(Lore) Retorno a Ravnica 01 - Capítulo 04

       

Por: Alysteran em 03/02/19 00:35 | 0 comentários / 154 visitas

Olá, pessoal

 

O post de hoje traz o quarto capítulo do livro de Retorno a Ravnica. Para outros contos oficiais adaptados para o português, incluindo a história completa do bloco de Tarkir, veja o Índice de Artigos Traduzidos.

 

Alysteran

 

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RETORNO A RAVNICA: O SECRETISTA - PARTE UM

 

 

Autor: Doug Beyer

 

Capítulo anterior: 03 - Esculpindo Mentes

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CAPÍTULO 04 - O ALCANCE DA LEI

 

Título original em inglês: The Reach of the Law

 

 

Jace acordou estremecendo nas tábuas do chão de um quarto que não lhe era familiar. Ele estava com uma palpitação feia no crânio e um buraco na memória. Jace não entendeu por que estava de bruços, nem por que estava no chão, embora também não se lembrasse de por que não deveria estar no chão. Ele tinha a sensação de que algum tempo tinha se passado, embora não se lembrasse do porquê.

 

Jace percebeu que alguém estava falando com ele.

 

“Senhor,” disse a voz hesitante de um homem. “Senhor, você está bem?”

 

Enquanto Jace se empurrava para cima, sentiu uma pontada de dor perto a linha entre a testa e o cabelo. Por reflexo, colocou a mão na cabeça, e, quando a afastou, havia sangue em seus dedos. Um homem estava de pé ao lado dele, as mãos apertadas. Jace tentou reconhecer seu rosto. Pareceu estranho se esforçar para uma tarefa que sempre fora feita automaticamente antes, como simplesmente reconhecer uma face.

 

“Receio que eles tenham levado sua amiga,” o homem disse. “Lamento muito pela sua perda.”

 

“Desculpe, qual é o seu nome de novo?” Jace perguntou. Sua voz estalando conforme ele falava, como se não tivesse falado por horas.

 

“Andrek. Eu sou o estalajadeiro.”

 

Estalajadeiro. “A Torre de Pedra,” Jace disse.

 

“Isso mesmo, senhor.”

 

Jace ficou de pé, se arrependendo de fazer isso assim que sentiu a mente se turvando de dor. Ele cambaleou até a janela. Jace estava em um andar alto do edifício, olhando de cima para a rua à noite. Ele percebeu que se encontrava do outro lado da rua em relação a seu santuário, que estava, de forma alarmante, em chamas.

 

Não era o jeito que Jace se lembrava de tê-lo deixado.

 

“Receio que você vá ser taxado pelos danos,” disse Andrek, o estalajadeiro.

 

Examinando o quarto, Jace percebeu que o lugar estava arruinado. A cama jazia de ponta-cabeça e quebrada junto à parede, uma cadeira estava despedaçada e marcas de faca raivosas tinham talhado o lambris. Flocos de cinzas de algum feitiço piromântico desconhecido sujavam o chão como se fosse confete negro. Jace percebeu uma moeda imunda no chão – não era uma peça do dinheiro usualmente utilizado no Décimo. Parecia um símbolo novo e barato. De um lado havia o desenho do rosto de um demônio de olhar maldoso, e do outro estavam as palavras CORRA COM A MULTIDÃO BARULHENTA.

 

Jace distraidamente guardou a moeda. “O que aconteceu aqui?”

 

“Como eu disse, senhor. Eles levaram sua amiga. A elfa.”

 

Emmara. Jace lembrava que ela estivera aqui com ele, apesar de não lembrar o motivo. “Quem a levou?”

 

“Eles eram Rakdos, senhor. Uma turba inteira deles. Eu lamento muito.”

 

Jace agarrou a camisa do estalajadeiro com os punhos. Suas próximas três palavras foram intencionalmente ditas com os narizes bem próximos. “Aonde eles foram?”

 

“Não sei dizer, senhor. Além disso, tem alguns oficiais Azorius lá embaixo fazendo perguntas. Você sabe algo sobre esse edifício em chamas do outro lado da rua?”

