Você merece!
“A minha primeira aproximação foi em 2021. Na época eu trabalhava com a Conceptopolis, que é uma empresa que produz artes para vários RPGs. Um certo dia, o meu coordenador entrou em contato comigo dizendo que um artista não conseguiria entregar no prazo para um livro de Dungeons & Dragons e perguntou se eu teria como pegar o trampo. O único, porém, era que eu teria que fazer 4 obras em uma semana! Mas naquela hora eu nem pensei, só aceitei. Acho que esse tipo de oportunidade é pegar ou largar mesmo. Ali foi a minha porta de entrada para trabalhar com a Wizards. Depois disso, acabei fazendo vários itens pro Dungeons Master Guide de 2024 – a mão do Vecna é brasileira, fiz baseada na minha própria mão! – e, enfim, cheguei ao Magic em 2024.

“Eu encontrei a mão do Vecna!” – Sem nome, Bardo.
A frase icônica do nosso querido Bardo no vídeo faz todo sentido.
Ele continua – “Pra trabalhar com o Magic, eu fui até Chicago em 2024. Surgiu um post na minha timeline falando que teria um portfolio review feito com os diretores de arte do Magic, na MagicCon Chicago daquele ano. E logo em seguida, eu vi um post do Bruce Brenneise, falando que precisava de um assistente para feira de Chicago naquele ano, e se alguém se voluntariava. Como eu já trocava uma ideia com ele pelas redes, mandei mensagem, né? O “não” a gente já tem! - E só pra explicar: não é necessário ir até lá pra conseguir esse trampo, mas no meu caso, eu senti que aquela viagem agregaria à minha carreira independente se eu conseguisse entrar pro Magic naquele momento ou não. - No final, foi uma experiência extremamente gratificante e totalmente surreal, ainda mais quando alguns artistas de peso ali me falaram que conheciam e curtiam o meu trabalho. Devo muito ao Bruce. O Zack Stella que avaliou meu portfólio e fui contratado ali mesmo!”
Meusa-migos, só imaginem essa experiência: viajar pra uma MagicCon pra ser assistente de Bruce Brenneise e ainda sair de lá contratado. Tudo valeu a pena. E assim, nosso jeito brasileiro de lutar pelo que a gente quer é um negócio quase surreal. O brasileiro é batalhador, mesmo sem o espaço, a gente vai lá e mostra nosso trampo com todo orgulho do mundo e a gente ganha mesmo! Então, nada melhor do que perguntar sobre o diferencial que fez o Zack Stella o contratar de imediato.
“Você chegou no Magic agora em Strixhaven já com 4 cartas, 2 na coleção corrente e 2 para os decks de Commander, o que já é uma grande ‘responsa’. Conta um pouco sobre o seu processo criativo, o Wizards deixou com você, com a sua criatividade ou pediu algo específico?”
“Demais! Foi incrível! Então, hoje em dia no Magic, na maioria das vezes, os artistas têm que seguir um Guia de Estilo bem definido. Por exemplo: quando eles me pediram pra fazer a Owlin Historian, que é uma estudante do Lorehold, eu basicamente consultava uma "bíblia" de arte que dizia como deveria ser o design dos uniformes, os locais, e por aí vai. Então respondendo à pergunta, eles pediram coisas bem específicas, e a liberdade fica mais na exploração da composição, nas poses e iluminação, e no estilo do artista.”
“Aproveitando que você mencionou isso, conta um pouco das técnicas que você usa para criar as artes e que tal mostrar pra gente um pouco dessa construção das suas artes?”
Ele responde: “Tenho os esboços sim! Como ainda não pedi a autorização da Wizards pra mostrar os meus de Magic, vou mostrar com outras artes que eu já fiz.”

“O meu trabalho final é no digital. Toda vez que possível, eu gosto de explorar o esboço no papel. O grafite me acompanha desde sempre, e é uma ferramenta muito mágica. Todo mundo, desde o artista iniciante até o profissional, passa pelo lápis: uma ferramenta sem leque de cor, com uma só funcionalidade. Mesmo assim, dois artistas usando o mesmo lápis vão trazer respostas completamente diferentes. Enfim, ele informa as minhas maiores decisões de estilo, coisas que se enraizaram no meu traço ao longo dos anos, antes mesmo de eu começar a estudar ilustração: implicações do subconsciente, mesmo. Formatos, proporções, a forma que eu seguro o lápis, etc. Às vezes surge ali um esfumado, texturas... "acidentes" que não surgiriam no digital. É uma espécie de DNA da imagem. Quando eu aplico a cor no digital, eu geralmente tento levar esse DNA em consideração.”
Ele continua: “Eu curto trabalhar com iluminações interessantes no meu trabalho e, sempre que possível, eu prefiro fotografar as minhas próprias referências. Pra Owlin Historian, eu cheguei a fazer uma esculturinha de asa de coruja bem básica, usando papel sulfite pra ver como a luz laranja iria se projetar através das asas mais finas. (as imagens mostram as artes Owlin Historian e Owlin Spiralmancer) E olha, se alguém tivesse acesso à minha pasta de fotos do celular, só digo uma coisa: material altamente peculiar.”
“Matheus, está tudo bem, eu entendo perfeitamente. No celular de um botânico tem mais fotos de plantas do que fotos da minha esposa.” Só quem vive sabe.
Bom, eu acho que eu nem preciso dizer o quanto é mágico, com o perdão do trocadilho, ver esse tipo de conteúdo, olhar os trabalhos de artistas tão empenhados em construir tudo da forma mais perfeita possível. Os detalhes das asas, os contornos, luz e sombra, demonstram uma sensibilidade do artista de querer o melhor design possível, o melhor ângulo possível. É realmente algo espetacular, e claro, também peculiar.


