(Lore) Retorno a Ravnica 01 - Capítulo 01

       

Por: Alysteran em 12/01/19 19:56 | 0 comentários / 481 visitas

Olá, pessoal

 

Este é o primeiro capítulo do meu novo projeto de traduzir os livros de Retorno a Ravnica, de Doug Beyer, lançados entre 2012 e 2013. Espero que essa história os entretenha e ajude a compreender o que ocorre em Ravnica neste bloco atual.

 

Os livros são curtinhos, porém com meu emprego atual é possível que eu demore para conseguir traduzir tudo. São três livros no total, um para cada coleção: Retorno a Ravnica, Portões Violados e Labirinto do Dragão. Cada post do blog deverá conter um capítulo, e farei um PDF para download quando todos os capítulos de um livro estiverem traduzidos.

 

Para outros contos oficiais adaptados para o português, incluindo a história completa do bloco de Tarkir, veja o Índice de Artigos Traduzidos.

 

Abraço!

 

Alysteran

 

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RETORNO A RAVNICA: O SECRETISTA - PARTE UM

 

 

Autor: Doug Beyer

 

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CAPÍTULO 01 - BATENDO EM PORTAS

 

Título original em inglês: Knocking on Doors

 

Jace Beleren segurou uma folha de pergaminho perto da janela. Espremida entre torres muito mais altas do Décimo Distrito de Ravnica, a construção só tinha alguns andares acima do nível da rua, mas uma luz noturna gélida refletia-se nos tijolos e nas pedras através do vidro. Manchado de tinta e marcado magicamente com seu selo de mago exclusivo, o pergaminho estava coberto de anotações sobre o código que ele tinha encontrado. Sua caligrafia tinha uma aparência que ultimamente se tornava cada vez menos sã. As paredes do santuário estavam cobertas de páginas como essa. Jace se perguntou quando tinha lavado o cabelo pela última vez ou tido uma noite completa de sono. Ele torceu para que o outro pesquisador, um homem vedalkeano chamado Kavin, não tivesse percebido que ele estava ficando direto no edifício que abrigava o santuário, dormindo apenas quando estava incapaz de manter os olhos abertos por mais tempo, sem nem mesmo andar do lado de fora até os mercados ou os vendedores de rua no distrito que o cercava. Sua cama tinha se transformado em uma pilha de anotações, sua mobília eram os estranhos pedaços de construções arquitetônicas coletados pelo Décimo, e seu principal alimento era a ponta roída de sua caneta tinteiro.

 

A descoberta – a atual obsessão de Jace – tinha vindo gradualmente. Ele não a reconhecera como um código quando a vira inicialmente, e na verdade não tinha percebido mesmo nenhuma conexão até vê-la se manifestar algumas vezes pelo distrito.

 

Ele quase passara reto por ela da primeira vez. Não era incomum ver um grupo de magos da guilda Izzet desenterrando uma camada de paralelepípedos da rua. A guilda deles era encarregada da manutenção de grande parte da infraestrutura mágica da cidade, e quando aconteceu de Jace passar enquanto eles trabalhavam ao longo de uma estrada do Décimo, ele ignorou as atividades deles. Mas Jace viu que os magos Izzet tinham desmontado um antigo pedaço de pedra do meio-fio, e, conforme eles trabalhavam arduamente em uma extensão de tubos de vapor expostos e conduítes elementais, ele percebeu que o pedaço de pedra jogado de lado tinha um padrão entalhado no lado de baixo. Tinha sido desgastado pelo tempo e estava semicoberto por teias de aranhas, mas Jace podia ver uma série de marcas curvas ao longo de sua superfície, como uma procissão de parênteses geometricamente perfeitos.

 

Jace achou curioso que tivessem tomado tanto cuidado ao entalhar um padrão na superfície inferior das pedras, um lado que nem mesmo seria visível para quem estivesse na rua. Mas não pensou nisso novamente até que o código aparecesse em uma nova forma.

 

Um antigo e mal cuidado bairro do Décimo estava sendo escavado. Um dia Jace parou e observou enquanto um ciclope corpulento com manoplas crepitantes de mizzium demolia os restos de uma fábrica têxtil. O ciclope levantou grandes lajes de pedra e as arremessou sobre um monte de escombros, provavelmente para abrir espaço para um novo experimento Izzet. Jace viu que a pedra descartada fora entalhada com uma sequência de triângulos.

