(Lore) Retorno a Ravnica 01 - Capítulo 03

       

Por: Alysteran em 25/01/19 17:50 | 1 comentários / 183 visitas

Olá, pessoal

 

Segue o terceiro capítulo do livro de Retorno a Ravnica, bem curtinho. :)

 

Para outros contos oficiais adaptados para o português, incluindo a história completa do bloco de Tarkir, veja o Índice de Artigos Traduzidos.

 

Alysteran

 

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RETORNO A RAVNICA: O SECRETISTA - PARTE UM

 

 

Autor: Doug Beyer

 

Capítulo anterior: 02 - Dentro da Mente de Fogo

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CAPÍTULO 03 - ESCULPINDO MENTES

 

Título original em inglês: Mind Sculpting

 

Jace olhou para fora da janela do albergue barato na torre, a Estalagem Torre de Pedra, a apenas uma quadra de distância da nada notável construção de tijolos que fora seu santuário. Ele pediu um quarto em um dos andares mais altos, com vista para o edifício do santuário, e guiou Kavin escadas acima, o persuadiu a entrar no quarto e trancou a porta.

 

Kavin passou a mão pela própria cabeça careca e lisa. Ele tinha a pele azul quase sem nenhum pelo, expressões atenuadas e mente lúcida típicas da raça vedalkeana, mas pouco de sua paciência característica – motivo para Jace gostar ainda mais dele. “Agora você vai me dizer o que estamos fazendo aqui?” ele perguntou.

 

“Você não trouxe documentos consigo, certo?” perguntou Jace. “Nenhuma anotação escondida? Nenhum diagrama ou tradução do código?”

 

“O quê? Não. Eu deixei tudo no santuário, exatamente como você pediu.”

 

“Bom,” disse Jace.

 

Com isso, ele enviou um comando mental ao mercenário que contratara, um campeão guerreiro dos Gruul – uma guilda de exilados brutos e anárquicos. Jace escolhera um ogro de duas cabeças chamado Ruric Thar, o guerreiro com aparência mais beligerante e menos intelectualmente curioso que conseguiu encontrar, para demolir o santuário.

 

Pode prosseguir, ele pensou para seu contratado, e a única resposta que ouviu foi um par de rugidos mentais sem palavras.

 

Do lado de fora, sons de vidro sendo estilhaçado e madeira partida vieram da construção do santuário.

 

“O que está acontecendo?” perguntou Kavin.

 

“Eu garanti que toda nossa pesquisa seja destruída,” disse Jace.

 

“Achei que você e eu cuidaríamos disso.”

 

“Não tenho certeza se faríamos um trabalho minucioso o suficiente. Sei ao menos que eu ficaria tentado a poupar algumas das minhas anotações e que seria atraído para o projeto de novo. Não podia correr esse risco.”

 

Kavin assentiu lentamente. “Mas então quem está destruindo nosso trabalho? Nós deveríamos mesmo só deixá-lo lá?”

 

“Eu contratei alguém para destruir o trabalho para nós. E o edifício também.”

 

“Mas nós não deveríamos sair daqui? Eu esperava ir para longe do Décimo – certamente mais longe do que a Estalagem Torre de Pedra.”

 

“Depois de hoje, você ainda vai poder fugir do Décimo se preferir. Mas, depois de hoje, nós não vamos precisar fugir.”

 

“O que você quer dizer com isso?”

 

“Você sabe que mesmo quando toda nossa pesquisa estiver destruída, ela não terá sumido completamente. Ainda haverá resquícios deixados para trás, resquícios que poderiam ser tomados de nós e usados contra nós – nas nossas memórias.”

 

As mãos de Kavin se levantaram lentamente, quase por conta própria, para uma posição defensiva. “Espere, Jace. O que exatamente você está sugerindo?”

 

“Você está certo. É perigoso demais seguir com essa pesquisa. Mas enquanto soubermos o que sabemos, estaremos em perigo, e todas as pessoas que conhecemos estarão em perigo. Eu não vou deixar nós sermos empurrados nas conspirações de um dragão só pelo que está nas nossas mentes. Eu não vou ser um peão, nem deixar que você seja usado como um peão por aqueles com mais poder do que consciência. Não enquanto puder consertar isso.”

 

“Você nunca me disse que podia fazer isso. Eu não sei se quero ser consertado.”

 

“Eu não vou deixar aqueles com quem me importo serem usados. Acredite, eu sei como é. Você acha que Ravnica é grande. Mas mesmo se você deixasse seu lar agora, e deixasse o Décimo Distrito para trás para sempre, aqueles que almejam o poder te encontrariam. Você se tornaria parte do jogo deles simplesmente por ter demonstrado curiosidade por algo, simplesmente por ter se importado o suficiente para explorar um segredo. Eles usariam seus pensamentos contra você e te encontrariam usando esses mesmos pensamentos.”

