(Lore) Destino Reescrito 06: Sem Fim e Sem Começo

       

Por: Alysteran em 20/07/18 00:13 | 3 comentários / 353 visitas

Olá, pessoal

 

O conto de hoje apresenta Dagathar, khan dos Abzan da época da batalha entre Ugin e Bolas, e a soberana dragoa Dromoka. Na semana que vem teremos o último capítulo de Destino Reescrito.

 

Para outros contos oficiais adaptados para o português, incluindo a história completa de Khans de Tarkir que precede Destino Reescrito, vejam o Índice de Artigos Traduzidos.

 

Abraço!

 

Alysteran

 

________________________________________

 

SEM FIM E SEM COMEÇO

 
 
Texto original em inglês: NO END AND NO BEGINNING
Publicado em Magic Story em 11 de fevereiro de 2015

 

 

Muitos anos se passaram desde que Sarkhan Vol alterou o destino de Tarkir salvando Ugin do perverso Nicol Bolas e encapsulando o enfermo Dragão Espírito em um casulo de pedra. Desde então, as tempestades dragônicas que geram jovens dragões em Tarkir não apenas continuaram – elas se intensificaram – como que enfurecidas pelos ferimentos de Ugin.

 

Poucos em Tarkir conhecem a razão por trás da fúria das tempestades, mas todos podem ver seus efeitos. O que um dia foi um delicado equilíbrio entre clãs e dragões está se tornando uma derrota desordenada. Cada mês traz novos dragões e novas perdas.

 

Nos Ermos Mutáveis, as Casas Abzan enfrentam inimigos no mínimo tão bem adaptados à sobrevivência no deserto quanto elas mesmas: a grande dragoa Dromoka e sua prole. Sem lugar para se esconderem, os Abzan perderam mais para as incursões renovadas dos dragões do que qualquer outro clã.

 

Daghatar, khan dos Abzan, precisa escolher seu curso de ação com sabedoria para que seu povo resista.

 

________________________________________

 

Os ventos rugiam sobre a cidadela de pedra de Mer-Ek, assento do khan Abzan. As tempestades tinham se tornado mais frequentes durante o último ano, e raramente havia um intervalo entre elas. Os ventos eram constantes, e, no deserto, também eram mortais. Nos momentos mais fortes, os ventos e as areias podiam esfolar a carne de um íbex, ou de uma pessoa desprotegida. As fortalezas se moviam com menos frequência. As reservas de comida e água estavam em seus menores níveis em toda a história do clã. Mas nenhuma tempestade poderia representar uma crise ruim o suficiente para trazer os anciões Abzan de todos os cantos do império até o seu centro de poder.

 

Daghatar, khan dos Abzan, sentava-se à cabeceira de uma longa mesa de mármore. Ela estava arranhada e marcada, manchada e gasta por gerações de conselhos que se reuniram naquele local. Cada assento estava ocupado; vinte dos melhores e mais sábios do clã estavam presentes, e, pela tradição que remetia ao Khan Burak, Daghatar não falou até que tivesse ouvido por completo as palavras de cada um de seus conselheiros. Ele falaria por último, e essas seriam as palavras finais do assunto.

 

Daghatar, o Inflexível | Arte de Zack Stella

 

Sabendo disso, seus conselheiros estiveram falando e discutindo por duas horas. Era uma crise existencial para o clã, e ninguém queria que uma decisão fosse tomada sem a certeza de que tinham falado tudo o que havia a ser dito. Daghatar descansava seu queixo na mão, cansado, mas atento, enquanto a batalha esquentava à sua frente.