 

 

 

Jace chegou à escadaria logo antes de dar de cara com os oficiais Azorius subindo do piso inferior da estalagem.

 

“Senhor, você é Jace Beleren, o homem que vive no edifício do outro lado da rua?” perguntou a oficial, uma mulher alta vestindo uma reluzente armadura de placas. O sinete em sua capa era um círculo rúnico dentro de um triângulo equilátero, o símbolo da guilda Azorius. Atrás dela, dois cavaleiros bloqueavam a escada com as mãos em suas bainhas.

 

“Ocorreu um sequestro,” disse Jace. “Uma gangue de cultistas Rakdos levou minha amiga deste hotel.”

 

“O estalajadeiro nos informou desse incidente e um requerimento foi preenchido pelo ministro de investigações,” disse a oficial. “Você é Jace Beleren?”

 

“Minha casa está queimando, sim, e eu não sei o motivo. E fui... fui atacado, acho. Posso tentar responder às suas perguntas sobre esse local depois. Neste momento, preciso da sua ajuda para encontrar minha amiga.”

 

A cabeça de Jace latejava, e uma gota de sangue escorreu por sua testa e atingiu sua sobrancelha.

 

“Não tenho autorização para investigar isso neste momento, senhor. Um oficial será designado em concordância com todas as leis e estatutos aplicáveis. O senhor poderia vir conosco?”

 

Jace se perguntou como os oficiais o encontraram, como sabiam o seu nome e quanto tempo tinha se passado desde que o edifício começara a pegar fogo. Normalmente levavam semanas para os Azorius encaminharem os formulários apropriados através do seu sistema desconcertante de permissões e regulações. E mesmo assim, aqui estavam eles, com intenção de questioná-lo. Ele apertou os punhos, desejando conseguir lembrar que eventos o trouxeram até aqui.

 

“Se vocês não vão encontrá-la, então eu vou,” disse Jace.

 

Jace atacou com uma magia que deveria incapacitar os oficiais Azorius, mas eles apenas franziram seus cenhos para ele. Seu feitiço falhara. Um deles devia ser um mago legista, e eles já deviam ter espalhado feitiços pela área – exatamente o que ele faria se pensasse haver um mago mental aqui.

 

“Suspeito Jace Beleren,” disse a oficial Azorius, unindo as mãos para formar uma espiral apertada de runas mágicas brilhantes. “Suas ações correspondem a uma definição razoável de resistência, e por isso o uso de força mágica está autorizado. Venha conosco, agora.” Ela deu um passo em direção a Jace. “Sua colaboração é obrigatória.”

 

Jace estava sem tempo e sem opções. Era hora de se entregar. Mas ao invés disso ele se viu correndo para uma janela do lado oposto do hall da estalagem. Jace se atirou contra o vidro, que se estilhaçou enquanto ele caía no telhado do piso superior do edifício ao lado. Jace rolou por parte do telhado inclinado, caiu em uma plataforma mais baixa, rolou por mais telhas inclinadas e caiu metade de um andar para dentro de uma barraca de amoras. Ele saiu cambaleando, cuspindo um bocado de amoras.

 

Jace esperava ver os oficiais Azorius já na parte de trás da estalagem, mas ao invés disso viu pés enormes. Conforme ele analisava mais acima, os pés se mostraram conectados a pernas musculosas do tamanho do tronco de uma árvore, que por sua vez estavam ligadas a um corpo gigantesco que bloqueava seu caminho. O ogro que o encarou olhou para ele de dois ângulos devido ao fato de ter duas cabeças. Um dos antebraços do ogro de duas cabeças tinha sido substituído, ou possivelmente melhorado, por um gigantesco machado prostético, e rudes tatuagens clânicas cobriam seus membros de cima a baixo.

 

“É você,” disse uma das cabeças do ogro com um grunhido gutural.

 

“É ele,” concordou a outra cabeça, as palavras retumbando por suas presas.