 

Reconhecendo aquilo como um código, Jace omitiu os detalhes de Kavin, seu companheiro de estudos e confidente, que fora de grande ajuda em encontrar outras ocorrências daquele padrão geométrico, coletando entulho, mapeando a localização de outros avistamentos e, ocasionalmente, dando cobertura a Jace quando este se esgueirava em territórios de guilda restritos em busca de mais peças do código. Mas Kavin era um homem lógico e prático – não era dado a impulsos obsessivos. Se Jace demonstrasse o quanto esse código tinha tomado cada momento de sua consciência enquanto estava acordado, Kavin abandonaria o projeto.

 

Os olhos de Jace ardiam. Ele os apertou bem fechados por um momento e esfregou as pálpebras. Eles tinham muitas amostras, mas nenhuma resposta. As peças não se encaixavam. Havia regularidades e padrões nas formas sinuosas gravadas nas pedras, mas nenhuma sequência, nenhuma mensagem. Algo estava faltando.

 

Houve uma batida na porta no andar de baixo.

 

 

Em uma câmara esquecida do submundo, a muitas horas de caminhada abaixo do nível das ruas, uma antiga parede de tijolos começou a brilhar. Relâmpagos azuis dançaram ao longo das bordas dos tijolos. A argamassa velha começou a soltar fumaça e chiar. A parede explodiu para dentro da câmara, os tijolos caindo em um amontoado, deixando um buraco grosseiro de formato oval.

 

O planeswalker Ral Zarek passou pelo buraco que acabara de fazer. Poeira dançava pelo ar úmido e com cheiro de decomposição enquanto os instrumentos em sua manopla tilintavam e giravam, o mana remanescente de seu feitiço cintilando para fora.

 

Ral estremeceu e colocou a mão sobre o nariz. Ele chutou um tijolo com a bota e bufou. “Ugh. Skreeg, me diga que este não é o lugar certo.”

 

Um goblin vestido em armadura Izzet pulou para dentro da câmara, olhando ao redor com as mãos entrelaçadas. Ele vasculhou a bolsa e retirou um dispositivo Izzet de detecção de mana recém-construído e o balançou pela câmara.

 

“Sim!” Skreeg respondeu. “As concentrações são mais altas aqui! Tem que ser aqui.”

 

Um grupo de magos Izzet seguiu Ral e Skreeg para dentro da câmara, onde começaram a investigar os arredores com magias analíticas e dispositivos alquímicos, iluminando o local conforme energias mágicas brilhavam através da névoa úmida.

 

Ral andou pela câmara, empurrando cortinas de musgo de lado e pisando sobre antiquíssimas colunas caídas. Ele se ajoelhou para investigar algo coberto por raízes doentias. Ral ergueu uma gavinha coberta por musgo de uma protuberância e recuou. A face cinzenta de uma caveira sorriu através da folhagem com alguns dentes pontudos. Ral respirou fundo e deixou o impulso de luta ou fuga desaparecer.

 

Ele se virou para os outros. “Estamos prontos?” perguntou. “Skreeg, a serpentina de mana. Carregue-a logo.”

 

Skreeg colocou uma escultura de bronze espiralado no chão. Os outros pesquisadores magos Izzet se colocaram ao redor do dispositivo alquímico e começaram a operá-lo com estardalhaço. Gemas carmesim e turquesa se acenderam ao longo de sua extremidade e ele começou a fazer um zumbido baixo.

 

“Quase pronto, senhor,” o goblin disse.

 

“Quase? Acha que o Grande Mente de Fogo ficaria satisfeito com ‘quase’?”

 

“Lamento, meu colega, mas leva algum tempo para as serpentinas—”

 

“Conecte a uma fonte mais forte,” Ral rebateu sem paciência. “Se essa câmara tem uma das linhas de força passando por ela, então deve ter uma fonte de mana debaixo dela – uma fonte antiga, provavelmente há séculos sem ser usada.”

 

“Realmente tem uma fonte profunda aqui,” disse uma dos outros magos Izzet, com os olhos fechados.

 

“Mas as serpentinas vão sobreaquecer,” disse Skreeg. “Elas vão se ligar diretamente ao poço de mana. Esse tanto de força—”

 

“Direcione todo o mana para mim,” disse Ral. “Eu vou conseguir dizer imediatamente se essa é a linha que nós deveríamos estar seguindo.”

 

O som do bater das mandíbulas de insetos ecoou de um dos corredores antigos que chegavam à câmara. Os magos Izzet congelaram.