 

“O que você sugere é absurdo! Você fala da prole Dromoka como se fosse uma força da natureza. Só nos últimos seis meses, meus guerreiros derrubaram três dragões. Isso, além dos dois que nosso khan abateu com sua própria clava! E não estou falando de filhotes – aquele que era conhecido como Korolar tinha uma envergadura de vinte jardas! Sim, nós sofremos perdas, mas podemos vencer essa luta!” Quem falava era Reyhan, comandante das forças de três Casas reunidas, e a única líder militar a alcançar qualquer sucesso consistente nos últimos dois anos. “Assumindo que vocês, seus covardes, não decidam desistir de nós.” Ela passou os olhos pelos presentes. Cada vez menos pessoas eram capazes de sustentar seu olhar.

 

O homem à direita de Daghatar começou a aplaudir, lentamente. “Sim, bom trabalho. Bom trabalho! E você pendurou seus troféus nos seus portões como um bárbaro Mardu? Vinte jardas! Uma vitória incrível. Cinco em seis meses! Um feito extraordinário. E ainda, nesse mesmo período, quantos dragões nasceram das tempestades?” Esse era Merel, tio de Daghatar – um homem que, em seus dias mais jovens, rejeitara a proposta para se tornar khan. “Meus batedores identificaram dezesseis. E esses foram apenas os meus batedores. Dromoka se empoleira a não mais do que vinte e cinco milhas daqui, e através das tempestades ela convoca mais e mais para o seu lado. Ela não comanda apenas outros dragões, ela comanda um exército. E não acho que eu precise lembrar ninguém do que aconteceu quando a enfrentamos diretamente. Reyhan, você é uma mestra da guerra de atrito. Minha matemática talvez esteja um pouco enferrujada, mas, por favor, esclareça para mim por que você pensa que essa situação teria alguma chance de virar a nosso favor?”

 

A testa de Daghatar se franziu ainda mais. Ele tinha esperança de que os líderes Abzan pudessem se unir, e que sua sabedoria coletiva forneceria um caminho que ele ainda não tivesse concebido. Mas, ao invés disso, eles pareciam apenas confirmar seus maiores medos.

 

Reyhan encarou de volta. “Eu tenho ouvido um monte de críticas de você, velho, e nenhuma solução. Nenhum de vocês ofereceu um plano melhor do que resistência. Minha solução é simples. Reunimos nossas forças remanescentes e vamos direto para a fonte. Chamamos todos os nossos homens e mulheres capazes de lutar, chamamos cada ancestral disposto a escutar, e atacamos o coração da ninhada. Derrubamos Dromoka, e suas crias vão se dispersar. O resto de Tarkir pode defender a si mesmo até que as tempestades amainem e os ventos mudem. Como nós sempre fizemos.”

 

A réplica de Merel mal era um sussurro. Seus olhos brilharam com pesar. “Você não estava lá, Reyhan. Não viu o que ela nos fez. Nós perdemos mais de mil soldados, e nem a arranhamos. O que você defende é o fim dos Abzan.”

 

Cerco à Cidadela | Arte de Steven Belledin

 

O aposento caiu em silêncio. A expressão de Reyhan se abrandou e ela abaixou a cabeça. “Eu não ouvi nada hoje que não leve a esse destino, velho amigo. Estou tentando nos oferecer um fragmento de esperança, ou, se isso falhar, um final do qual possamos nos orgulhar.”

 

Ninguém falou. Tudo o que precisava ser dito já fora dito, e a verdade estava clara na mesa diante deles. Daghatar levantou-se, e todos se endireitaram em seus assentos.

 

“Eu ouvi o sábio conselho de vocês, e agradeço a cada um por isso. De um lado, temos uma guerra que dificilmente venceremos. Do outro, temos um cerco ao qual dificilmente sobreviveremos. Não vou subestimar a situação: nós podemos estar encarando o fim dos Abzan. Assim sendo, não vou agir precipitadamente. Os ancestrais devem ser consultados. Mas, o que quer que seja decidido, eu estarei com vocês até o final. Estão dispensados.”