 

Jace não teve tempo para processar isso. Ele procurou por rotas de fuga, mas os Azorius o alcançaram, correndo ao redor do edifício e se aproximando dele. Os números deles tinham aumentado, mas, quando viram o ogro de duas cabeças, hesitaram. Cada uma das cabeças do brutamontes retribuiu o olhar deles com um par de risos zombeteiros, um grunhido profundo retumbando em seu peito.

 

“Eu sou a Oficial Lavínia do Décimo,” disse a oficial Azorius, a mesma mulher que o confrontara no topo da escadaria. “Jace Beleren, você está preso pela autoridade da Juíza Suprema Isperia e o governo de Nova Prahv. Você, cidadão,” ela adicionou, indicando o ogro, “ficará para trás dessa vez e não interferirá.”

 

Jace examinou a formação circular de oficiais e magos legistas Azorius em suas armaduras. Nenhum deles o ajudaria a encontrar Emmara, mas ele não conseguia ver uma saída. Ele caminhou à frente, mãos para cima, e a líder Lavínia o tomou sob custódia simplesmente colocando a mão sobre o ombro dele. O toque dela era frio através do material da capa dele, e o fez se sentir instantaneamente lento e obediente. Se Jace tinha alguma resistência sobrando, ela o estava abandonando rapidamente.

 

Nisso, o ogro foi na direção de Lavínia e deu uma cabeçada nela com suas duas cabeças simultaneamente, ressoando em seu elmo a partir de duas direções diferentes.

 

Enquanto Lavínia tombava, os magos legistas Azorius lançaram seus feitiços de restrição no ogro gigantesco, mas mal conseguiram reduzir sua velocidade. Soldados avançaram para enfrentar o ogro de duas cabeças com espadas e lanças, mas um movimento do machado da criatura os cortou, seus corpos revestidos em armaduras jogados para longe fazendo o barulho de latas de estanho sendo derrubadas.

 

Com a líder dos Azorius caída e toda a unidade distraída, Jace tentou dar um passo para o lado, buscando um caminho para longe da luta. O ogro rugiu com as duas cabeças e bateu outro soldado Azorius contra a parede. Jace considerou momentaneamente ajudar esse fortuito guerreiro ogro, mas pensou melhor e escapuliu para longe com a confusão da briga.

 

 

Jace deixou para trás a Estalagem Torre de Pedra e a casca arruinada do edifício que fora seu santuário e adentrou o Décimo. Enquanto caminhava, ele repassou a cena em sua mente, tentando retraçar seus passos e descobrir o que tinha acontecido antes de acordar. Jace se viu acordar no chão, tocar o ferimento na cabeça e olhar para o estalajadeiro de pé ao lado dele. Os momentos anteriores estavam escuros, vazios – apenas um nada estrondoso. Era como se um punhado de dias tivessem sido arrancados dele à força.

 

Jace encontrou um beco vazio e cambaleou para dentro dele. Ele foi até um tipo de caverna urbana, cercada por altas construções de tijolos e caixas de madeira cheias de entulho. Jace se jogou de costas contra a parede e se deixou escorregar até o chão. Ele cobriu a cabeça com o capuz e dobrou os joelhos à frente do peito, como se para trazer cada parte de si o mais perto possível de seu próprio centro de gravidade. Se pudesse ficar pequeno, ele pensou, poderia de alguma forma cair para dentro das rachaduras. Todo mundo poderia ignorá-lo, e Jace poderia acreditar que nada daquilo era real.

 

Ele encarou os próprios joelhos. As costuras das suas calças estavam gastas. Um arranhão irregular estava visível através de um buraco no joelho, das suas andanças pelo distrito. Ele se levantou e tentou achar um caminho através da escuridão pegajosa de sua memória. Mas o vazio persistia. Jace tentou se lembrar de um ano antes, e de muitos meses atrás – e então sua mente escorregava em faixas de tempo incerto. Ele mal conseguia se lembrar de um dia que tivesse passado no santuário, ou o que acontecera nos momentos antes do aparente desaparecimento de Emmara.

 

Jace pressionou os olhos com as palmas das mãos. Ele lutou para respirar, mas só conseguia sugar o ar em arfadas curtas.