 

“Quem está aí?” Ral perguntou em direção ao corredor.

 

Ele tentou enxergar o que havia lá, mas a luz dos instrumentos Izzet não conseguia penetrar a escuridão. Houve o som de algo raspando, como uma casca de ovo sendo passada em um pedaço de porcelana – e mais ruídos de mandíbulas estalando, dessa vez acompanhados pelo som de passos. Muitos passos.

 

“Encerrem seus experimentos antinaturais,” sibilou uma voz vinda da escuridão. “Deixem esse lugar. O Mestre de Guilda Jarad reivindica esse território para o Enxame Golgari.”

 

Um pequeno grupo de elfos e humanos pálidos com dreadlocks avançou para a área iluminada. Pedaços de ossos e de sujeira trançados em seus cabelos emaranhados retiniam baixinho. Suas armaduras quitinosas estavam cheias de minúsculos insetos agitados que se moviam para dentro e para fora dos musgos brilhantes que cresciam nas ombreiras – um local para o crescimento de fungos. Se eram os próprios Golgari que produziam o ruído ou seus insetos, Ral não sabia dizer. Alguns deles portavam espadas curtas, mas a maioria estava desarmada: conjuradores de feitiços.

 

Aquela que falara, uma elfa, levantou um cajado retorcido. Ela mirou a ponta, que era decorada com o crânio de uma ratazana, diretamente na direção de Ral Zarek. “Você. Saia daqui agora.”

 

Ral gesticulou indicando o que havia à sua volta. “Isso não é nada além de um túnel abandonado e em ruínas. Ninguém é dono desse lugar.”

 

“Tudo o que a civilização descarta é nosso,” zombou a elfa Golgari.

 

“Bom, vocês vão ter que fugir de volta para qualquer que seja o buraco de onde saíram. O dragão Niv-Mizzet reivindica essa área agora – e qualquer outro canto abandonado que ele ache adequado para a Liga Izzet.”

 

As queixas dos Golgari foram guturais e sem palavras. Ral pensou ter ouvido algo que era quase um rosnado.

 

“Esse tipo de invasão teria sido ilegal de acordo com o Pacto das Guildas,” disse a elfa.

 

“Bem, não tem um Pacto das Guildas agora, tem? Sumam daqui. O dragão não gosta de esperar por suas descobertas.”

 

A xamã elfa riu novamente, mas abaixou a cabeça e recuou. E, com ela, o resto dos Golgari voltou às sombras. Houve um último som de chocalho quando a xamã balançou seu cajado com a caveira de rato, então tudo ficou em silêncio.

 

Skreeg soltou um suspiro no silêncio. “Que bom que acabou.”

 

Assim que ele disse isso, formas escuras estremeceram e ganharam vida ao redor da expedição Izzet: restos de esqueletos se sacudiram até ficarem de pé; montes de lixo se transformaram em horrores apodrecidos; musgos em decomposição se enrolaram em pedaços de ossos para se erguerem como criaturas de muitas pernas, soltando gritos sombrios e brandindo garras maliciosas.

 

“Elfos de esgoto que moram na podridão,” Ral xingou. Ele virou para os outros magos Izzet. “O que estão esperando? Destruam eles!”

 

Os Izzet se apressaram para conjurar magias, mas os zumbis Golgari feitos de lixo se lançaram em direção a eles com uma velocidade desconcertante. O goblin Skreeg uivou quando as garras de um zumbi o agarraram e o ergueram em direção a uma boca monstruosa. Ral lançou um raio na criatura apodrecida, fazendo-a em pedaços temporariamente. Skreeg caiu para a imundície do chão enquanto a criatura morta-viva se regenerava, fazendo restos de teias de aranha se fundirem à sua anatomia.

 

Ral agarrou os cabos de bronze do dispositivo experimental e tentou usá-los como arma. Ele espetou um horror morto-vivo com um, mas o cabo carregado mal chamuscou sua carne cinzenta. Ele poderia ter parado o coração de outra criatura, mas é claro que o coração da besta necromântica – se é que ela tinha um – já estava parado.

 

As coisas-zumbis atacaram em um enxame, se apertando em volta dos magos como cordas. Ral ouviu gritos de seus colegas de guilda, e múltiplas gavinhas começaram a se lançar em direção aos seus braços e pescoço.

 

“Se segurem em alguma coisa,” ele disse, e enfiou os cabos de mana direto em sua manopla.