 

________________________________________

 

O quarto do khan era austero. Daghatar era um homem próspero de uma família poderosa, mas nada disso estava à mostra no único espaço que ele não tinha que compartilhar com mais ninguém. Nenhum servo limpava esse aposento, e nunca nenhum visitante viu seu interior. Era uma esquisitice para pessoas que se orgulhavam tanto da vida em comunidade, mas ele era o khan, e podia ter suas ocasionais excentricidades. Mesmo assim, ele não estava sozinho de verdade ali. Não com a Lembrança.

 

Ela o observou entrar, e ele sentiu seu olhar sobre si. Era o fardo de todo khan, remetendo a dezenas de gerações. Ela descansava em um lugar de honra, e era uma inspiração para aqueles que a contemplavam. Mas nem tanto para aqueles que a tinham portado. Para eles, era um fardo terrível. Mas, em tempos sombrios, era uma arma e um recurso como nenhum outro.

 

A Lembrança.

 

Contava-se que ela tinha vindo de uma das primeiras árvores de família, ligada a alguns dos primeiros Abzan: aqueles que sobreviveram, aqueles que aprenderam, aqueles que perseveraram quando a própria vida parecia impossível. Esses espíritos grandiosos nutriram aquela arvoreta até que se tornasse uma imensa árvore robusta. Seus galhos erguiam-se além das muralhas de Mer-Ek, dizia-se que ainda mais alto do que os distantes pináculos dos Jeskai, uma verdadeira montanha de madeira, casca e folhas, crescendo, vicejando, apesar dos rigores do deserto. Daghatar frequentemente pensava que aquilo devia ter sido uma afronta aos céus, e então os céus finalmente a trouxeram abaixo. No meio de uma grande tempestade, um raio a atingiu, despedaçando a árvore até seu cerne. E lá, eles o encontraram. O ancestral coração de âmbar da árvore, pulsando com o poder daqueles há muito mortos, fundidos em uma só consciência. O coração de âmbar foi forjado em uma clava, e era carregado pelos khans Abzan desde então.

 

Se tivesse sabido o que aquilo era de verdade, Daghatar talvez nunca tivesse aceitado o título.

 

O âmbar rodopiou e pulsou com uma luz fluida – seus movimentos aceleraram quando o sentiu se aproximar. Daghatar esticou o braço para ele e hesitou um pouco antes de agarrar o punho envolto em couro. A voz esmurrou sua mente como uma fera em pânico.

 

“Covarde. Fraco. Você tem nos evitado. Você teme seu dever tanto assim?”

 

Daghatar respeitosamente ergueu a clava e envolveu a cabeça de âmbar com sua mão esquerda. Os anciões não lhe forneceram a orientação de que ele precisava, mas os ancestrais nunca haviam lhe falhado. Ele sentou-se, respirou fundo, e tentou manter o cansaço e o ressentimento fora de sua voz. “Pelo contrário. Eu temo o que pode acontecer se meu dever não for cumprido. Mas sim, eu tenho me contentado com o conselho sábio dos vivos.”

 

“Os vivos. Sim. Com tanto medo do que pode perder, acaba perdendo de vista aquilo pelo que você é responsável. Seus deveres são maiores do que uma vida, ou dez mil vidas. Seus deveres são para com cada Abzan que um dia viverá.”

 

Ascendência Abzan | Arte de Mark Winters

 

Daghatar fechou os olhos. “Pelo caminho que temos seguido, esse não será um número lá muito grande.”

 

Ele sentiu uma onda de contentamento vinda do coração de âmbar. “Só se você falhar. Você já amoleceu tanto para aceitar falhar? Será que você vai se reconfortar enquanto estiver morrendo, dizendo para si mesmo que se resignou a aceitar a aniquilação do seu povo porque seu caminho foi difícil?”