 

Jace abriu os olhos e olhou ao redor. Ele podia sentir pessoas caminhando pelas pontes elevadas nas torres do Décimo, ouvi-las se misturando ao passarem pelo beco, vê-las lançando olhares em sua direção. Esse lugar não era mais sua casa adotiva, nem um santuário contra a vastidão do Multiverso. Era um labirinto de olhos acusadores. Ele se deu conta de que poderia simplesmente deixar o plano e se lançar para alguma outra existência. Para um planeswalker, recuar era quase sempre uma opção.

 

Uma janela foi aberta na parede quatro andares acima dele. Um par de mãos foi colocado para fora e despejou um pote com os restos do jantar de alguém – ele esperou que fosse o jantar. As sobras caíram pelo ar e bateram contra o pavimento perto dele, perto o suficiente para respingar em sua capa. Era um pouco de ensopado de carne com batatas, frio, porém feito em casa – um sinal de vida e normalidade. Ele olhou para a janela, de onde a luz brilhava, as sombras de figuras se movendo de vez em quando.

 

Jace enviou seus sentidos para aquela janela, percebendo as formas das mentes dentro do edifício. Detalhes inundaram sua mente. Ele sentiu duas pessoas, humanos sem guilda. Eles eram um casal que possuía uma padaria ali perto. Os dois trabalhavam em turnos diferentes. Jace não conseguia ouvir suas vozes, mas podia ler as palavras em suas mentes enquanto eles as pronunciavam.

 

“Você nem disse o que achou,” um estava dizendo.

 

“Sei lá,” disse o outro. “Longo e chato, como qualquer outro dia. Os negócios estão indo melhor agora que as guildas estão de volta. Mas ainda não temos tantos clientes quanto eu gostaria para conseguirmos pagar o forno novo.”

 

“Eu me referia ao ensopado. Você não disse nada sobre ele.”

 

Jace se agarrou às palavras deles, equilibrando as duas mentes em sua consciência, aconchegando-se ao calor da conversa deles.

 

“Bem, estava frio. E o bife estava fibroso.”

 

“Você chegou tarde.”

 

“As ruas estavam uma loucura. As guildas saíram de novo em peso hoje à noite. Impositores Boros, desordeiros Rakdos... mal consegui chegar em casa.”

 

Jace fechou sua consciência de volta na própria mente. Ele teve pena deste casal, dois dos inúmeros inocentes cujas vidas eram impactadas todos os dias pelas atividades das guildas de Ravnica. Sua mente formou flashes de imagens das aberrações Rakdos entrando com tudo em seu quarto na estalagem, com Emmara em pé, desafiadora diante deles. Seriam essas memórias reais ou forjadas – sua imaginação a respeito de um evento de que ele só vira as consequências? Jace colocou as pontas dos dedos nas têmporas e pressionou, como se pudesse espremer os pensamentos para fora da cabeça, ou como se pudesse empurrar os buracos vazios de sua memória. Ele ficou olhando para frente, para o nada, tentando ignorar que a ponta de seu casaco estava mergulhada em uma poça de algo não identificável.

 

Jace colocou as mãos sobre a capa e sentiu algo no bolso. Ele retirou a folha de madeira primorosamente trabalhada que Emmara lhe dera. Ela tinha a mais leve fragrância da pele dela. Emmara lhe dissera que aquela era uma forma de contatá-la, mas ele não sabia se ela conseguiria responder. Jace não sabia nem se o broche lhe indicaria que a mensagem chegara ao seu destino – estivesse Emmara viva ou morta.

 

Ele deixou o artefato balançar na palma da mão. Era tão delicado que se movia levemente com sua pulsação.

 

“Preciso de você,” ele sussurrou.

 

O artefato se acendeu com uma luz branca por um momento, os intrincados veios esculpidos brilhando como fios superaquecidos, e Jace sentiu um formigamento em sua pele. Então o artefato se apagou, os veios se atenuando para fios frágeis como cinzas, e o objeto se desintegrou em sua mão.