 

“Isso é mesmo possível? Alguém poderia mesmo fazer isso?”

 

Jace não olhou nos olhos de Kavin. “Eu poderia.”

 

Kavin ficou em silêncio por um longo tempo. Perto dali, através da janela, os dois observaram fumaça subir do edifício do santuário. Chamas tremularam dentro da construção. Jace achou que podia discernir a sombra de uma grande figura de duas cabeças quebrando tudo lá dentro.

 

“Se eu desistir do meu conhecimento sobre o código,” disse Kavin, “estarei entregando minha única arma. Minha única vantagem.”

 

“Não,” disse Jace. “Você estaria se recusando a ser uma arma.”

 

Houve um guincho do lado de fora. Jace e Kavin se viraram para ver um grifo carregando dois ginetes pousando no meio da rua. O ginete da frente segurou as rédeas, controlando o grifo indisciplinado, enquanto o de trás desmontou das costas da criatura. O grifo levantou voo novamente, batendo as asas e se erguendo no céu.

 

Jace reconheceu a figura imediatamente. Era Emmara. Ela estava andando para frente e para trás diante do edifício do santuário agora coberto de fumaça. “Jace!” ela gritou em direção à porta em chamas. “Jace!”

 

“Ah, não. Não, não, não. Não agora.” Jace abriu a janela. “Emmara!” ele chamou, acenando. “Emmara, aqui em cima!”

 

Emmara se virou, olhou para eles e foi correndo em direção à Estalagem Torre de Pedra.

 

 

 

“Não faça isso,” disse Emmara, sem ar depois de subir correndo as escadas até o quarto. “Não se atreva.”

 

“Kavin, essa é minha amiga Emmara,” disse Jace com uma etiqueta fingida. “Emmara, nós precisamos fazer isso. Você não vai impedir isso, e eu não vou me envolver em um conflito de guildas só para satisfazer minha própria curiosidade. E não vou deixar Kavin ser usado como um peão no jogo de um dragão. Você se lembra do meu chefe anterior, Tezzeret. Você deve entender o porquê.”

 

“Você é crucial para este esforço, Jace,” ela disse. “Você é o único que pode me ajudar. Por favor, não dê as costas para mim. Não depois de todas as vezes que eu juntei os seus pedaços, não depois de todos os problemas em que você se envolveu – e me envolveu. Você não pode me abandonar quando eu preciso de você. Quando todos nós precisamos de você.”

 

“Eu não vou me envolver por causa de todo o problema que eu te causei. Tezzeret enviou os homens dele para te matarem. Não posso deixar algo assim acontecer de novo. Não vou deixar.”

 

“Com licença,” disse Kavin, “mas você é Selesnya, certo? Que participação sua guilda tem nisso? Como isso afeta o Conclave?”

 

“Isso afeta a todos nós,” disse Emmara. “Ou afetará em breve. O que quer que os Izzet estejam planejando, veio bem em uma hora em que as guildas estão especialmente desconfiadas umas das outras. Niv-Mizzet é muito velho e muito ambicioso. O dragão pode estar planejando algo terrível. Ele pode ter criado um jogo de poder que nunca teria sido possível – não até o Pacto das Guildas ser dissolvido.”

 

Os olhos de Kavin se arregalaram. “Um golpe. Estamos falando de um golpe de estado.”

 

“Mesmo se ele não estiver planejando um golpe, você não acha que as outras guildas estarão esperando por um? Elas vão criar uma guerra entre guildas. Nós precisamos nos unir. É hora de alcançarmos a todos. E eu preciso da sua ajuda.”

 

“Não. Eu não vou ser parte disso.” Jace balançou a cabeça. Ele podia ver aonde isso levaria. Jace seria recrutado para uma luta com a promessa de assegurar a paz, então seria usado como uma ferramenta pelos poderosos para promoverem suas guerras pessoais. Quanto mais soubesse, mais valor teria para o dragão, e talvez para outros. E enquanto fosse valioso para eles, podia imaginar como esses poderosos veriam seus amigos. Kavin e Emmara não seriam mais do que moedas de troca, mercadorias atreladas ao que havia entre as orelhas de Jace. Ele não queria se render aos caprichos desse dragão, nem abandonar sua pesquisa. Mas disse a si mesmo que não era isso o que estava fazendo. A última coisa que queria era destruir informação, apagar o conhecimento adquirido com dificuldade – mas não havia escolha. No fim das contas, não era melhor para ninguém saber sobre aquilo.

