Interagindo com mulheres no ambiente do Magic

       

Por: VIP STAFF tunicoberno em 06/11/14 17:12 | 1 comentários / 1,654 visitas

Interagindo com mulheres no ambiente do Magic: Responsabilidade, Respeito e Consciência.

[Nota do Tradutor: este texto é uma tradução de um Blog, os depoimentos aqui citados são de experiências do autor original do texto.
Fonte ]
[Nota do escritor habitual deste blog: Eu gostaria de dar as boas vindas a um autor convidado para esta postagem, meu grande amigo, David de la Iglesia. Os tópicos de hoje – gênero, privilégio e perseguição – são muito sensíveis e difíceis de serem discutidos publicamente, mas esta conversa é muito importante, e importante além também do Magic.
Aqui há também um fator de vulnerabilidade pessoal do lado de David, como você saberá em breve o porquê. Quando um de nós se levanta para falar sobre suas experiências, é essencial que todos nós levemos essa abertura com respeito consciente. [Com essa introdução e nota feitas, para vocês, David – Sean]

A comunidade de Magic é dominada por homens. Mulheres enfrentam grandes dificuldades quando tentam fazer parte da cultura gamer, e está em cada um de nós a responsabilidade de fazer os torneios de Magic mais inclusivos a todos e livres de preconceitos.
A comunidade de Magic está comprometida com a segurança e inclusão, e o comportamento dos jogadores é controlado por causa disso. Para os jogadores nós temos o IPG do Magic e o Comitê de Investigações, e para os Juízes nós temos a Esfera de Conduta que está sendo desenvolvida e colocando à disposição de todas as ferramentas necessárias para melhor arbitrar eventos e educar jogadores.
Piadas sexistas, palavrões e linguagem opressora, criam um ambiente hostil para as mulheres e não deveriam ser parte dos torneios de Magic. Mesmo quando o conteúdo não é ofensivo, quando proferido em torneios de Magic podem ser impróprios e inadequados. Todos nós já ouvimos histórias que começam com "Eu fui derrotado por uma garotinha", "Ela só está aqui para acompanhar o namorado", "Ela não é uma gamer de verdade" ou "Ela está aqui para conseguir atenção".
No começo eu não achava que tudo isso era um grande problema, mas por causa do que aconteceu comigo (mais sobre isso abaixo), eu tentei ser um pouco mais consciente sobre mim mesmo, eu tive conversas difíceis com grandes amigos e eu pesquisei muito na internet. Durante minha pesquisa eu encontrei histórias e depoimentos de eventos similares acontecendo em outros ambientes, tanto em ambientes profissionais quanto em convenções de lazer. Um exemplo é o incidente conhecido como ‘Elevatorgate’ (Portão do Elevador). Uma mulher participante de uma convenção ateísta foi abordada às 4 da manhã em um elevador do hotel por um homem que, muito gentilmente e de forma não ameaçadora, convidou ela para o quarto dele. O problema é que, apesar da gentileza, naquela hora da noite e em um lugar aonde ela não tinha saída, aquela mulher se sentiu extremamente insegura. A percepção dela neste tipo de situação é o que dita se isso é um problema ou não, o fato de alguém pensar que ela estava fazendo uma tempestade em um copo da água não diminuem as emoções dela e a forma como ela percebeu a abordagem. Um outro exemplo é um conjunto de eventos conhecidos como ‘Gamergate’, vamos lá, jogue isso no Google e veja os resultados, isso é o quão ruim as coisas podem ir quando uma comunidade não tem mecanismos de controle e regulação.
A coisa é séria, e se você está lendo isso, você também tem a capacidade de ajudar!

Aceitando a Responsabilidade
Eu devo admitir que eu agi errado em algumas ocasiões quando eu interagi com mulheres em eventos. Claro que minhas intenções nunca eram maliciosas, mas isso não muda o fato de que minha conduta deixou a desejar. Isso causou uma investigação da minha conduta do passado, o que causou uma suspensão de seis meses para mim.
Eu recebi sugestões e criticas de outras pessoas nesse assunto e agora eu entendo que eu preciso fazer um trabalho melhor para atender as expectativas que eu tenho como um líder na minha comunidade, que eu devo ser mais inclusivo e devo tratar todo mundo de maneira respeitosa. No passado eu agia de maneira errada seguindo um padrão de comportamento que feria a outras pessoas. Isso não era meu intuito e eu peço desculpas por isso.
Depois de conversar com meus amigos sobre meus erros eu percebi como namorar e flertar pode ser algo muito esquisito. Eu tenho certeza que outras pessoas cometeram os mesmos erros que eu. Eu nunca tive a intenção de tornar alguma situação estranha, intimidadora ou não acolhedora, mas no final o que importa é o efeito do que você fez e não suas boas intenções. Preocupo-me porque contribui para o problema, e agora eu gostaria de contribuir para a solução, contando minha perspectiva a outras pessoas na esperança de que isso fará com que muitos outros não se comportem de maneira inapropriada.
Também conversei com algumas de minhas amigas sobre estes erros e não foram conversas fáceis, foram conversas sobre meus fracassos, minhas inseguranças e vulnerabilidades e também sobre as vulnerabilidades delas, apesar de conturbadas, essas conversas valeram a pena. Foi importante para eu perguntar para uma mulher sobre o que eu estava fazendo, e eu pedia a elas para me explicar o ponto de vista delas e me dar dicas do que eu posso fazer para melhorar. Com o que essas amigas me disseram eu estabeleci mecanismos e critérios para eu aprender o que é inapropriado e o que não é.
Eu sou responsável pelas minhas atitudes e palavras e eu aceito isso. Apenas admitir o erro não é o suficiente, no entanto. É crucial aprender com as criticas e sugestões. Com as criticas que eu recebi, eu mudei a forma como eu abordo e interajo com mulheres.