 

As pálpebras de Ral começaram a cintilar. Um vento que não tinha origem se ergueu na câmara, e todos os pelos do corpo de Ral ficaram arrepiados. Enquanto mãos zumbificadas o seguravam e começavam a arrastar seu corpo em direção à horda zumbi, minúsculos arcos de energia de tempestade estalaram ao seu redor. O ar mudou com energia hipercinética, e Ral se sentiu flutuar a alguns centímetros do chão. Ele ouvia apenas o zumbido sussurrante da carga elétrica, como uma caldeira superaquecida. Sua visão foi tomada por um branco crepitante conforme ele se esforçava para absorver tanto mana quanto conseguia. Como um sol recém-nascido, cada parte do corpo de Ral explodiu com poder. Tudo era barulho e luz, e então tudo se tornou silêncio e escuridão. Ele não conseguia ouvir nada – ver nada.

 

Ele ouviu um estranho som de algo batendo, e depois de alguns momentos percebeu que era seu coração sobrecarregado. A seguir, constatou que estava respirando – evidência de que tinha sobrevivido de algum modo.

 

Alguém acendeu uma lâmpada incandescente. Ral viu objetos físicos novamente, mas através de uma névoa espessa. A cena surgiu ao seu redor aos poucos. Ele percebeu que a câmara estava coberta por uma nuvem de poeira e entulho destruído pela explosão.

 

“Quem está ferido?” ele tossiu.

 

“Acho que estamos bem, senhor,” disse um mago Izzet, escurecido e chamuscado, mas vivo.

 

“Graças a você,” disse Skreeg, surgindo da nuvem de pó.

 

Os mortos-vivos Golgari tinham sido obliterados, tendo recebido a carga do surto de corrente elétrica. Pedaços de tijolos caíram do teto, expondo faixas de alvenaria antiga.

 

Ral se sentiu mais vivo do que nunca antes. Seu coração estava batendo rápido demais, e ele gostava disso.

 

“Skreeg,” disse Ral. “As serpentinas de mana. Ligue-as novamente. Nós vamos terminar esse experimento.”

 

“Senhor?” disse um pesquisador Izzet.

 

“O que é?”

 

O mago estava olhando para o teto, para um pedaço de rocha antiga exposto pela explosão. “Você vai querer dar uma olhada nisso.”

 

 

Jace desceu as escadas para o andar principal e se aproximou da porta. Kavin não teria batido, e ele não estava esperando nenhuma outra visita. Ele preparou um feitiço para sentir a mente de quem quer que estivesse do lado de fora. Quando detectou os pensamentos de sua velha amiga, abriu rapidamente a porta com tudo.

 

Emmara parecia tão jovem como sempre, mas ela era uma elfa, sua idade tendia a não se mostrar. Emmara usava um vestido branco bordado com um padrão de hera rasteira que se enrolava ao redor de suas mangas, ramificando-se em ricas linhas marrons nos punhos que lembravam as raízes de grandes árvores. Jace sabia que ela detinha uma sabedoria e um poder silencioso que desmentiam sua aparência juvenil.

 

“Boa noite, velho amigo,” ela disse com um meio-sorriso.

 

“Emmara! Há quanto tempo. Entre.”

 

Assim que disse isso, ele se arrependeu. O santuário de Jace não era exatamente adequado para visitantes. Assim que ela passou pela porta, ele precisou guiá-la através dos escombros de sua pesquisa enquanto se desculpava. Jace tirou do caminho algumas peças de pedra das construções e eles se sentaram no chão perto de uma antiga lareira que não era usada, onde o carpete puído dava lugar a uma ampla área para acender o fogo.

 

Emmara examinou o lugar. “Você está envolvido com arqueologia?”

 

“Acho que posso dizer que é um projeto novo. Um colega e eu estamos estudando padrões em antigas obras de pedra. Eu tenho visto os mesmos padrões usados em dezenas de locais diferentes ao redor do distrito. São entalhes geométricos com elementos repetidos. Estou fascinado. Sabia que quase todas as construções desta rua possuem pedras provenientes do mesmo local?”

 

“Eu não sabia.” O rosto dela estava plácido, mas pelo modo como apertava as mãos no colo, Jace soube que essa não era uma visita social.

 

“O que te traz de Ovitzia?”