 

“Coloque algum bom-senso na cabeça dele, Kavin,” ela disse, fazendo um gesto frustrado na direção de Jace. “Diga a ele que isso vai explodir e ferir muitas, muitas pessoas. Diga a ele que não é hora de voltar atrás.”

 

“Eu não posso, Emmara,” disse Jace. “Não posso. Não dessa vez. Kavin, por favor, sente-se.”

 

E com isso ele começou o feitiço para destruir memórias.

 

 

 

 

Jace estava em sua casa dentro da mente de outro homem.

 

Ele era um mago mental desde que usara magia pela primeira vez. Tinha explorado os contornos da consciência e sondado as profundezas sombrias da memória. Tinha até mesmo alguma experiência em destruir mentes por completo. Quando trabalhou para o Consórcio do Infinito de Tezzeret, um cartel interplanar de planeswalkers e bandidos, tinha reduzido muitos homens a tolos babões sem mente, com a justificativa de que aquilo era melhor do que matá-los. Ele não tinha orgulho do dano psíquico que causara. Mas o fato era que Jace era bom nisso quando precisava.

 

Ele avaliou a mente de Kavin, seu olho interno observando o domínio mental do vedalkeano como uma águia sobre o mar. Jace perscrutou as memórias de seu compatriota, rastreando vislumbres daquelas semanas em que ele e Kavin tinham trabalhado no código. Jace usou a própria consciência como escalpelo, cortando aqueles pedaços do passado, separando-os de suas ligações como teias de aranha brilhantes. As memórias levaram algum tempo para se dissolverem completamente enquanto ele passava pela mente de Kavin. Jace emitiu tremores de destruição mental específicos, deixando que se espalhassem por todas as associações, metáforas e justaposições mentais que pudessem levar Kavin àqueles pensamentos novamente.

 

Depois de um tempo que pareceu dias, Jace recuou dos pensamentos de Kavin. Ele não conseguia achar mais nenhum fragmento de memória pertencente ao código, à pesquisa deles ou ao labirinto. A obliteração fora completa. A mente de Kavin estava intacta, mas não continha nenhum traço do conhecimento que poderia colocá-lo em perigo. Jace deixou sua consciência retornar à própria mente.

 

Ele acordou, caído de lado na cama no quarto da Torre de Pedra, exausto e suando pelo esforço. Jace se empurrou para uma posição sentada. Emmara estava lá, a preocupação estampada em seu rosto. Kavin, porém, se fora.

 

“Aonde...” Jace secou a transpiração de seu rosto. “Aonde ele foi?”

 

Emmara não conseguia esconder o horror que sentia. “Jace. Ele conseguia sentir. Ele conseguia sentir enquanto você fazia isso com ele. No início ele estava calmo, sentado aí com você, mas então ele saiu tropeçando daqui. Ele correu, balbuciando. O que você fez com ele?”

 

Jace enxugou a testa, friccionando o cabelo emaranhado contra o couro cabeludo. “Eu fiz o que tinha que fazer. Ele não vai se lembrar de nada que o envolva nisso.”

 

Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas sua voz estava severa. “Eu nunca tinha te visto fazer isso.”

 

Jace respirou fundo. Ele ainda tinha mais trabalho a fazer. “Fique comigo,” ele disse. “Por favor.”

 

“Não faça isso,” ela disse.

 

“Por favor. Eu sei que é difícil de assistir.” Jace não gostava do jeito que ela estava olhando para ele agora.

 

“O problema não é te observar fazendo isso. Não é nem você ter escolhido não me ajudar, nem estar presente enquanto você destrói uma parte de si mesmo. É o erro que você está cometendo. É isso que é impossível de assistir.”

 

Ele se perguntou se a amizade deles estava se desfazendo, mas decidiu que mesmo isso valeria a pena se fosse para protegê-la.

 

“Eu não posso te ajudar.”

 

“Você precisa me ajudar. Só pense nisso por um momento.”

 

“Eu já pensei,” ele disse. “Por favor, fique.” E então ele conjurou o feitiço que nunca pensara que usaria em si mesmo.

 

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Próximo capítulo: 04 - O Alcance da Lei

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Retorno a Ravnica: O Secretista - Parte Um

Capítulo I: Batendo em Portas

Capítulo II: Dentro da Mente de Fogo

Capítulo III: Esculpindo Mentes

Capítulo IV: O Alcance da Lei

Capítulo V: A Multidão Barulhenta

Capítulo VI: O Caminho Subterrâneo







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Comentários

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FFFF (29/01/2019 10:34:55)

Parabéns pelo trabalho!