Obsolescência programada e o magic

       

Por: laern em 03/11/15 14:07 | 2 comentários / 960 visitas

    Vivemos em uma sociedade de consumo. Isso significa que, para a economia se manter adequadamente, e aguentar o ritmo da produção em larga escala, é preciso também haver consumo em larga escala. Dentro desse paradigma, os bens de consumo ideais são aqueles que precisam ser trocados/ substituídos periodicamente. Talvez o senso comum de que "não se fazem mais geladeiras como antigamente", esteja certo, pois a indústria aos poucos percebeu que é mais vantajoso utilizar materiais de qualidade inferior, menos duráveis, porque há um duplo ganho: ao mesmo tempo que se barateia a produção, garante-se uma demanda futura pelo mesmo produto.
    Do ponto de vista da gestão dos recursos naturais do planeta, essa lógica contudo parece esquizofrênica. Ela gera o desperdício de materiais, alguns deles extremamente raros e que não podem ser substituídos. Mais ainda, se cria um novo problema com a necessidade de descarte e transporte desses resíduos cada vez mais volumosos. Contudo, esses custos geralmente não entram na contabilidade dos fabricantes, salvo pequenas exceções. Cabe ao Estado, custeado por todos nós, a responsabilidade pela coleta desse lixo, ou seja, esses custos são externalizados, coletivizados e bancados pelo conjunto da sociedade.
    E esse nosso joguinho de cartas de papelão existe dentro desse universo, abiguinhos. Do ponto de vista mercadológico, a criação do tipo 2, depois renomeado de standard (padrão?) possibilitou a sua empresa favorita garantir a continuidade quase infinita da venda de seu produto. Cada nova rotação impulsiona os jogadores que pretendem se manter no circuito competitivo principal (e mesmo local) a adquirir as cartas da nova coleção. Cartas raras onipresentes (Thragtusk, cadê você?) vão para o fundo das gavetas. Realmente, uma jogada de mestre.
    Sem dúvida que, para a saúde do jogo, o Standard também tem vantagens. Sem algum tipo de limitação ao uso de todas as cartas já lançadas, seriam dois os caminhos: 1) As novas coleções, pressionadas pelas expectativas dos jogadores, aumentariam cada vez mais o power level, tornando as cartas antigas totalmente obsoletas e entrando em uma espiral que, vinte anos depois, já teríamos criaturas 5/5 por G; ou 2) Segurando o power level, não haveria incentivos aos jogadores adquirir as cartas novas, preferindo se manter na segurança das cartas antigas, levando a falência da Wizards. Contudo, sendo pragmático, acho que o fator comercial com certeza tem muito mais a cara de política de empresa. Outras iniciativas e ações mostram que no final das contas, os Magos da Costa estão pouco se f nem aí para a comunidade de jogadores.
    E a escolha do Modern como formato eterno preferido nos últimos tempos? Nas devidas proporções, pode ser encarado como um novo "reset" no jogo. Antes dele já tivemos outras experiências (legacy, extended, volta do legacy, redefinição do extended) de fazer um novo formato "eterno". Contudo, acho que o modern foi a experiência mais bem sucedida: ajudou a vender trocentos produtos paralelos (modern masters 2016 vem aí, e 100% de chance de mais um reprint de Tharmogoyf). A Uízards, apesar de jogar boa parte de suas fichas no T2, tem que possuir um formato de maior alcance que incentive que seus clientes mantenham e possam usar as suas coleções das cartas broken passadas.
    Quais as alternativas que nos restam? trocar um filho por um Jace, e levar a carta no bolso quando for andar na roda gigante? Ir jogar heartstone e dar ibope para a blizzard?... Primeiro, ter consciência de como as engrenagens dessa máquina funciona já te deixa em uma grande vantagem. Se mesmo assim você decidir que a diversão tá valendo a pena, ou você é/pretender ser profissional, faça como o Naldo: se joga, se joga, no meu colo e vem.
    Caso contrário, siga os mandamentos do Marquinhos Água-Rosa. Ele mesmo disse uma vez que Magic não é apenas um jogo, mas sim é uma plataforma para diversos formatos de jogo. Dá pra se divertir em formatos mais casuais, onde se pode ter um deck tier 1 perdendo apenas um dedinho mindinho do pé, como pauper. Inclusive temos pauper pelo MOL, em algumas lojas locais e um nacional pauper pra quem acha que não dá pra tirar uns trocados com o formato.
    Se o seu problema com formatos eternos é a falta de renovação por não ter rotação, pense (com carinho, sem hate) no standard pauper. O número de cartas a disposição é ultra-limitado? É, mas até parece que o standard atual também não se concentra em 10 cartas raras/míticas além das bases de mana... Toda semana rolam dois torneios no mol de standard pauper, com inscrição gratuita, administrador por players by players, e com premiação patrocinada por bots fuderosos como mtgotraders e cardhoarder... é possível ver que o metagame é bem sadio, nada de 100% decks com treasure cruise (apesar dela ser mamáquina e ser o único formato onde você ainda poder soltar esse filhote de ancestral recall no lategame). Fora que std pauper é um formato perfeito para os novinhos que pretendem provar desse jogo maravilhoso, uma porta de entrada para esse mundo onde nerds obesos se juntam suados em lojinhas minúsculas se acotovelando para sentir o cheiro de cartinhas recém saídas de boosters.
    E aí? bora? bora jogar uma?







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Comentários

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- 04/11/2015 00:00
Muito jogador T2 gasta muito mais que uma geladeira por rotação, então não, não é menos nocivo que a história da geladeira.
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- 03/11/2015 21:56
e verdade. consumo consciente é a palavra de ordem. mas ainda acho q o nosso jogo e bem menos nocivo q a historia da geladeira.