 

“Eu moro aqui agora, no Décimo,” disse Emmara. Ela ofereceu um pequeno objeto a Jace, segurando-o delicadamente com os dedos: um broche de madeira no formato de uma folha com veios intrincados. Era muito detalhado para ter sido esculpido mesmo por um mestre artesão; ele devia ter sido moldado por magia.

 

“O que é isso?”

 

“Um presente. Da minha mestra de guilda.”

 

Jace pegou a frágil folha de madeira com as duas mãos. “Mestra de guilda?” Ele olhou o pequeno broche com forma de árvore no ombro dela. “Você se juntou a uma guilda?”

 

“Eu retornei a ela. O Conclave Selesnya. Eu estava no Conclave há alguns anos – na verdade, antes de você nascer, garoto humano. E agora que estão reconstruindo, eles me chamaram de volta. Você deve ter visto como as guildas voltaram com força.”

 

“Para ser honesto, eu não tenho visto muito além deste edifício ultimamente,” Jace disse com um dar de ombros. Ele percebeu que provavelmente seus cabelos estavam apontando para todas as direções, e que Emmara tinha aumentado dramaticamente o contraste de limpeza com sua visita.

 

Emmara colocou toda sua atenção nele. “Jace, o que você sabe sobre o Pacto das Guildas?”

 

Era uma pergunta delicada. Jace nunca tinha sido completamente honesto com Emmara – ele nunca dissera que era um planeswalker, um mago capaz de viajar entre planos de existência. A maior parte das pessoas não tinha ideia de que havia planos além dos delas mesmas, e aqueles que estavam presos a um único plano não gostavam de ouvir que o lar com o qual estavam familiarizados era apenas um de uma gama potencialmente infinita de mundos.

 

Jace costumava manter sua natureza de planeswalker em segredo. Isso significava que às vezes tinha que fingir um pouco, mostrando conhecimento suficiente para se passar por um nativo, assim como em conversas iguais a esta. Ele conhecia a história da cidade-mundo Ravnica apenas através do que tinha coletado em sua pesquisa – e do que tinha visto nas mentes das outras pessoas.

 

Ele pensou em tentar bisbilhotar a mente de Emmara para ver se conseguia aprender mais sobre o Pacto das Guildas. Sua especialidade mágica era um atalho, mas às vezes era um atalho necessário. Porém, Emmara era uma maga habilidosa por si só, e costumava ser capaz de detectar a magia mental dele quando Jace a usava perto dela.

 

“Política nunca foi a matéria em que me saí melhor,” ele disse.

 

“Nós não deveríamos ficar surpresos por as guildas estarem se erguendo novamente,” disse Emmara. “As guildas são os pilares da história. A espinha dorsal de toda nossa civilização por milhares de anos, e, independentemente do que digam, o Pacto das Guildas foi o que as manteve unidas. Mas o Pacto das Guildas se foi. Dissolvido. Não há mais uma execução mágica de nenhum dos tratados ou leis. Os líderes de guilda não estão mais vinculados às restrições antigas.”

 

Jace pensou naqueles que conhecera e que buscavam poder – Liliana, Tezzeret, Nicol Bolas. Ele pensou em como eles sempre usavam seus poderes para conseguir mais. “Qualquer centro de poder testará seus limites.”

 

Emmara assentiu. “E sem esses limites...”

 

“Você acha que eles tentarão ultrapassá-los.”

 

Emmara olhou a frágil escultura em madeira nas mãos de Jace. “Eles já começaram a ultrapassá-los.”

 

“Quem? Os Rakdos?” Jace supôs. Ele nunca entendera por que os ravnicanos permitiram que um culto assassino venerador de um demônio permanecesse como uma das dez guildas oficiais – isso simplesmente parecia perigoso demais. A teoria corrente era de que a guilda Rakdos fornecia os requisitados serviços de entretenimento de mutilação e perversão aos que possuíam riqueza e poder, e que isso fora o suficiente para serem mantidos por perto.

 

“Não,” Emmara disse. “Os Izzet. Magos Izzet têm feito incursões ilegais para dentro do território de outras guildas.” A Liga Izzet – a mesma guilda dos experimentadores mágicos que frequentemente estavam presentes quando Jace descobrira artefatos de pedra gravados com o código.

 

“Mas isso não é um problema para os magos legistas? Os Azorius não deveriam assegurar esses limites?”

 

“Eles estão tentando. O Senado Azorius tem emitido embargos e decisões contra os Izzet dia após dia, a pedido das outras guildas. Mas, sem o Pacto das Guildas, os Azorius se tornaram burocratas sem poder para executar suas medidas. A legislação deles é só um monte de palavras no papel. Niv-Mizzet não parece se importar.”