 

Ele desejou que ela pudesse ouvi-lo, onde quer que estivesse. Jace desejou que, se ela tivesse escutado, soubesse que isso significava que ele a encontraria. Ao menos se ela tivesse escutado, pensou, significava que ele tinha dito as palavras.

 

Então Jace esticou a mão para o outro bolso onde estava a moeda estranha que ele encontrara na estalagem. Ela podia ter sido derrubada pelos atacantes. Jace examinou o lado em que figurava o demônio de sorriso enviesado – provavelmente um símbolo dos Rakdos, considerando a associação deles com as forças demoníacas. Ele leu o outro lado: CORRA COM A MULTIDÃO BARULHENTA. Talvez fosse um tipo de grito de guerra para o Culto de Rakdos, pensou Jace, ou um slogan de recrutamento. Ou alguma outra coisa.

 

Ele se levantou abruptamente. Subitamente, ele soube onde procurar.

 

 

 

A Oficial Lavínia ficou de pé diante das gigantescas portas duplas que levavam à mais alta espiral de Nova Prahv, o reduto de sua mestra de guilda. Apenas olhando para ela, nada pareceria fora do lugar: sua capa estava elegantemente colocada sobre sua armadura de oficial, sua espada brilhava como uma peça decorativa que alguém poderia expor sobre a lareira e suas medalhas de três lados mostravam sua patente e o distrito sob sua jurisdição. Mas sua sobrancelha tremia, mais de frustração do que de medo. “Sua Excelência, a Juíza Suprema deseja ter uma palavra com a senhora.”

 

Quando os hussardos abriram as portas para ela, Lavínia pisou sobre o estrado coberto por um carpete azul e assentiu com a cabeça, o tradicional aceno de respeito. Sob um enorme sinete Azorius, com suas runas que mais pareciam um labirinto formando um triângulo perfeito, estava sua mestra de guilda, a Suprema Juíza em pessoa: a esfinge Isperia. Um escriba vestindo um robe e que tinha sobrancelhas cinzentas quase maiores do que seu rosto ficou por perto, segurando uma pena pronta sobre um longo rolo de papel.

 

“Vossa Excelência,” disse Lavínia.

 

O escriba escreveu em seu papel, fazendo um som agudo de algo arranhando, e então parou novamente.

 

As imensas asas emplumadas de Isperia estavam dobradas contra suas costas de leão, e ela se sentava com a coluna arqueada nobremente. Suas patas se flexionaram, espetando partes do carpete com suas garras.

 

Os olhos da esfinge se focaram diretamente em Lavínia. Alguns diziam que a mestra de guilda nunca piscava, e Lavínia não encontrou evidências do contrário.

 

“Você retornou da investigação ao suspeito,” disse Isperia.

 

“Sim, Excelência,” disse Lavínia.

 

“E mesmo assim Jace Beleren não está diante de mim agora. Por que isso?”

 

O escriba continuou arranhando. Lavínia não conseguiu evitar lançar a ele um olhar de incômodo.

 

“Ele fugiu das nossas patrulhas. Nós precisamos de mais hussardos, mais magos legistas.”

 

A esfinge agitou as grandes asas. “Não me parece que você vá obter sucesso com mais recursos.”

 

Os dentes de Lavínia se apertaram. Não se contradizia uma esfinge, muito menos sua mestra de guilda.

 

“Você descobriu o que podia da cena?”

 

“A evidência parece clara, Excelência. Temos testemunhas que confirmarão que o suspeito fugiu da cena depois de tentar usar magia em nossos oficiais.”

 

“Esse homem parece perigoso, Oficial Lavínia. Como você o perseguiu?”

 

“Nossa perseguição foi atrasada por uma altercação com um indivíduo não relacionado ao caso. No momento em que resolvemos esta situação, o suspeito tinha escapado. Mas nós o encontraremos.”

 

“Uma pessoa atrasou toda a sua investigação?”

 

“Era um ogro, Excelência. Um dos Gruul. Um guerreiro temível.”