 

“Eu estou disposto a aceitar seus insultos em troca do seu conselho. Há duas opções disponíveis para nós, e nenhuma delas parece nos dar muita chance. Dromoka e sua prole não são como os outros dragões. Eles são poderosos, sim, mas também protegem uns aos outros. Eles trabalham em conjunto, e estão acostumados aos rigores do deserto. Estamos em guerra contra um inimigo que possui nossos próprios pontos fortes em uma quantidade ainda maior do que nós. Podemos fazer o que sempre fizemos, manter nossas defesas firmes, mas os dragões estão crescendo tanto em número quanto em poder, e nossos suprimentos não vão durar para sempre. Ou podemos atacar a líder da ninhada, e torcer para que o resto se disperse para outras regiões.

 

“Mas me pergunto se mesmo isso seria o suficiente. Eu tenho ouvido notícias dos outros khans, e não há um lugar sequer em Tarkir que tenha sido poupado das tempestades dragônicas. Nós podemos repelir uma ninhada, mas é quase certo que outra tomaria seu lugar depois de um tempo. Se há uma terceira opção, eu ainda não a descobri. Então, o que vocês sugerem que eu faça?”

 

Houve um breve silêncio vindo da Lembrança.

 

“Na primeira crise que você me trouxe. Um assunto insignificante. Você tinha acabado de perder uma patrulha, capturada pelos Sultai, e queria montar uma equipe de resgate. Você chorou quando eu forcei a verdade para dentro da sua cabeça, que a coisa mais difícil que um khan faz é perder, e sobreviver para vencer a próxima batalha. Você perderia cinco vezes aquele número no resgate do que já tinha perdido para os Sultai. Você os puniu na estação seguinte, e os espíritos dos caídos foram trazidos de volta para casa. É isso o que significa ser Abzan. Sofrer uma derrota e mesmo assim não perder nada da sua força. Você fará isso novamente. A força dos Abzan é suficiente para superar essa fera, e não importa quantos perca, você vai garantir que haverá um futuro para aqueles que permanecerem. Khan Daghatar, você está pronto para fazer o que precisa ser feito?”

 

O khan ponderou as palavras da Lembrança por um longo tempo.

 

“Sim. Eu acho que estou.”

 

________________________________________

 

O céu estava claro, mas o vento estava forte. O elmo de Daghatar ecoava com a constante batida de areia contra o aço. Sua máscara o protegeu da pior parte dela, mas ele ainda tinha que espremer os olhos enquanto sua companhia se aproximava do local de encontro. Um grande afloramento de rochas entrou em seu campo de visão. A postura de Merel mudou, mas ele se manteve ao lado do sobrinho – aquele era o local da primeira batalha contra Dromoka. Mil Abzan tinham caído nessas dunas, mas o tempo e o deserto tinham apagado qualquer traço dos mortos. Mesmo assim, era um lugar sagrado, cheio de significado. Daghatar podia senti-lo.

 

Planície | Arte de Noah Bradley

 

Enquanto se aproximavam, podiam ver um punhado de pessoas esperando por eles entre as pedras. A maioria estava vestida ao estilo Abzan, apesar de não exibirem a insígnia de nenhuma casa. Uma aversão instintiva contra aquelas pessoas brotou no khan, mas ele reconheceu a verdade por trás desse sentimento. Daghatar apertou a Lembrança, e continuou marchando através da tempestade.

 

As pedras forneciam algum abrigo do vento, e os homens de Daghatar afrouxaram suas máscaras e elmos o suficiente para tomar um gole de água. O khan olhou os rostos dos enviados e manteve a expressão impassível. Os enviados fizeram uma profunda reverência, e Daghatar retribuiu o gesto.

 

“Daghatar, khan dos Abzan. Em nome da Eterna, nós damos-lhes as boas-vindas. Meu nome é Sohemus.”

 

“Você é bem-vindo às minhas terras, Sohemus. Apesar de que, dadas as circunstâncias, eu aceito as suas boas-vindas. Mas não estou aqui para falar com você. Onde está sua mestra?”