 

Niv-Mizzet era o mestre de guilda e fundador da Liga Izzet, um arquimago curioso e profundamente engenhoso que também calhava de ser um dragão ancião. Se os Izzet tinham um novo plano, com certeza Niv-Mizzet era sua origem.

 

“O que o dragão disse?”

 

“Nada. O que quer que os Izzet estejam empreendendo, estão mantendo em segredo.”

 

“E você quer descobrir sobre o que é o projeto deles.” Você quer que eu descubra sobre o que é, ele pensou.

 

“Trostani, minha mestra de guilda, acha que é urgente que os Izzet exponham o que estão planejando. Mas se eles não cooperarem, as suspeitas crescerão entre as guildas. As tensões aumentarão. Isso pode levar a conflitos que podem colocar as guildas umas contra as outras.” Ela abriu as mãos e então as fechou novamente, “Nós precisamos que os Izzet cooperem.”

 

Jace se sentou novamente e respirou fundo, examinando o rosto de Emmara. Ela estava tentando não suplicar pela ajuda dele, mas ele conseguia ver a urgência por trás da expressão dela. Tinha algo em seu jeito que Jace nunca vira antes. Não era medo. Emmara não se preocupava com nenhuma ameaça à sua própria segurança. Ele percebeu que ela falava de uma obrigação – algo que Emmara sentia profundamente, uma preocupação além e acima da lealdade por sua guilda. Jace se perguntou se havia mais alguém que ela protegia.

 

“Como eu posso ajudar?”

 

O sorriso dela se iluminou. “Junte-se a nós,” ela disse. “Nos ajude. Nos ajude a entender o que os Izzet podem estar fazendo, assim podemos manter a paz neste distrito e em todos os distritos.”

 

“Você quer que eu me junte à sua guilda?”

 

“Você seria bem-vindo no Conclave. Os Selesnya acreditam em reunir as pessoas, em construir formas de todos coexistirmos. Jace, com os seus talentos – você teria um potencial enorme para se conectar com as pessoas. Nós poderíamos usar sua habilidade.”

 

“Não sei.” Uma guilda significaria se prender a um conjunto de valores, a um ponto de vista. Mais do que tudo, significaria se prender ao plano de Ravnica. E ele não tinha certeza, mesmo se ele fosse escolher uma das guildas de Ravnica, se escolheria os Selesnya. Jace olhou seu santuário ao redor, indicando a pesquisa em volta deles com um gesto vago. “Eu tenho muitos projetos em andamento... não posso me comprometer com isso agora.”

 

“Mas você seria capaz de ajudar tantas pessoas. Eu sou influente na guilda, Jace. Trostani me escolheu como um tipo de dignitária. E você poderia pegar o jeito em unir as pessoas. Nós poderíamos trabalhar para o mesmo propósito. Poderíamos aprender a verdade. Juntos.”

 

Jace hesitou. Não foram muitas as pessoas que tinham olhado para ele do modo como Emmara estava olhando neste momento. Jace queria dizer algo que fizesse com que ela olhasse para ele assim por muito mais tempo. Jace imaginou como o rosto dela se iluminaria muito mais se ele dissesse sim – como poderia tocar a mão dela e lhe dizer que nada era mais importante para ele do que se unir a ela, ajudá-la. Jace desejou que pudesse fazer isso, por ela.

 

Mas ele não podia.

 

“Lamento. Eu simplesmente não posso me juntar aos Selesnya. Mas talvez eu possa ajudar de outra forma.”

 

O sorriso de Emmara se desmanchou. “Ah, eu estou atrasada, então. Você já é parte de outra guilda?”

 

“Não. Não é isso.” Ele pensou em todo o tempo que passara em outros planos. Pensou em todos os mistérios que o levaram de um lado do Multiverso a outro. “Eu só não sou... alguém que goste de ficar muito ligado a algo.”

 

Isso a atingiu. “Entendo,” ela disse e se levantou. Seu comportamento se encheu de formalidade e etiqueta. “Bem, eu preciso ir. Tenho muitos assuntos da guilda para cuidar. Obrigada por seu tempo, Jace. Foi bom te ver.”

 

“Não, Emmara, me desculpe,” ele disse, se levantando com ela. “Eu só quis dizer que não posso me dar ao luxo de me meter em nenhuma dessas... políticas de guilda neste momento. Estou pesquisando algo importante, e isso está tomando todo o meu tempo. Eu adoraria te ajudar a resolver isso.”