 

“E ele, é claro, foi apreendido em concordância com os protocolos?”

 

“Sim, Excelência. Nós o confinamos temporariamente.”

 

“Temporariamente?”

 

“Ele quebrou os feitiços de detenção.”

 

“Desfazendo suas runas de lei?”

 

“Esmurrando-as... Excelência. Ele também está desaparecido.”

 

Isperia lançou-lhe um olhar zangado. “Oficial Lavínia,” ela vociferou, “quando eu lhe fizer uma pergunta, você responderá com nada menos do que a mais perfeita e transparente verdade. Entendeu?”

 

Foi necessária toda a força de vontade de Lavínia para não dar meio passo para trás. O escriba continuava escrevendo, sua pena indo para frente e para trás, e ele murmurou algo para si mesmo.

 

Lavínia manteve os ombros erguidos. “Sim, Excelência.”

 

“Que informação à levou até aquele edifício?”

 

“Nós recebemos uma indicação de um mensageiro. A mensagem foi enviada anonimamente. Ainda não foi feita uma investigação sobre a origem dessa indicação, mas cuidarei disso em seguida.”

 

“Oficial Lavínia, a senhora está ciente de que foi relatado que a colega de Beleren, Emmara Tandris, foi sequestrada naquela mesma noite?”

 

“Estou.”

 

“E está ciente de que ela é – ou era – uma dignitária do Conclave Selesnya?”

 

“Eu—eu não estava, Excelência.”

 

“E está ciente de que alguns dentre os Selesnya estão culpando a inadequação da segurança do Décimo Distrito pelo desaparecimento dessa elfa?”

 

Lavínia gaguejou, tentando formar palavras de protesto. A esfinge se sentou novamente sobre as ancas e ajeitou as asas. Seus olhos que não piscavam vagaram para longe, observando o resto da câmara. Lavínia sentiu que sua mestra de guilda tinha perdido o interesse nela naquele momento.

 

“O que os Boros fizeram quanto a essa situação?”

 

“Logo depois que nos reagrupamos, a Legião Boros enviou seus próprios investigadores. Como de costume, eles demandam controle sobre a investigação, e como de costume eles não submeteram seu requerimento pelas vias adequadas.”

 

“Deixe que eles cuidem da apreensão de Beleren.”

 

Lavínia congelou. “Vossa Excelência, eu não entendo.”

 

“Minhas palavras foram claras e verdadeiras.”

 

“A senhora está—a senhora está entregando isso aos Boros? Mas eles vão só fazer confusão com este trabalho. Eles vão transformar isso em uma guerra de rua e nunca encontrarão a verdade.”

 

“Porém, eles podem encontrar Beleren.”

 

Lavínia perdeu a compostura. Ela olhou pela câmara, tentando encontrar alguma campainha para tocar, alguma porta para bater. O escriba deu uma olhada para ela, sem mais nenhum diálogo para transcrever, mas quando ela viu o rosto do homem, ele rapidamente virou os olhos de volta para os próprios papéis.

 

“Eu formalmente requisito estender essa investigação,” disse Lavínia. “Preencherei as ordens judiciais necessárias.”

 

“Lembre-me,” disse a esfinge. “O que a sua jurisdição abrange?”

 

“Todo o Décimo, Excelência, e uma parte dos distritos afastados.”

 

“Sua jurisdição agora é cuidar da guarda dessas espirais. Você entregará toda a documentação e os materiais relativos a Beleren ao líder de investigação da Legião Boros.”

 

O queixo de Lavínia caiu para seu peito. “Eu serei uma glorificada guarda da nossa morada.”

 

A esfinge não piscou. “Não vejo glória nisso.”

 

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Próximo capítulo: 05 - A Multidão Barulhenta

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Retorno a Ravnica: O Secretista - Parte Um

Capítulo I: Batendo em Portas

Capítulo II: Dentro da Mente de Fogo

Capítulo III: Esculpindo Mentes

Capítulo IV: O Alcance da Lei

Capítulo V: A Multidão Barulhenta

Capítulo VI: O Caminho Subterrâneo







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