“Mas aqui, me diz uma coisa, você é do mundo do Magic? Você tem algum hobby nesse mundo nerd?
“Rapha, sendo honesto, parei de jogar Magic lá pra meados dos anos 2000, estou voltando só agora! Quando adolescente, entrei de cabeça no mundo do RPG de mesa e moro lá desde então. Eu era aficionado por D&D, mais especificamente por suas partes mais esquisitas: Planescape, Underdark, Dark Sun, foi onde me apaixonei pela arte do DiTerlizzi, Brom, e onde comecei a moldar a minha preferência por fantasia. Até hoje jogo RPG’s, mas prefiro os independentes. Estou até lançando um RPG: Omios Ures, influenciado por Planescape, Morrowind, com um toque de era do bronze e Star Wars dos anos 70. É um RPG pós-heróico, onde aventureiros não são bem vistos. Pensa uma pegada "Conan após Conan": os grandes heróis estão todos mortos: este é o mundo que construíram. O sistema não tem níveis nem classes, e um dos pontos altos do jogo é o sistema de progressão: cada vez que você falha a rolagem, ganha 1 XP. A cada 7 XP, você aumenta a habilidade. O jogo meio que instiga os aventureiros a se arriscarem. Afinal, aventurar-se é um ofício de tolos. E num mundo que odeia aventureiros, você se aventura mesmo assim.”

É, pessoal. O cara manja. E claro, com essas referências incríveis da cultura pop, é impossível esse sistema ser ruim. Falou em Morrowind, aí toca no meu coraçãozinho, porque o meu jogo favorito da vida é Skyrim, então, esse universo me fascina completamente. Pensar em um jogo que me coloque em algo minimamente parecido já me empolga a conhecer esse RPG. Inclusive, já até tinha me esquecido do foco principal desta entrevista.
Acho que se alguém aqui tinha dúvidas da competência e currículo dele, agora já não tem mais. Além de ilustrar para D&D, talvez o maior sistema de RPG do mundo, ilustrar para a Wizards, ainda criou um sistema baseado na estética clássica, mas com um enredo diferente: os heróis já se foram, você é apenas um tolo! Isso é simplesmente genial!
Mas, com tudo isso, e daqui pra frente? Com tantos projetos a fazer, qual serão os próximos passos? Então eu pergunto: “E para o futuro? O que podemos esperar? Está curtindo fazer parte dessa comunidade?”
“Vem aí muita coisa bacana! Pretendo dar as caras em mais eventos de Magic, alguns ainda esse ano. E olha: a recepção da comunidade anda sendo além de tudo que eu poderia imaginar. É extremamente gratificante ver o pessoal gostando da arte e dando valor pros artistas brasileiros, é uma verdadeira honra fazer parte dessa família. Eu espero que minha arte ainda inspire algum jovem a sonhar com uma carreira criativa, assim como eu sonhei lá atrás, e espero que tenhamos cada vez mais artistas nacionais atuando no Magic.”
Sinceramente, eu também espero profundamente que mais artistas brasileiros se juntem ao Magic, mas principalmente, que os jogadores brasileiros deem mais valor aos artistas, acima de tudo, os daqui. Eu tenho muito carinho por grandes artistas do Magic, Anson Maddocks, Drew Tucker, Margareth Organ-Kean, Richard Kane Fergusson, entre tantos outros, claro, realmente o Magic de antigamente é algo absolutamente memorável, mas pensar que novos artistas estão compondo essa história e ainda que eles são brasileiros, é indescritível.
A LigaFest, tem nos dado, a cada semestre, um estudo antropológico sobre isso. A cada evento, percebo que esse interesse tem crescido entre os jogadores. E claro, alguns artistas já me disseram isso, sobre o aumento da procura por cartas assinadas e tudo mais. Falar sobre as artes de Magic, publicando essas entrevistas quase que mensalmente aqui na LigaMagic, tem despertado em algumas pessoas esse interesse – de forma alguma estou dizendo que esse interesse parte por causa dos artigos publicados aqui - que talvez essa pessoa já até tivesse, mas não via respaldo ou não sabia por onde começar, mas agora é diferente. Iremos divulgar ainda mais, falar mais sobre os artistas e acima de tudo, falar sobre os artistas brasileiros para que fiquem cada vez mais conhecidos, pelo menos entre nós, e que a cada evento grande, tenhamos Artists Alleys ainda maiores, com mais gente buscando e dividindo esse interesse.
Estamos em um excelente momento do colecionismo no Brasil, para quem curte o Magic para além do jogo, é um excelente momento para termos essa proximidade com que faz o jogo acontecer, literalmente faz. O Matheus Graef é um desses novos artistas que estão trazendo mais beleza ao jogo, a complexidade de suas artes e claro, mostrando que é capaz de desenvolver um novo RPG mais palatável para a comunidade de role play, então, talvez num futuro próximo, ele esteja criando novos mundos também para Magic, e cabe a nós apoiá-lo.