 

Ela assentiu. “Nós adoraríamos te ter conosco,” Emmara disse. Quando estava na porta de Jace, ela se virou. “Essa folha que eu te dei é um artefato Selesnya, feito por um lignomoldador. Você pode usá-lo para me contatar, se quiser. Apenas diga as palavras de ativação para ele, e eu poderei te ouvir.”

 

Jace olhou para o presente dela em sua mão. “Quais são as palavras?”

 

“Preciso de você.”

 

 

As lâmpadas da rua tinham começado a acender na hora em que a elfa Selesnya saiu do edifício. Mirko Vosk permaneceu de pé sobre o telhado plano da construção, perto da beirada, observando-a adentrar a noite. Seguir a mulher tinha valido a pena, e não da forma como ele esperava.

 

Os olhos de Vosk refletiram a luz das lâmpadas como os de um gato, e ele estava com o peito quase nu apesar da noite fria. Mirko passou sobre a abertura da chaminé novamente, por onde ficara escutando com seus ouvidos afiados, mas não ouviu mais nada do homem que ela visitara. A mulher tinha demonstrado um claro interesse nesse homem, um conhecido que ela chamava de Jace. Ela acreditava em seus talentos – provavelmente um tipo de mago. E esse Jace mencionara estar conduzindo uma pesquisa sobre algum tipo de padrão ou código.

 

Esse era exatamente o tipo de informação que o mestre de Mirko Vosk gostaria de possuir. A mulher Selesnya tinha um cheiro apetitoso, e seu acesso direto a Trostani era valioso. Mas Vosk sentiu que tinha mais de um alvo agora.

 

Mirko Vosk deu um passo para além da beirada do edifício. Ao invés de cair, ele flutuou pelo céu noturno diretamente para o alto, com uma elegância casual. Era hora de procurar uma audiência com seu mestre oculto.

 

 

Os magos Izzet não eram difíceis de se encontrar. Depois de alguns dias de observação, Jace ouviu uma explosão e viu uma assustada revoada de pássaros através do distrito. A nuvem de fumaça azul era um sinal que denunciava um dos experimentos pirotécnicos dos Izzet. Jace rastreou a origem da explosão e espiou dois magos, um humano e um goblin, vestidos com engenhocas alquímicas e manoplas de mizzium. Eles saíram de um túnel em desuso, deixando para trás tijolos carbonizados e uma nuvem de fumaça, e seus instrumentos estalavam com energia. Pelo que Jace percebera, esse era o estilo das pesquisas Izzet: continuar adicionando energia até algo explodir, e então observar o resultado.

 

Jace ficou escondido na entrada do túnel, deixando os dois passarem. Ele abriu a mente para roçar brevemente seus pensamentos. O goblin, Skreeg, parecia ser um assistente do humano, ou possivelmente um aprendiz. O humano se chamava Ral Zarek.

 

“Nenhum sinal de nenhum portão lá, mesmo a energia sendo promissora,” disse Skreeg. “O que vamos dizer ao Grande Mente de Fogo?”

 

“Deixe que eu me preocupe em cuidar disso,” disse Zarek.

 

Skreeg e Zarek estavam se movendo, virando em uma rua principal e conversando rapidamente, então Jace não podia mergulhar fundo em suas mentes para descobrir o que eles sabiam. Ao invés disso, ele os seguiu, tentando se manter perto sem ser visto.

 

“Seria possível os Dimir simplesmente não terem seu próprio portão?” perguntou Skreeg.

 

“Impossível,” disse Zarek. “Ele está aqui. Está esperando em algum lugar por nós. Só temos que procurar mais.”

 

“Como é que a gente sabe disso? Como é que a gente sabe mesmo que vai encontrar o que está procurando?”

 

“Esse caminho foi construído para nós pelos ancestrais, Skreeg. Um parun criou tudo isso, entendeu? O fundador de uma das guildas montou esse quebra-cabeça através de todo o distrito para que nós o encontrássemos.”

 

“Claro,” disse Skreeg. Ele coçou a orelha. “Mas por que achamos que ele é para nós?”

 

Zarek bufou. “Porque nós achamos ele primeiro.”