Reconhecer os sentimentos d@s outr@s
Percepção é subjetivo. Quando nós tentamos ter um relacionamento romântico com alguém nós temos que pensar que talvez o que nós imaginamos como boas e doces intenções podem parecer intenções indesejáveis, intrometidas e até mesmo opressoras para outras pessoas. É triste saber que em nossa sociedade o homem é privilegiado em relação à mulher. Para os homens que estão lendo este texto, talvez não estejam conscientes disso, mas isso não diminui a sua responsabilidade. É importante entender que o privilégio masculino existe – e isso não é balela – e isso não significa que os que possuem este privilégio são malignos ou ruins. A responsabilidade que nós temos não é de sentir remorso, mas sim de reconhecer isso e usar todas as oportunidades que nós temos para mudar. A sociedade muda e evolui continuamente, e todos somos responsáveis por fazermos a diferença quando podemos.
Quando interagimos com outras pessoas é crucial que tenhamos em mente o sentimento alheio. A reação de outras pessoas a sua interação com elas deve ser tão considerada quando a nossa, não importa se temos os mesmos pontos de vista ou não. Se alguém se sente incomodado com nossa abordagem, ser ignorante ou inconsequente é algo que com certeza vai tornar aquela interação ainda pior, e isso não é legal. Esse conceito não se aplica apenas a mulheres, mas também com aquele jogador chateado que acabou de perder a partida para entrar no Top 8. Ele também merece compaixão e solidariedade. Esse tipo de mentalidade e solidariedade pode resolver muitos conflitos interpessoais quando aplicado de maneira geral.
Quando alguém começa a dar atenção a alguém que não pediu é extremamente difícil de falar do ponto de vista daquele que está recebendo essa atenção, especialmente na hora que isso acontece. Como uma comunidade, nossa conscientização das nossas ações e como nós temos um impacto nos outros é essencial. É de suma importância garantir um ambiente seguro para que as pessoas possam dizer o que pensam quando necessário. Há uma necessidade para a comunidade ser protegida, e nós temos que apoiar esse processo de desenvolvimento.

Atenção especial e respeitando os limites
Até agora nós falamos sobre ideias conceituais e sentimentos. Vamos conversar agora sobre como isso afeta o dia a dia dos torneios de Magic.
Imagine um jogador em um torneio de Magic. Ele (ou ela) terá seus próprios objetivos para o torneio; talvez a pessoa queira participar do evento para competir, talvez só para jogar por diversão, para ter algumas cartas assinadas e artes alteradas ou para trocar cartas por cartas. Os juízes e organizadores também têm expectativas para o torneio. Alguns vão desenvolver suas habilidades, outros tentarão melhorar como juízes, outros se desafiarão com maior responsabilidade, etc.
As motivações são diversas e cada um tem a sua, mas o que todos têm em comum é de querer uma experiência agradável. É possível começar um relacionamento em um torneio; eu pessoalmente tenho vários amigos que conheceram seus parceir@s em eventos. Não é proibido conhecer alguém e começar um relacionamento em um evento, mas o problema está quando algum participante que está lá para jogar, apitar ou trabalhar e recebe atenção especial por causa de seu gênero.
Você já deve ter ouvido a frase "não quer dizer não" como algo essencial em respeitar os limites do outro quando abordando alguém com uma intenção romântica. Quando nós tentamos interagir com uma pessoa com a intenção de romantismo nós devemos nos perguntar primeiro se a pessoa vai ter uma resposta positiva a nossa abordagem. Se a resposta que você espera é "Não", então você não deve tentar, por respeito à outra pessoa.
Na vida real, possivelmente o "Não" virá seguido de alguma explicação "Não, mas eu...". Um excelente conselho que eu recebi sobre isso é para não se preocupar com o que vem depois do não. Uma vez que você ouviu um "não", você deve apenas esquecer o caso. Ser rejeitado não é uma sensação legal, e é comum que as outras pessoas tentem deixar isso mais fácil para você quando você começa a dar atenção especial a alguém. O que segue o "não" é uma maneira que a outra pessoa tem para deixar a situação mais tranquila, para fazer a rejeição parecer menos estranha para a pessoa, você e todos à sua volta. Uma pessoa que dá uma resposta negativa não quer ser percebida de uma forma negativa: a mensagem que eles estão dizendo representa sim a escolha deles (ou delas), o que é de direito, mas não necessariamente representa eles (ou elas) como pessoa. A pessoa rejeitando na verdade está sendo generosa com isso, tentando fazer com que você não saia com a cara no buraco, e você deve aceitar isso com graça ao invés de achar que é um desafio que você deve superar. Fazer chacota ou menosprezar alguém que rejeitou você ou outra pessoa é desrespeitoso e deve ser evitado.