 

Sohemus abaixou a cabeça raspada em uma mesura. Ele tinha a aparência de um peregrino Jeskai. “A Eterna se juntará a nós quando convier a ela. Enquanto isso, eu lhe explicarei os protocolos que devem ser seguidos. Quando você falar, olhe para ela. Ela falará apenas dragônico, e eu traduzirei. Não olhe nem se dirija a mim de qualquer modo.”

 

Daghatar ergueu um pouco a cabeça, então assentiu. “Muito bem. Mais alguma coisa?”

 

“Eu quero apenas lembrá-lo de que não foi garantida nenhuma trégua para este encontro. Nós não podemos garantir sua segurança, tendo em vista aquilo pelo que ela acusa o seu povo.”

 

“O quê?” O coração de Daghatar disparou conforme a fúria o envolvia. “Do que ela nos acusa?”

 

Sohemus fez outra reverência com a cabeça, estendendo as palmas das mãos. “Não sou eu que devo discutir isso.” Sohemus hesitou, e um sorriso estranho apareceu em seu rosto. “Ah. Você não terá que esperar mais tempo. Ela está vindo.”

 

Dromoka, a Eterna | Arte de Eric Deschamps

 

Daghatar olhou para o céu e não viu nada além da luz cegante do sol. Então a luz diminuiu. Uma forma gigantesca desceu, as asas tão grandes que encobriam a tempestade de vento. Os homens no chão sentiram pulso depois de pulso do ar que era empurrado para baixo conforme a dragoa pousava diante deles. Dromoka era enorme, com facilmente três vezes o tamanho do maior presa de marfim que Daghatar já vira. Suas escamas eram espessas, variando do bronze ao perolado, e nem mesmo uma parecia exibir um arranhão. Milhares de flechas, lanças e espadas já tinham se quebrado contra aquelas escamas. E aqui estão elas, Daghatar pensou, completamente intactas depois de todo o esforço.

 

O khan deu um passo à frente e fez uma mesura. A dragoa abaixou ligeiramente a cabeça em resposta. Ela parecia estudá-lo, como uma pessoa faria ao ver um tipo diferente de besouro. A dragoa falou, um som estrondoso que o friccionava como nenhum que ele já tivesse ouvido antes. Ele resistiu ao instinto de se virar em direção a Sohemus enquanto este traduzia.

 

“Eu concedo-lhe esta audiência, Daghatar dos Abzan, embora não compreenda o que você espera conseguir com ela.”

 

Daghatar olhou para cima para encarar a dragoa. Ele sentiu como se estivesse se dirigindo a uma fortaleza. “Grande e poderosa Dromoka. Eu vim aqui buscando o fim das hostilidades entre os Abzan e sua prole.”

 

A dragoa fez um som, um estrondo que ele sentiu como um terremoto em seu peito. Levou um momento para Daghatar perceber que aquilo era uma gargalhada. Sohemus traduziu o que ela disse a seguir. “Isso não será possível. Sua tribo de necromantes é uma mácula nas terras de Dromoka que ela não pode tolerar.”

 

“O quê? Necromantes? Eu não entendo. Você se refere aos Sultai, Dromoka. Nós nunca praticamos as artes abomináveis deles.”

 

A dragoa abaixou a cabeça enorme para olhar Daghatar quase no olho. Sua expressão parecia ser de curiosidade. Quando ela falou, o calor vindo de sua boca eclipsou o sol escaldante.

 

“Vocês aprisionam seus mortos para lhes servirem. Necromancia. Você até mesmo traz tal espírito sombrio para a presença de Dromoka, e ainda olha para ela e nega isso? E mesmo assim você parece sincero. Explique essa contradição.”

 

Reunir os Ancestrais | Arte de Nils Hamm

 

Daghatar olhou para baixo, para a Lembrança. “Você se engana. Esses são nossos honoráveis ancestrais. A sabedoria deles nos auxilia e nos guia. É tradição, nosso caminho. Nós não podemos...”