 

Os dois magos Izzet caminhavam rápido e falavam baixo, e Jace não conseguiu caminhar perto o suficiente deles sem parecer suspeito. Ele tinha que encontrar uma forma de ficar mais perto. Jace conhecia feitiços de camuflagem que poderiam mascarar sua presença na mente de espectadores, mas não achava que conseguiria manter tal feitiço, ler os pensamentos dos dois e se manter no ritmo deles, tudo ao mesmo tempo. Talvez ele pudesse chegar mais perto sem permanecer no nível da rua.

 

Jace entrou em um beco enquanto os dois magos Izzet seguiram em frente. Ele escalou uma cerca e se puxou para cima até o telhado de uma taverna. Jace engatinhou pelo telhado, se mantendo agachado, até que pudesse olhar sobre a beirada oposta para ver Skreeg e Zarek. Ele ouviu os pensamentos superficiais deles de novo. Infelizmente, tinha perdido parte da conversa.

 

“Esse é só o primeiro passo,” Zarek estava dizendo. “De acordo com Niv-Mizzet, o código nos diz algo mais. Não é suficiente apenas encontrar os portões. Temos que saber qual é o caminho antes de descobrirmos o que está por trás dele.”

 

Skreeg juntou as mãos e sorriu para Zarek. “Ah! Me diga o que está por trás dele!”

 

“Ele é um velho lagarto descortês, Skreeg. Não compartilha comigo todos os segredos que conhece. Mas acho que sei o que estamos procurando.”

 

Eles estavam de novo se movendo para longe de Jace. Ele teve que saltar sobre um precipício para chegar à construção ao lado, correr para a borda do telhado inclinado e rastejar pela beirada logo acima dos magos para ouvi-los. Eles estavam falando ainda mais baixo agora, e mesmo com seus sentidos internos ativos, Jace teve que se esforçar para compreender o que estavam dizendo.

 

“Eu acho que é uma grande arma, Skreeg,” disse Zarek. “Escondida aqui, no Décimo. Os fundadores ancestrais das guildas sabiam que o Pacto das Guildas poderia não durar. E eu acho que um deles sabia que, se ele fosse quebrado, uma única guilda teria que se erguer para governar todas as outras. É por isso que eles nos deixaram uma arma, Skreeg, e a esconderam de um jeito que apenas aqueles dignos de usá-la pudessem encontrá-la. E nós somos os dignos, não somos? É por isso que Ravnica será nossa.”

 

Uma arma, Jace pensou. O código, os portões, o caminho – tudo isso esconde um tipo de arma. Ou ao menos era no que Zarek acreditava.

 

Jace não podia mais segui-los pelo telhado, e teve que observar enquanto cruzavam a rua para longe dele. Os magos tinham chegado ao início do território controlado pelos Izzet, cercado por altas barricadas rígidas cobertas por tubos de metal fumegantes. Skreeg e Zarek subiram um largo lance de escadas em direção a um grande portão arredondado, coroado com um gigantesco sinete que se assemelhava à silhueta do próprio dragão. Um esquadrão de guardas Izzet assentiu para eles, e o portão se abriu deslizando para admitir a entrada dos dois.

Quando o portão se abriu, Jace ficou surpreso em ver a silhueta de uma cabeça de dragão olhando pelo outro lado. Era o próprio Niv-Mizzet esperando pelo retorno deles.

 

“O que vocês encontraram para mim?” perguntou Niv-Mizzet.

 

A voz do dragão ressoou de tal modo que Jace pôde ouvi-la de seu esconderijo. Mas não conseguiu ouvir a resposta, e os magos Izzet em breve estariam do outro lado do portão fechado.

 

Ele sentiu que estava perto de descobrir o que estava por trás de todos os segredos, mas tinha certeza de que seria pego se tentasse passar pelo portão Izzet tão bem guardado. Jace já estava perdendo a conexão com as mentes dos magos. Além disso, Skreeg e Zarek não tinham toda a informação que ele desejava.

 

O dragão, porém, tinha. Jace tinha uma chance. Ele teria que olhar dentro da mente do dragão antes que o portão se fechasse, se ousasse.

 

Ele ousou.

 

 

 

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Próximo capítulo: 02 - Dentro da Mente de Fogo

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Retorno a Ravnica: O Secretista - Parte Um

Capítulo I: Batendo em Portas

Capítulo II: Dentro da Mente de Fogo

Capítulo III: Esculpindo Mentes

Capítulo IV: O Alcance da Lei

Capítulo V: A Multidão Barulhenta

Capítulo VI: O Caminho Subterrâneo







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