A chave está no contexto: diferenças culturais e espaço pessoal
Respeitar o espaço pessoal de cada um significa muito mais do que "não tocar" outras pessoas. Ser respeitoso com o espaço pessoal de alguém é uma habilidade social e é comum para algumas pessoas que tem dificuldade com habilidades sociais invadir o espaço pessoal de outra pessoa sem querer fazer isso.
O espaço pessoal varia de um individuo para outro, e é comum que isso dependa de muitas coisas, como por exemplo, quão familiar você é com a pessoa, o seu gênero, a confiança que ele ou ela tem em você, o ambiente aonde a interação acontece, a origem cultural, etc.
A suposição básica que eu uso quando viajando para outros lugares é de se adaptar e misturar, ou pelo menos adaptar as normas do meu ambiente. Como diz o ditado: "Em Roma, faça como os Romanos". Normalmente eu sou uma pessoa para frente, intensa, direta e apaixonada pelos meus interesses. Quando eu foco em algo, eu coloco todo meu esforço naquilo, e dificilmente sou indiferente às outras pessoas ao meu redor. Isso é uma faca de dois gumes, é algo que eu aprendi que agrada a muitos, mas também afasta outros muito facilmente.
Generalizar diferenças culturais e como lidar com espaço pessoal pode cair em muitos clichês usados, mas essas generalizações do que é comumente aceito servem um propósito. Elas proporcionam um guia do que esperar quando interagindo com pessoas de culturas diferentes.
Por exemplo, quando cumprimentando outras pessoas na Espanha nós normalmente damos dois beijos, um em cada bochecha quando o cumprimento é entre um homem e uma mulher ou entre duas mulheres. Dois homens apertarão as mãos a não ser que sejam amigos próximos ou parentes. E tudo isso pode mudar quando você está em um ambiente mais profissional. Por exemplo, eu já cometi gafes onde eu estava me curvando e me aproximando de uma mulher americana para beijar ela nas bochechas quando eu imediatamente percebi que algo estava errado.
Com certeza isso não seria considerado errado na Espanha, aonde a maioria da população tem os mesmos padrões que eu tenho, mas isso não é relevante aqui. É mais importante adaptar ao ambiente e ajudar os outros a aceitar as diferenças culturais e aceitar uns aos outros. Essas diferenças fazem nossa comunidade mais forte e mais rica, mas elas precisam ser tratadas com respeito em relação aos costumes alheios e regras sociais normais daquela região.

Concluindo
Este texto não foi fácil de escrever, mas mais do que escrever, isso tem sido uma auto avaliação dos meus motivos pessoais e de caráter pessoal. Ninguém gosta de pensar de si mesmo que já machucou alguém. Ninguém quer sentir que as outras pessoas pensam mal dela. Eu encarei esses sentimentos e a estrada do crescimento é a estrada em que eu estou agora.
Eu não sou o único juiz que já fez uma tentativa inapropriada de abordar alguém ou que inadvertidamente invadiu o espaço pessoal de uma mulher. Eu estou certo de que não sou o único que falhou em flertar com alguém em um evento, e piorou a situação por não entender o quadro total dos acontecimentos e como minhas atitudes estavam afetando a pessoa que eu estava interessado.
Mas eu aprendi com os meus erros. Como eu disse, eu gostaria de contribuir com a solução do problema compartilhando com as outras pessoas a minha experiência. Com sorte este artigo vai ajudar outras pessoas a perceber que, mesmo inconsciente, nosso comportamento para com as mulheres pode ser inapropriado, e isso é algo que nós devemos ser capazes de identificar e parar antes que se torne um problema maior. Todos nós podemos aprender, e podemos fazer melhor como uma cultura, como uma comunidade, tão simplesmente quanto às pessoas interagindo bem com outras podem aproveitar melhor do jogo.
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Comentários

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Seiz (06/10/2015 12:54:26)

Uma coisa muito comum, que infelizmente acontece, é uma garota ter que "provar que é gamer". "mas voce entende o jogo? Sabe jogar mesmo? conhece a lore? sabe mesmo como funciona campeonato?"

Isso nao acontece com caras. E se um cara nao sabe muito, sempre vai ter alguem pra ensinar.

E se a garota nao sabe, sempre rola um "Viu, sabia", e se alguem resolver ensinar, geralmente vai ser com uma segunda intenção.

O meio gamer em geral é extremamente machista e hostil para mulheres