 

Ela o cortou, a fala dragônica tornou-se um rugido. Sohemus se encolheu diante da explosão dela, e fez uma pausa antes de traduzir.

 

“Os vivos servem os vivos, e os mortos se vão para além de nós. Esse é o caminho natural, e... ela tem fortes objeções contra aqueles que desafiam esse caminho.” A dragoa continuou, em uma voz mais suave. “Dromoka quer que você saiba que ela tem estudado o seu povo, e vê muito o que respeitar nele. Vocês servem uns aos outros com coragem e são mais fortes juntos do que separados. Vocês compreendem sacrifício e força. Mesmo sua tradição dos krumar não é diferente do que ela instituiu entre os humanos que juraram servi-la. Mas, enquanto seu povo estiver infectado pela necromancia, nossa prole continuará a limpar o deserto de vocês.”

 

Daghatar olhos nos olhos da dragoa por um longo tempo.

 

A voz da Lembrança atingiu sua mente. “Tolo. Você não pode deixar essa oportunidade passar. Você não está aqui sob um estandarte de trégua, e essa fera prometeu matar a todos nós. Nunca mais você chegará tão perto novamente. Erga-me. Abata o seu inimigo, agora.”

 

Daghatar agarrou o punho da Lembrança. Ele se preparou e deu um passo à frente.

 

“Dromoka, nossos ancestrais nos guiaram por séculos. E eu compartilharei com você o conselho mais verdadeiro que eles já me deram. Eles me lembraram de que os deveres de um khan são maiores do que a vida, ou dez mil vidas. Eu tenho uma responsabilidade para com as vidas de cada um de nossos descendentes, até o fim dos dias. Me lembraram de que, para ser Abzan, devemos sofrer uma derrota e mesmo assim não perder nada da nossa força. E de que devemos fazer o que é necessário, mesmo que seja duro. Mesmo que seja impensável.”

 

Ele andou na direção da dragoa sem medo. Dromoka não hesitou, mesmo enquanto ele chegou a um braço de distância. Ele podia sentir a Lembrança pulsando com poder e ansiedade. Ele sussurrou sob a própria respiração enquanto erguia a clava.

 

“Perdoe-me.”

 

Daghatar bateu com a cabeça da clava contra uma pedra sob seus pés. O âmbar rachou, e a voz da Lembrança explodiu em mil gritos de agonia e fúria. Ele bateu de novo, e de novo, até que a pedra tivesse se despedaçado em milhares de fragmentos brilhantes. A voz ficou em silêncio. Os ancestrais se foram.

 

Estilhaçar | Arte de Tim Hildebrandt

 

Ele soltou um suspiro lento e se curvou sobre um joelho. “Merel. Você levará a mensagem a cada casa. Desenraizem cada árvore de família. A prática da necromancia é declarada proibida.” Ele ergueu os olhos para Dromoka. “Isso é suficiente?”

 

A dragoa assentiu.

 

Merel de repente parecia muito mais velho. “Filho, casas inteiras se rebelarão. Você está falando sobre darmos as costas para todas nossas tradições. A destruição dos nossos ancestrais! Sobre guerra civil!”

 

“Sim. Mas haverá um futuro para aqueles de nós que restarem.”

 

Ele abaixou os olhos para os fragmentos da Lembrança em silêncio. Conforme o vento soprava, os fragmentos eram levados embora, montículos brilhantes perdidos para as areias. Em apenas minutos, não havia traço para ser encontrado.

 

 

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Capítulo anterior: Destino Reescrito 05 - A Perdição da Presa de Ouro

Próximo capítulo: Destino Reescrito 07 - A Queda dos Khans






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Comentários

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Ashy (24/07/2018 15:26:16)

Excelente!!!

Alysteran (20/07/2018 11:33:40)

o_o

Juan_Cruz_ (20/07/2018 09:55:12)

!!